“Faltar à verdade” ou nivelar o discurso com a idade mental do eleitorado

Quantos dias terá o Congresso do PSD? Pessoalmente, o Congresso podia acabar poucas horas depois de começar. Com o discurso de Manuela Ferreira Leite. O que virá a seguir será com certeza babugem eleitoralista e inútil.

(…)

O lado trágico está aqui: as eleições não se ganham com verdades; ganham-se com mentiras porque os portugueses preferem-nas. E se existiu erro no consulado de Ferreira Leite foi o de sobrevalorizar a maturidade dos portugueses; a crença ingénua de que era possível falar para adultos. Não é. Para regressar ao poder, não basta ao PSD eleger um líder e esperar que o eng. Sócrates caia da cadeira. É preciso nivelar o discurso com a idade mental do eleitorado.

Gostaria de poder discordar da última linha escrita por João Pereira Coutinho. Discordar que é necessário mentir, enganar, dissimular, ou o muito em voga «faltar à verdade», para ganhar eleições. Discordar que os portugueses gostam de ser tratados como mentecaptos incapazes de sair da esfera consequencialista do curto prazo. Mas pelo resultado das últimas eleições e pelas estimativas sobre uma eventual nova eleição, não tenho como discordar. Mas posso discordar num ponto. Parece-me que a preocupação de João Pereira Coutinho é vã quanto ao receio de que a oposição a Sócrates não perceba que tem de nivelar o discurso para o vencer: a tendência actual é de embrulhar proto-conteúdo com farinha retórica, a ver se os portugueses engolem e nem dão por ela, que quando estiverem a digerir “já teremos o poder no papo”.

É este o maior legado de Sócrates e a lição que os profissionais da política retiram da derrota de Ferreira Leite: as ideias, a verdade, o diagnóstico, são ferramentas que atrapalham o poder. A Era do poder pós-Sócrates caracteriza-se por essa crença de que a ideologia (como um sistema coerente de ideias) já não tem lugar no discurso político, até porque as ideias têm essa perigosa característica de poderem ser avaliadas, criticadas, e refutadas. Lugares comuns, faltas à verdade que não são mentira mas também não são realidade, coisas que não estão à esquerda mas que também não estão à direita, coisas que não são nada de concreto pois o não concreto é hoje o caminho mais seguro para o poder. Nomear, sequer, conceitos referentes a ideologia é tabu. Quer para criticar a ideologia vigente, quer para apresentar uma que seja alternativa.

Mas há uma consequência, essa sim verdadeiramente perigosa, nessa técnica de esterilização do ideológico na política: é que a política é por natureza a prática de uma sistema de ideias. É ilusão pensar que pode haver acção política sem guia ideológico, um rumo sem um objectivo de chegada. É ilusão pensar que tal coisa como o “realismo político” ou o “pragmatismo político” não se senta no cadeirão invisível da ideologia política. E é perigoso no sentido em que esse ideológico disfarçado (que existe ainda, mas nunca verbalizado pelos políticos nem nunca consciencializado pelo eleitorado) fica imune à avaliação, crítica e rejeição que apenas um debate de ideias possibilita. As ferramentas de combate político afunilam-se progressivamente na injúria, no ataque pessoal, na descredibilizaçõ do adversário, esvaziando-se cada vez mais de qualquer tipo de conteúdo intelectual.

Não censuro os jornais por apresentarem um resumo muito pobre daquilo que no geral foi dito durante o XXXII Congresso PSD. Intrigas, personificação do mal na figura de Sócrates, personificação do bem noutra figura, algumas propostas avulso mas nada de ideias. É de salientar que mesmo num pavilhão que, à partida, reunia no seu interior um eleitorado com um património ideológico comum, houve pudor ou desvalorização do debate de ideias. E não se pense que isso se deveu ao facto de haver um entendimentos espontâneo quanto a questões ideológicas. Basta recordar as sessões no Instituto Sá Carneiro, numas das raras vezes em que há exposição e debate de ideias no interior do PSD, que puseram a nu a profundidade dos desencontros e confrontos ideológicos no interior do partido. Mas não me parece que seja isso que interessa ao PSD explorar, que neste momento se divide em confrontos internos que nada têm que ver com a defesa de ideias.

De um ponto de vista interno ao PSD é pena que o próprio partido desperdice o legado de Ferreira Leite (verbalmente ou na prática). De um ponto de vista externo é o próprio país que perde com esta esterilização do intelectual em que o “faltar à verdade” inaugura um novo tipo de negação da realidade: não aquele que a falseia e que por isso mente, mas simplesmente aquele que se demite de falar nela directamente.

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4 pensamentos sobre ““Faltar à verdade” ou nivelar o discurso com a idade mental do eleitorado

  1. Elisabete

    Gostei imeso deste seu post e concordo completamente.
    Acho até que este é a influência mais perversa da cultura “PS”, e não apenas deste “período socratino”, pois já vem do período “soarista”, e só agora podemos dizer que se sedimentou na cultura portuguesa. O resultado, este “cinismo do eleitorado” bem descrito num post recente do “Desabrantizante” por JB, é o que João Pereira Coutinho revela nessa crónica.
    No fundo, o grande dilema: para mudar alguma coisa e para isso aceder ao poder, teremos de alinhar na “cultura socialista”, na sua visão de política como mentira, dizer aos eleitores o que eles querem ouvir?

    Deixo aqui um outro dilema: e qual foi o resultado desse “carrocel”? Não é precisamente o distanciamento do eleitorado, o descrédito nos políticos, a desconfiança generalizada?
    Para mudar alguma coisa não é necessário envolver, responsabilizar, mobilizar os cidadãos? E como fazê-lo a não ser com um projecto claro e baseado na realidade?
    Ana

  2. chocoscomtinta

    Meus caros…..

    Lamento muito mas penso que os Portugueses são como os viciados (droga, alcool, etc. etc.) que vão dizendo que se querem curar mas não querem porque os vendedores da “droga” continuam activos. Até bater no fundo fundo!!!!

    Só então aceitarão as terapias que envolvem muito sofrimento (ressaca atrás de ressaca) e vómito.

    O que é preciso é acabar com a “droga” da subsídio-dependência e “emprego garantido” (não digo trabalho porque esse poucos querem) no Estado.

    Presentemente o pusher é o PS e este garante o Poder porque os “drogados” têm medo que lhes acabe o “fix” mensal se forem para lá outros.

    Deixe-se o PS no poleiro até que isto atinja “rock-bottom”!!!! Nada de eleições antecipadas!!!!

    Será remédio santo para vacinar a populaça contra os vendedores de ilusões.

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