Leigo como sou, quando converso acerca de arte, costumo puxar a conversa para o dadaísmo. Interessa-me enquanto desconstrução dos cânones da arte e o papel que teve na confusão sobre o que é ou deixa de ser arte. Isto já vai de uma lata de merda (literalmente) até à “Meninas de Avignon”. Gosto mesmo muito dos dadaístas a um nível, diria, epidérmico, mas não misturo nem reconheço sequer comparação estética entre Francis Picabia e os calcanhares de Velazquez e o Tristan Tzara está abaixo do nível do bagaço a uma sexta feira às sete, do Pessoa. Pobres dos dadaístas, por muito que gostasse que fosse diferente, são menos que piolhos na cabeça de anões aos ombros de gigantes.
Não sou fã do hip hop. Confesso que nos primórdios do género me entusiasmei com músicos como Notorious Big ou 2Pac. Comprei e ouvi muito Guru em Jazzmatzz como com Branford Marsalis e acabei no fabuloso álbum póstumo do Miles Davis, Doo Bop que, na minha opinião, ainda é a lição definitiva a todos os aspirantes ao género. O hip hop nasceu e cresceu como mais uma cultura de analfabetos. Não como género musical, bem entendido, mas como cultura, o que não tem nada que ver com diversidade, tem que ver com a pretensa superioridade da vivência do gueto, dos pretensos discriminados, das coitadas das minorias (dizia-me uma vez um amigo em França que o hip hop é a voz do povo) regados a Cristal ao volante de Range Rovers e montados em “hoes” numa nova versão do materialismo dialéctico, desta vez étnico também. Gente que conheço, mesmo em Portugal, carregados na guita, para quem o hip hop é uma cultura de revolução (necessariamente analfabeta), uma maneira de (não) viver, um desprezo total por quem os pariu. Há uns meses ouvi um artista do género, um indigente intelectual bloquista a falar de Marx, Guevara e do hip hop como veículo da revolução. É certo que também há disso no punk, mas tem a desvantagem de ser um género branco, logo não é ancorado numa minoria discriminada. Ah pois é. No heavy metal há uma subcultura satânica infantil mas que não convence ninguém. E não é que a música (seja qual for o género) em si mesma tenha qualquer responsabilidade, como é óbvio (santo Zappa é minha testemunha), mas o facto é que o hip hop é muito mais que música, é uma cultura vasta que vai das artes plásticas à literatura à política, cultura essa para quem a polícia, por exemplo, é O Inimigo e há que eliminá-lo ou fugir dele. O hip hop conseguiu o que o punk (também enquanto cultura) nunca chegou sequer a aproximar-se de conseguir. Com uma certa lógica. O Punk era porco, javardo, não tinha gajas boas de pernas abertas, champagne Cristal nem Ferraris para lhe dar glamour no meio do protesto. Tinha a cola de contacto nos sacos de plástico, as agulhas e a heroína que, essa sim, é a fuga dos pobres. Os “hip hopers” preferem a cocaína servida em bandejas de prata, snifada com notas de cem euros. O Alice Cooper é que tinha razão quando disse que os musicos rock eram uma cambada de analfabetos que não percebiam de mais nada porque nem sequer tinham tempo para perceber. Os MCs sabem mais um bocadinho que os rockeiros, pelo menos no que respeita a gajas, Rolexes, carros, cocaína e Uzis.
Não reconheço nem ao hip hop nem ao rock’n roll qualquer espécie de qualidade estética comparativa, as letras interessam-me pouco, é mais uma questão de ritmo, de pump, riffs de guitarra e voz enquanto instrumento. E o baixo, o baixo que é o instrumento dos génios via Stanley Clarcke. E isto sou eu, fanático do rock’n roll versão Lemmy Kilmister, uma espécie de apóstolo da coisa. Eu que não confundo Motorhead com Bach, nem Dead Kennedys com Charlie Parker ou Ozzy Osbourne com Astor Piazzolla. Há um tempo para tudo e um modo para cada coisa, o que não faz de mim cego nem susceptível à avaliação estética de terceiros. Quero que os terceiros se fodam.
Seja como for não me parece que o Alberto Gonçalves tenha insultado seja o que for nem que tenha escrito sobre o que não conhece, pelo contrário, foi certeiro no que escreveu. E se despreza a qualidade estética do hip hop ou do heavy metal faz muito bem, porque de facto, não têm nenhuma. E se alguém achar que neste post eu escrevo sobre o que desconheço, ofereço-me para vos apresentar músicos em cada um destes géneros e para vos dar uma introdução live a cada sub-cultura, do hip hop ao punk.
Nota: há uns anos foi engraçado ver os Red Hot Chilli Peppers a reivindicar o MTV award para a melhor banda hip hop ou o Ice T com os Body Count a exigir o trono do rock’n roll em termos mais ou menos racistas. No fim disto tudo, uma cambada de indigentes. Bach e Parker hão-de rir à custa disto.