Os debates so far

Estive ontem de manhã no debate entre os três candidatos à liderança do PSD promovido pelo Diário Económico. Gostei de ouvir tanto Paulo Rangel como Aguiar Branco. Porque souberam concretizar partes do que propõem, entre outras áreas, na Educação, na Justiça, o que se propõe privatizar (Rangel), na nomeação para cargos de supervisão e para a administração de empresas públicas, na transparência da documentação e da informação usada pelo governo (Aguiar Branco). Ainda que Aguiar Branco (que estava particularmente simpático para PPC) possua pouca verve – mas bom sentido de humor, o que se recomenda sempre – e às tantas parecesse contente com o programa pouco ousado que Manuela Ferreira Leite apresentou nas últimas legislativas. E que Rangel teime em não dar um salto qualitativo de ‘ruptura’, de ‘descolonização do estado’, com as políticas estatistas do PSD (e do PS) quando concretiza as suas propostas em algumas áreas.

A prestação de Pedro Passos Coelho foi uma parte surreal do debate. O senhor conseguiu estar 15 ou 20 minutos a falar sem dizer coisa alguma, ainda que gesticulasse com convicção e o tom de voz ondulasse para enfatizar alguma frase especialmente redonda do discurso. Não é má vontade, mas além de um diagnóstico mais ou menos vago dos problemas do país – que aparentemente surgiu por imposição divina, já que PPC não nomeou o PS ou o governo – e de coisas vazias como ‘credibilidade’ e ‘celeridade’ da justiça, ‘esperança’, PPC não ofereceu nada, nem uma medidazinha concreta daquelas sobre as quais já teve várias opiniões nos últimos dois anos.

O debate ontem na SICN foi morno. Rangel sempre mais consistente e menos vago, mas concordando em excesso com PPC e não lhe disse claramente que sim, PPC entreteve-se a fazer oposição a Manuela Ferreira Leite em vez de ao PS. PPC toma-nos por tolos e assume que já esquecemos o que defendeu nestes últimos dois anos, por exemplo quanto às grandes obras públicas. O momento circense (ou rasteirinho) do debate foi, mais uma vez, para PPC. Então não é que os investidores não tomam as suas decisões de alocação de dinheiros com base em expectativas de rendimento, não olham para a solidez das contas públicas de um país, não se interessam por eventuais crises políticas, não: os investidores tomam as suas decisões de investimento com base nas opiniões de Paulo Rangel sobre o grau de liberdade de expressão em Portugal. Quem diz coisas destas ou é um alucinado (que Deus nos livre de ter como primeiro-ministro) ou deleita-se nos golpes baixos (e Deus nos livre de o ter como primeiro-ministro).

Eu temo, vendo esta conduta pequena e mesquinha de Passos Coelho, as suas faltas de lealdade e o seu percurso profissional que só existiu a partir da política, que estejamos perante um novo Sócrates. No entanto o caso do Henrique Raposo, de estarmos perante um novo Guterres, também tem os seus méritos.

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12 thoughts on “Os debates so far

  1. Mário Cruz

    Para alguém que se apresenta como economista (sabemos que o curso é recente) dizer que o comentário de Rangel no Parlamento Europeu, sobre a eventual intervenção do governo nos orgãos de informação, pode afectar a opinião das empresas de rating e os investidores internacionais, é de uma ignorância completa do que é o mercado. Claro que é uma mera cópia de uma crítica politiqueira e identicamente ignorante, por parte do PS. Mas é exactamente isto que mais me preocupa no PPC, o seu alinhamento com o PS e a utilização descarada dos argumentos do partido do governo.

  2. Mário Cruz

    Acho que não vai ganhar as directas. Acredito na capacidade de discernimento dos militantes do PSD. Sempre deram provas, até à data, de perceberem o que interessa ao país e ao partido. O Passos Coelho não interessa nem ao partido nem ao país. Para o Congresso da Figueira da Foz, o João Salgueiro tb tinha uma confortável maioria, tudo mudou em meia hora. Bastou que cada militante pensasse, de novo, pela sua cabeça.

  3. António Coelho

    Dentro do género, entre Pedro Passos Coelho e Sócrates, prefiro Sócrates. Tem mais “status”, domina melhor a retórica e é capaz de mentir com um ar tão angélico, que até nos parte o coração. PPC, que me desculpe, mas tem muito ainda para aprender. Ou chora, como Meneses ou dramatiza como Ângelo Correia, mas com aquele seu ar estático de Ken embasbacado pela sua Barbie só irá conseguir que o PS, o Partido da Situação, volte a nomear o Sr. Pinto de Sousa para nosso primeiro.

  4. MAF

    Penso que o PSD conseguirá não deixar que o PPC ganhe as directas.
    É que se ganhar, o cenário poderá ser Governo de Bloco Central com Sócrates+PPC. É de fugir…

  5. Patrício

    É verdade que na Figueira tudo mudou em meia hora, mas o próximo congresso não é electivo e nas directas possivelmente ganha PPC.

    O que pode assustar os militantes de base é a possibilidade, aqui avançada por MAF, de virmos a ter um governo de Bloco Central com Sócrates e PPC.

  6. Mário Cruz

    Eu sei que o Congresso não é electivo. O que quis foi mostrar que militantes mandatados mudam de ideias em meia hora quanto mais militantes individuais, sem mandato, sentados em casa calmamente e a pensar até ao dia das directas, o que poderão fazer.

  7. MAF

    Mas já um cenário de bloco central entre Rangel e Sócrates parece-me muito pouco provável… Para não dizer impossível.

  8. José Barros

    A analogia é muito mais apropriada com Sócrates do que com Guterres.

    Os esqueletos no armário – veja-se a notícia da Sábado que estranhamente foi esquecida -, o discurso redondo e decorado, o optimismo profissional, os truques baixos argumentativos, a perspectiva do eleitor como burro manso que come toda a espécie de palha, é Sócrates. Donde, é perigoso. E um perigo que, infelizmente, os Psd`s não percebem, nem querem perceber.

  9. Pingback: O que é e não é um debate (ou o que deve ser ou não deve ser um debate) « O Insurgente

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