O que é e não é um debate (ou o que deve ser ou não deve ser um debate)

Duas visões diferentes da minha do debate de ontem: a de Alexandre Homem Cristo e de José Mendonça da Cruz. Talvez eu tenha sido traída pelas minhas expectativas para o debate, já que havia ficado com ideia que Aguiar Branco tinha propostas para apresentar e discutir. No entanto continuo a não perceber os méritos de um debate entre dois candidatos a líder do PSD onde se mostra combatividade (e é certo, foi uma surpresa, ninguém a tinha ainda notado em Aguiar Branco) mas onde o assunto mais debatido foi o tempo de militância de um dos candidatos e o facto de esse candidato não ter feito um requerimento ao outro em papel azul para se poder candidatar à liderança. Para mim foi um espetáculo penoso. Aguiar Branco não sabe falar para o país e considera-se uma vaca sagrada no PSD a ponto de fazer de uma suposta deslealdade do seu adversário tema do seu projecto político. E Rangel – que é arrasador em discursos e comícios (e eu já assisti a dois e, não sendo essa maga do carisma que é a Sarah Palin, Rangel é muito empolgante) – tem de aprender a pôr os seus adversários de debate no lugar, em vez de aceitar justificar-se, até porque terá de debater com os socialistas, que são mestres em desconversa; não se entende como não dirigiu a Aguiar Branco um ‘então mas onde estão as suas propostas que ainda ninguém viu?’, um ‘então e qual é a sua proposta para a educação?’ ou um ‘não prefere discutir as soluções para os problemas do país em vez do meu tempo de militância?’.

De resto, e sintomático, toda a gente trata Rangel como o front runner: Passos Coelho (que não necessitaria de golpes rasteiros se se sentisse confortável, até para sedimentar a imagem conciliadora e ministeriável que tenta construir), Aguiar Branco, o PS e até Ana Lourenço, que parece pensar que os debates são entrevistas a quatro mãos a Rangel.

PS – Vejo que o Henrique Raposo tem uma opinião parecida com a minha, ainda que eu ache inegável que Rangel tenha estado muito melhor do que PPC e que ontem eu tenha visto uma coisa estranha que não foi um debate, pelo que não faça sequer sentido falar em vencedor.

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15 thoughts on “O que é e não é um debate (ou o que deve ser ou não deve ser um debate)

  1. Rangel não soube transpor para os debates televisivos a capacidade de comunicação que se lhe reconhece de outras andanças. Deixou-se enlear em tricas de lana caprina, que claramente favoreceram os seus adversários. Só se pode queixar de si próprio, e da manifesta falta de preparação que revelou para este formato de debates. O talento, que o tem em doses abundantes, por vezes não chega. E é uma pena, porque é de longe, o melhor candidato dos três.

  2. Maria João Marques

    Não penso que os debates sejam mais decisivos do que as prestações no congresso, por exemplo. Até por que Rangel esteve muito melhor em termos de conteúdo nos debates.

  3. miguel

    http://aeiou.expresso.pt/paulo-rangel-e-os-debates-de-plastico=f569184

    “No debate entre Aguiar Branco e Paulo Rangel, tudo girou em torno das ideias de Rangel. Aguiar Branco foi uma espécie de fiscal das ideias de Paulo Rangel. Não deu uma única ideia, só criticou as do adversário. Mas a malta acha que Aguiar Branco foi o vencedor. Ora, quando fizer um debate, eu já sei o truque: não apresento uma única ideia, e só ataco a dos adversários. Posso ser pouco inteligente, desde que seja agressivo. Boa.”

  4. José Barros

    Costumo concordar com a MJM, mas desta vez, não.

    Desde que vejo debates, é sempre possível debater de forma séria e, ao mesmo tempo, não se deixar enredar pelos truques baixos dos adversários. E é isso que penso que o Rangel ainda não conseguiu. Dizer-se que tem de ser mais agressivo significa, antes de mais, que tem de responder à letra aos ataques, não deixando que as suas ideias sejam objecto de manipulação do adversário. Responder à letra significa explicar aos militantes por que razão Passos Coelho foi desleal para com Ferreira Leite e prestou um mau serviço ao partido e ao país ou por que razão o candidato favorito do PS não pode ter uma posição sobre o TGV de manhã e outra de tarde. Da mesma forma que tem de atacar a ideia de Passos Coelho de que induzir os empresários a apostar nos mercados que o governo quer – seja África ou América de Sul – equivale a querer uma economia dirigida. É isso que se pedia e que Rangel não fez.

    Espero que o faça se houver mais debates e ainda no congresso.

  5. Caro José Barros,

    “Da mesma forma que tem de atacar a ideia de Passos Coelho de que induzir os empresários a apostar nos mercados que o governo quer – seja África ou América de Sul – equivale a querer uma economia dirigida. É isso que se pedia e que Rangel não fez”.

    Estás a partir do princípio que PR não é a favor de algum dirigismo na economia. São estas coisas que ainda não se percebeu se fazem ou não parte do conceito de “ruptura”.

  6. Maria João,

    Agradeço que não insultes a inteligência dos nossos leitores: propostas para o País? Propostas para a Educação? Quais? O pré-escolar, que já consta da lei, e que tem 92% de cobertura nacional? O ensino profissional, que já consta da lei?

    E soluções para o país? Que soluções para o país? Onde é que PR apresentou uma solução que se veja?

    Eu tenho a certeza que as propostas chegarão a seu tempo, o PR tem esse crédito, mas francamente, este texto é um insulto à inteligência de todas as pessoas que assistiram ao debate.

    Podes chegar ao fim e achar que está aqui uma bela peça de retórica, mas que fazes uma mau serviço ao próprio Paulo Rangel, fazes, porque colocas o próprio candidato num ridículo só visto.

    RAF

  7. José Barros

    Estás a partir do princípio que PR não é a favor de algum dirigismo na economia. São estas coisas que ainda não se percebeu se fazem ou não parte do conceito de “ruptura”. – RAF

    Não vi nenhuma proposta de Rangel na área da economia que me parecesse “dirigista”. De Aguiar Branco não ouvi nenhuma proposta, ponto.

    Propostas para a Educação? Quais? O pré-escolar, que já consta da lei, e que tem 92% de cobertura nacional? O ensino profissional, que já consta da lei? – RAF

    A proposta para a educação relativamente ao ensino profissional é muito clara: avançar com um sistema misto a partir dos 12 a 14 anos, através do qual os alunos que que constituam candidatos ao abandono escolar sejam reencaminhados para o ensino profissional. Um pouco como acontece na Alemanha em que, a partir de uma idade ainda mais tenra – 10 anos – os alunos são distribuídos por diferentes tipos de ensino – académico e profissionalizante – de acordo com as capacidades que demonstram, sem prejuízo de poderem sempre mudar de via de ensino, caso demonstrem capacidade para tal. Claro que prefiro a liberdade de escolha – que nenhum dos candidatos defendeu até agora -, mas em todo o caso, dentro do modelo de ensino público, a proposta de Rangel parece-me correcta e prometedora, porque liberta o ensino académico para graus de maior exigência e rigor, simultaneamente dando uma oportunidade de profissionalização aos alunos que não queiram ou não possam ter sucesso numa via de ensino mais profissional.

  8. José Barros

    “…aos alunos que não queiram ou não possam ter sucesso numa via de ensino mais profissional”

    Correcção: “ensino mais tradicional”, queria eu dizer.

  9. Caro José Barros,

    A proposta de substituir as golden shares por uma regulação mais interventiva é dirigista. AB já se pronunciou – foi o primeiro – pelo fim das golden shares, sem quaisquer reservas e condições (entrevista ao Expresso, e ao i). Tens de estar mais atento.

    A proposta de Rangel para o ensino profissional é já a que está em vigor, não representa nenhuma ruptura; o mesmo ocorre no ensino pre-escolar.

    “A proposta para a educação relativamente ao ensino profissional é muito clara: (…) os alunos que que constituam candidatos ao abandono escolar sejam reencaminhados para o ensino profissional. ”

    Acresce que sou contra esse “reencaminhamento”, tem tiques fascisantes, a opção pelo ensino profissional deve ser livre, e não forçada, mas em qualquer caso, não há aqui nada de novo. É como a questão das CCR’s, que apenas promove uma ligeira alteração em algo que já havia sido defendido por Guterres.

    Mesmo a proposta para fazer da agricultura uma área de ocupação do território já vinha no programa de Manuela Ferreira Leite.

    Estamos apenas perante sound bytes para aguentar as hostes, ao bom estilo da política do taxista, enquanto não vem o programa definitivo. Pessoas inteligentes como tu, deviam facilmente perceber isso.

    Ab
    RAF

  10. José Barros

    Caro RAF,

    Discordo da tua análise relativamente às propostas da educação.

    Actualmente, os alunos podem optar pelo ensino profissional a partir do nono ano. O que Rangel propôe é que a partir do sétimo as escolas ofereçam um ensino semi-profissionalizante, ou seja, um ensino misto, com componentes de ensino académico e de ensino profissional, por forma a adequar a oferta de ensino à procura, quer dos alunos, quer do mercado.

    E quanto ao facto de a proposta ser supostamente fascizante, então também será fascizante haver um único modelo de ensino – o académico – até ao nono ano, que obriga crianças que não têm jeito para línguas ou para a matemática a estudar essas matérias quando poderiam preparar-se para o exercício de uma futura profissão, já para não falar do “fascismo” que releva do facto de o ensino ser obrigatório e passar a sê-lo proximamente até ao décimo segundo ano. É provavelmente o mesmo “fascismo” que faz da Alemanha um país civilizado, enquanto o nosso continua a preparar licenciados para os call-centers e para o desemprego.

    Quanto à extinção das golden shares, todos os candidatos defenderam o mesmo, pelo que não é um assunto. Ainda assim, reconheço que, tanto quanto me lembro, Aguiar Branco foi o primeiro a falar no assunto.

    Abraço,

  11. Caro José Barros,

    “então também será fascizante haver um único modelo de ensino – o académico – até ao nono ano, que obriga crianças que não têm jeito para línguas ou para a matemática a estudar essas matérias quando poderiam preparar-se para o exercício de uma futura profissão, já para não falar do “fascismo” que releva do facto de o ensino ser obrigatório e passar a sê-lo proximamente até ao décimo segundo ano”

    Subscrevo a 100%.

    É provavelmente o mesmo “fascismo” que faz da Alemanha um país civilizado, enquanto o nosso continua a preparar licenciados para os call-centers e para o desemprego.”

    Altamente duvidoso. O que leva a Alemanha a ser um país desenvolvido é a cultura alemã ser forte, o tecido familiar exigente, os alunos aplicados, e a economia funcionar adequadamente. Há países de sucesso onde o ensino não é obrigatório, e as coisas correm bem na mesma.

  12. José Barros

    Subscrevo a 100%. – RAF

    Nesse caso, pode-se dizer que Aguiar Branco é tão fascista como Rangel, porque ambos defendem o ensino público obrigatório.

    Enfim, não me parece que se possa discutir educação nos termos do “tudo” ou “nada”, em que o “tudo” é a liberdade de escolha e o “nada” é o sistema de ensino público, ainda prevalecente na maioria dos países, muitos deles com um melhor sistema escolar do que o nosso. Há sistemas públicos melhores do que outros e os melhores são preferíveis aos piores. Até porque a transição para um sistema de liberdade implicará sempre reformas intermédias.

    Altamente duvidoso. O que leva a Alemanha a ser um país desenvolvido é a cultura alemã ser forte, o tecido familiar exigente, os alunos aplicados, e a economia funcionar adequadamente – RAF

    E a escola traduz isso mesmo, sendo também parte e razão dessa cultura que referes. Falo do que sei, porque andei no colégio alemão durante quatorze anos. É esse tipo de exigência que Portugal terá de ter com a escola se quer alguma vez comparar-se aos países mais desenvolvidos.

  13. Maria João Marques

    José Barros, acho que interpelar os oponentes nos termos que eu escrevi não é descer de nível (pedir as propostas de outro é a coisa mais razoável do mundo); descer o nível é fazer como PPC e dizer que a bolsa perdeu dinheiro devido a uma intervenção deRangel no PE. De resto, concordo inteiramente.

    Rodrigo, vou responder em post.

  14. Pingback: Não havia nexexidade « O Insurgente

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