A Manta

O Governo agarrou-se à necessidade de manter os níveis de despesa pública, como garantia de que o país recupera da recessão, para justificar um défice de 8,3% em 2010. Este défice não se deve ao facto do Governo não saber onde cortar a despesa ou de não estar particularmente interessado em seguir por essa via. Este défice vai, isso sim, salvar-nos de nós próprios. Supostamente só depois de estar assegurado o regresso do crescimento económico é que vamos ter direito à austeridade orçamental que as bestas dos observadores internacionais reclamam.

É possível que o Obama, que é uma espécie de Sócrates ao longe, não acredite que “só o investimento público, modernizador do país, dá emprego” como o nosso Primeiro-Ministro. Mas, apesar de ter a economia a crescer a uma taxa anualizada de 5,7% e do desemprego estar a diminuir, também anda a vender a ideia de que é importante manter os níveis de despesa para “alimentar” a recuperação. Educação, infra-estruturas, energias renováveis. Em 2010-2011, os americanos vão ter direito ao mesmo cozinhado que nós, não vá o diabo tecê-las.

A pergunta que se impõe face a este cenário é simples: se todos estão (estamos) a ser ajudados pelo Governo, quem é que está a ajudar o Governo? A resposta vem em forma gráfica, para ajudar quem ainda não percebeu.

(Via The Economic Way of Thinking)

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7 pensamentos sobre “A Manta

  1. Ou então os private sector jobs, simplesmente, não viriam.

    Ou seja a questão é se a criação de empregos no sector público tem como resultado uma redução do desemprego, ou se mantém o desemprego na mesma, apenas transferido, em termos liquidos, emprego do sector privado para o público.

    O mecanismo pelo qual o deficit público poderia reduzir o emprego no sector privado seria os empréstimos que o estado pede fazerem subir os juros e assim atrapalhar o investimento privado. Mas nos EUA os juros estão quase a zero, logo isso não terá grnde impacte.

  2. Tomás Belchior

    O problema é que já não estamos naquela fase da crise em que o sistema financeiro não funcionava e a poupança não era reinvestida através dos bancos. Estamos sim a falar de despesa pública “clássica” que será convertida em impostos, de dívida que será refinanciada não às taxas actuais, mas a taxas mais altas, e da velha questão da eficiência relativa dos gastos públicos.

    Há quem argumente (por ex. o John Taylor) que a componente de despesa pública teve um impacto nulo no crescimento, que o que realmente criou emprego foi o TARP que permitiu manter os bancos a funcionar. Além de que, segundo o paper dele, até mesmo com taxas de juro a zero, o efeito de crowding out é significativo.

    Ou seja, a ideia de que os empregos públicos são criados à custa dos empregos privados, através de mecanismos que vão além do aumento das taxas de juro, aparentemente faz sentido.

  3. “a ideia de que os empregos públicos são criados à custa dos empregos privados, através de mecanismos que vão além do aumento das taxas de juro”

    E quais são esses mecanismos?

  4. Tomás Belchior

    Miguel,

    Bem sei que o “crowding out” como termo técnico se limita precisamente a esse mecanismo de diminuição do investimento privado através de um aumento das taxas de juro provocado pelas necessidades de financiamento da despesa pública, daí eu não o ter usado. Os mecanismos de que falava são os que referi no meu comentário. Basicamente a ineficiência relativa da despesa pública financiada à custa de impostos.

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