Não havia nexexidade

Rodrigo, este teu post e este teu comentário são das coisas mais surpreendentes que eu li nos últimos tempos. Vamos lá por (muitas) partes.

1. Nunca insultei a inteligência de ninguém e nunca o faria aos leitores que têm o supremo bom gosto  🙂  de me ler. Que seja acusada disso por causa de um post que contém uma crítica a Paulo Rangel (não ter interpelado AB com o que interessava) faz para mim parte de uma lógica insondável que, por isso mesmo, não me apetece sondar.

2. Sou apoiante de Paulo Rangel nestas directas do PSD. Não estou ao serviço de Rangel, não falo por Rangel, não deixei de pensar por mim, não me sinto obrigada a fingir que não vejo fraquezas no meu candidato e a travesti-las como vantagens. Já critiquei Rangel e, se para isso me der razão, voltarei a fazê-lo. Algo que, salvo distração, ainda não te vi fazer com Aguiar Branco.

Começando por Rangel.

3. Dizes tu e diz AB que Rangel não apresenta nenhuma proposta nova: ou já foi tudo proposto, ou está legalmente previsto, ou o programa do PSD já aludiu ao assunto. Será necessário recordar quantas leis permitem isto e aquilo e, por falta de regulamentação, são adiadas ou indefinidamente postas na gaveta? Um exemplo? Desde Ferro Rodrigues que se abriu a porta à coexistência de sistemas de segurança social público e privados. Está esta reforma implementada? Não. Manuela Ferreira Leite, inclusivamente, na campanha eleitoral afirmou não subscrever as propostas de Marques Mendes que iam no mesmo sentido, e Sócrates bradava que o PSD queria ‘privatizar a segurança social’ por constar no programa elitoral o estudo dessa possibilidade. Por isso nada interessa que a lei preveja o ensino profissional, por exemplo, se essa legislação é letra morta. Pegando na educação, tudo no discurso de Rangel vai mesmo no sentido de ruptura. Em primeiro lugar, não me recordo de algum candidato do PSD ter colocado a educação como prioridade e de ter falado do assunto da forma como Rangel o tem feito. A recusa da escola inclusiva, a percepção de que nada vale aumentar a escolaridade obrigatória se for apenas para guardar os adolescentes enquanto os pais trabalham durante mais uns anos, a ideia de que para promover o sucesso escolar mais vale canalizar recursos para a pré-primária do que aumentar a escolaridade obrigatória mantendo a escola como está, a constatação de que a escola é um veículo essencial para a promoção da mobilidade social – de resto outro conceito que já apareceu num ou noutro documento do PSD mas que tem estado arredado, e mal, do discurso dos seus candidatos – uma vez que a escola pode ser a única ferramenta ao dispor de crianças e adolescentes de meios socio-económicos mais pobres para ter um nível de vida superior ao dos seus pais (tendo as crianças e adolescentes de meios mais favorecidos acesso a outras formas de formação e informação, como colégios, viagens, meio familiar mais educado,…), e mais umas tantas coisas agradáveis para os meus ouvidos. Pretender que tudo isto é o discurso do PSD para a educação é, no mínimo, ser muito parcial. Até porque, e como Rangel já referiu, o PSD não está isento de culpas nesta degradação da escola. O próprio Cavaco Silva (que, em termos de governos PSD, é o que conta) assume que a prioridade dos seus governos foi o aumento da quantidade dos alunos e que não se conseguiu manter a qualidade do ensino.

4. Desvalorizar discurso de Rangel como algo já coberto, por alguém cujas únicas intervenções sobre educação de que eu me recordo foram aqueles disparates alegremende defendidos por Aguiar Branco, no início da legislatura, que levaram a que o PSD contrariasse, e isso sim é muito grave, uma promessa de campanha – a suspensão do método de avaliação dos professores – para dar uma vitória na AR ao PS (continuação da avaliação de Lurdes Rodrigues) e que, de seguida, levou a um acordo do governo com os sindicatos que acabou com qualquer avaliação séria que se pretendesse e que custará, já em 2010, mais 400 milhões de euros aos contribuintes, é descaramento. Aguiar Branco tem um grande telhado de vidro no que toca à educação.

Passando para Aguiar Branco.

5. Dê-se as voltas que se quiser, Aguiar Branco, tirando dois ou três pormenores referidos no debate do DE (como o fim das golden shares ou as nomeação dos reguladores pelo PR) não apresentou mais nada (sinceramente, apresentar valores como ‘responsabilidade’ são coisas vazias à Passos Coelho). Não é o momento para apresentar planos de acção detalhada, mas seria de esperar que alguém que está na política há tantos anos tivesse amadurecido algumas ideias-chave do que considera dever ser a governação do país. Ou, pelo menos, confidenciar-nos que áreas considera prioritárias. Mas népias, ainda não tivemos a fortuna de conhecer as tão serenas e cimentadas ideias de Aguiar Branco. Claro que se pode dizer que espera o momento certo, ou isto, ou aquilo, mas ninguém leva a sério esta argumentação. AB não sabe o que vai propor para o país. Ponto. E seria conveniente perceber porquê. As ideias que talvez um dia apresente não serão dele? Está à espera que outros as formulem para as adoptar como suas? É excessivamente indeciso? Pensa que o país neste momento precisa apenas de uma pessoa séria que faça uma gestão corrente? Dê-se as voltas que se quiser, mas esta ausência de ideias é uma tremenda fraqueza e diz muito sobre o candidato. Se eu não gosto de candidatos que pretendem pensar por mim, também não aprecio candidatos que não pensam por si próprios.

6. Não acusei e também ainda não vi quem referisse que Pedro Passos Coelho não apresenta ideias, ao contrário de Rangel que as apresenta. O que já escrevi e já li é algo diferente: PPC, no debate, girou à volta das ideias de Rangel, em vez de das suas. De resto, o problema de PPC não é a fala de ideias, mas sim o excesso. Já foi feroz defensor do TGV e usou-o para atacar MFL, sendo agora opositor do TGV e considerando que o PSD devia votar contra o OE2010 por não se ter suspenso o TGV; começou por querer privatizar a CGD, de seguida disse que só se devia privatizar quando houvesse condições, presentemente quer privatizar parcialmente; começou por propor a privatização da RTP mantendo a Lusa, para agora pretender também privatizar a Lusa; gozou com a ‘asfixia democrática’ para agora dizer coisas ininteligíveis sobre os problemas da liberdade de expressão. E por aí adiante.

7. Regressando a Aguiar Branco, o cenário piora. É que Aguiar Branco conseguiu, de facto, determinar o que se dicutiu no seu debate com Rangel. E determinou para quê? Não foi para apresentar as suas ideias, que ainda não as tem; foi para discutir coisas mui interessantes para o comum dos portugueses como a forma do aviso da candidatura de Rangel à sua pessoa e os anos de militância de Rangel no PSD. É evidente que Aguiar Branco pensa que são estes os assuntos que interessam aos militantes do PSD, mas só posso dizer que deu má imagem de si e do PSD (mesmo que este não tenha culpa e se prepare para votar marginalmente em AG). E, sobretudo, ao contrário de, como dizia o Alexandre, lhe dar imagem de líder, mostra como AB é, precisamente, o líder de que não precisamos agora: alguém que dá mais importância ao que viu como uma desconsideração pessoal do que aos problemas do país. Que o faça com mais ou menos garra é indiferente. Garra que, de resto, está ausente sempre que não se trata de defrontar Rangel (por ser nascida da suposta desconsideração pessoal); a PPC só oferece simpatias, tendo até, em mais um erro de palmatória, assistido ao lançamento do seu livro.

Não, Rodrigo, não é Rangel que está a precisar de spin, nem sou eu que quero rever a história.

PS – Vi agora mesmo este post e, sem a parte da Justiça, foi o que AB apresentou no debate do DE, com as tais poucas (boas) ideias que estão no ponto 2 e generalidades no resto.

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11 thoughts on “Não havia nexexidade

  1. Maria João Marques

    Rodrigo, tendo em conta que escreveste num comentário a um post meu que estava a insultar a inteligência dos leitores, a crítica não era genérica.

  2. Maria João e Rodrigo,

    Não obstante as nossas discordâncias, não creio que os nossos leitores tenham razões para se sentirem insultados na sua inteligência pelo que aqui se publica, excepção feita, talvez, a alguns dos copy/pastes aqui colocados por mim e pelo Miguel.

  3. Sr.Obelix

    Caro Rodrigo,

    como diz a minha Avó – e só espero que Uderzo não tenha o descaramento de a trazer para os livros -, é à mesa e no jogo que se conhece a educação de cada um. A politica também encaixa bem neste dizer. Cada vez mais vou conhecendo pessoas que tinha em boa conta, mas que quando estão em jogo questões partidárias se transformam por completo. Vale tudo, e o chá na quantidade suficiente que parecia existir, resvala para faltas de educação sem precedentes. Digo-lhe que até o tenho em boa conta e aprecio os seus textos, mas está resvalar!

    Esta defesa partidária que tenho vindo a acompanhar – os pedidos de menires andam fracos e a chuva também não ajuda – começa a ser incomodativa. Sobretudo aqui no insurgente, onde não o esperava. Já nem vou falar dos argumentos utilizado nos defensores de Pedro Passos Coelho, porque o argumento de fundo mata. Passos Coelho é o pior que pode acontecer ao PSD e a Portugal. Sabemos que o próximo líder o PSD muito provavelmente será primeiro ministro e a ideia de ter uma personagem como PPC como primeiro ministro é algo aterrador. E sim, o povo é estúpido a esse ponto. A provar é a reeleição de José Sócrates.

    Os argumentos e tácticas que tenho vindo a registar por parte dos apoiantes de Aguiar Branco, começa a tocar o desespero e a falta de lucidez. Pega-se por tudo e por nada e pelos argumentos que não levam a nada. Por exemplo, “José Pedro Aguiar-Branco esteve hoje na SOP – actualmente NOP – a secção do PSD onde iniciou, em 11 de Novembro de 1974, a sua militância no PSD” – como escreveu -, é claramente mais referência ao facto de Paulo Rangel ser militante à pouco tempo no PSD. E então? Porque não entendem que isso pode eventualmente ser importante para dentro do PSD, mas para o Português que vai votar – o tal que é estúpido e que elegeu 2 vezes Sócrates – é perfeitamente irrelevante. O outro exemplo é o que está a fazer neste caso. Faz uma critica que é tudo menos genérica e utiliza a táctica de “tu não estás a perceber bem, lê com mais atenção”. Parece que se tem que se dar sempre um resposta por muito má que ela seja. Parece que o importante é desviar do essêncial, e se calhar é esse o objectivo! Um amigo meu diz que “mais vale fazer figura triste, do que abrir a boca e confirmá-lo” Caro Rodrigo, foi exactamente o que fez.

    Cumprimentos

    Obelix

  4. Maria João Marques

    Rodrigo, não interessa muito insistir nestas coisas, mas foste tu que pessoalizaste a crítica. Em todo o caso, parece-me que aproveitei sobretudo o post (e é grande!) para fazer apreciação sobre os candidatos e o que diz a ala AB sobre Rangel, e não para tratar de questões pessoais, que. novamente, não fui eu que introduzi.

  5. miguel

    Para mim insulto é afirmar que Aguiar Branco tem ideias! Quais? Alguma vez escreveu um livro ou um artigo sobre elas? Tem apenas uma concepção aristocrática da vida e por consequência da política: “Eu sou de boas famílias (seja lá o que isso for) e estou filiado no PSD desde o início, por isso, e só por isso, devo ser presidente do PSD”
    É que bem vistas as coisas, o facto de AB estar filiado no PSD desde 1974 só abona em seu prejuízo! Está no PSD há 34 anos e não tem uma vitória política que apresente! Mas pior que isso, em 34 anos não conseguiu construir uma corrente de pensamento no partido! Apoiar AB é defender o quê?

  6. Caro Sr. Obelix,

    Eu comecei o texto da forma que me apeteceu, dizendo uma verdade, e que foi a razão pela qual se optou por fazer uma sessão na SOP. Só faltava agora que um candidato que é militante desde 1974 tenha de esconder esse facto, por haver alguém que se sinta ofendido por isso.

    MJ,

    O assunto por mim está enterrado, vou optar por não discutir contigo, é a única forma que vejo de manter uma saudável amizade que prezo, e não perder a compostura.

    Miguel,

    Insulto é ser incapaz de ouvir. Qualquer uma das três propostas que eu apresentei no post sobre a intervenção na SOP, para melhorar a transparência, são bastante válidas, podendo ou não concordar-se com elas. Como são bastante válidas muitas outras que têm vindo a terreiro, e outras que em breve virão. Na vida, é também fundamental saber ouvir.

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