Sobre a “ruptura” e “unidade”

Alexandre,

Se estiveres atento, como sei que estás, verás que JPAB já deu vários sinais sobre aquilo que virá a ser o seu conteúdo programático: quer quando, no Expresso ou no i, defende o fim das golden shares, ou no seu discurso de apresentação, ontem, reforça, quer o papel da inovação não induzida por decreto, da descentralização política, da autonomia no exercício do poder, ou na necessidade de encontrar novas respostas, longe das que foram criadas “por economistas nascidos no século XIX”.

O estilo que Paulo Rangel adopta, apontando para uma ideia de ruptura, é galvanizador – e como os afectos e a motivação são importantes em política – mas carrega o risco de criar uma expectativa que, à medida que se for desvendando o conteúdo, traga um certo trago amargo de desilusão – em especial a pessoas que valorizam, como é o teu caso, o conteúdo ideológico. Esse trago amargo está já marcadamente presente, por exemplo, na entrevista que Paulo Rangel deu ao i, onde não transparece nenhum sinal de efectiva ruptura, pelo menos do tipo de ruptura com que nos identificamos.

Tenho apreço e grande amizade, quer por Paulo Rangel, quer por algumas das pessoas que apoiam a sua candidatura. Julgo, porém, que é mais útil e oportuno defender uma linha reformista firme, clara, serena, que tenha respostas para os problemas actuais, baseada numa ideia de unidade, de agregação, anti-centralista e de convite à colaboração de todos, do que promover uma ruptura que, só por si, é mais fonte de problemas do que de soluções, e – para já – bastante curta no plano da refundação ideológica.

Ao longo das próximas semanas teremos oportunidade de ir discutindo, passo a passo, o que for surgindo, e poderemos tirar mais conclusões sobre o que está em jogo.

5 pensamentos sobre “Sobre a “ruptura” e “unidade”

  1. RAF
    Estou a seguir este diálogo com muito interesse. O RAF acabou por tocar nos 2 ponto-chave, a meu ver: “O estilo que Paulo Rangel adopta, apontando para a ideia de ‘ruptura’, é galvanizador – e cpomo os afectos e a motivação são importantes em política – (…).” Só que não é apenas uma questão de estilo, é uma questão de convicção muito forte, uma energia vital que ajuda a passar a mensagem. É uma questão de perfil.

    Aguiar-Branco é um “gentleman”, demasiado “soft” para a política actual. E “unir” não funciona no PSD: haverá sempre divergências internas, movimentações, vozes discordantes, tal como no país (o que eu gostei daquele post d’ O Cachimbo que refere isso mesmo: o PSD é o partido que melhor reflecte o país, para o bem e para o mal, como a maledicência, as traiçõezinhas, as ambições pessoais, etc. Ora, é preciso um líder enérgico, perspicaz, capaz de uma reacção rápida, com aquela garra e vivacidade para mobilizar o partido e os cidadãos, motivá-los para os terríveis desafios que aí vêm. Só alguém assim, convicto e enérgico, consegue passar essa mensagem.

    Estivéssemos nós num tempo tranquilo, de prosperidade, e Aguiar-Branco poderia ser o líder ideal. Talvez. Mas não é o caso. O caso é a balbúrdia, a desordem, a pobreza, a bancarrota. Paulo Rangel bem poderia ter ficado em Bruxelas sossegadinho. Mas aqui juntam-se duas motivações numa coincidência felize, a meu ver: a sua motivação de enfrentar desafios “quase impossíveis” e a motivação de muitos cidadãos de perceber finalmente onde estamos e para onde vamos, não no sentido do “homem providencial” mas no sentido “do homem que nos diz a verdade”. O homem que é ouvido e em quem se confia. O homem que pode errar, mas que é capaz de o admitir e corrigir a rota. É esse o papel do próximo líder. E é esse o papel que Paulo Rangel pode assumir, porque tem o perfil adequado, a meu ver.

    (Céus!, vão dizer que já vesti a t-shirt e tudo, que já falo o líder de forma acrítica, como os “abrantes”… mas este entusiasmo deve-se a muitos aninhos de espera por uma qualquer primavera, uma qualquer iniciativa de cidadãos. Que já se iniciou. Naquele movimento-encontro a que o histórico se referiu como “50 jovens de direita”.)

  2. José Barros

    Só que não é apenas uma questão de estilo, é uma questão de convicção muito forte, uma energia vital que ajuda a passar a mensagem. É uma questão de perfil. – Ana Silva Fernandes

    De acordo. Há duas questões que são fulcrais nas próximas eleições do PSD:

    1) Qual é o candidato que será capaz de denunciar de forma eficaz a corrupção moral do governo e a promiscuidade muito gráfica entre o governo e as empresas?

    De acordo com o perfil dos candidatos, apenas Rangel. Aguiar Branco é demasiado diplomata para chamar os bois pelos nomes e Passos Coelho não o quer fazer, precisamente porque depende da mesma promiscuidade para levar a cabo o seu projecto de poder (nisso não se distinguindo de Sócrates).

    2) Qual é o candidato mais bem colocado para vencer Sócrates?

    Não tenho sondagens, mas suponho que também seja Rangel. Quer pelo receio que inspira no PS (ver declarações de Silva Pereira e do próprio Sócrates), quer pelo facto de já ganho eleições (ainda que europeias) aos socialistas.

    Dito isto, não estou a gostar da campanha de Rangel. Não vai ao encontro do que promete (ruptura) e ameaça esvaziar o balão com polémicas desnecessárias (entre as quais, as que dizem respeito à suposta traição a Aguiar Branco). Por isso, reservo a minha opinião para mais tarde, embora me sinta inclinado a apoiar Rangel.

  3. Como vimos aquando da campanha eleitoral de Setembro último e 5 meses volvidos após as mesmas, não basta ter razão ou opor uma “política de verdade” a uma outra fundada na ilusão e mesmo na mentira.

    Tenho apreço por Aguiar-Branco, pessoa decente, com experiência de vida feita fora da mera clique partidária, de personalidade contida e avisada. Mas não me parece que detenha as características necessárias de liderança que consigam projectar a esperança do projecto reformador que o país necessita.

    Não é por acaso que, fora do PSD, só o candidato Paulo Rangel seja alvo de marcação cerrada, especialmente por parte do PS.

  4. Gostaria de ver no próximo líder do PSD uma pessoa com competência provada em vida profissional própria, ética demonstrada em princípios e prática e serviço público. E gostaria de ver uma pessoa que começasse a separar a política da economia, retirando ao Estado a sua interferência continuada e crescente em tudo o que mexe no país.

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