O país dos pessoalismos

Iniciaram-se hoje as audições na Comissão de Ética, subordinadas ao tema “exercício da liberdade de expressão em Portugal”. À parte o carácter positivo da iniciativa, toda a condução da mesma foi deplorável.

O enquadramento das entrevistas feitas pelos deputados tinha como pressuposto que era a opinião, a sensação, o sentimento dos entrevistados que importava investigar. A certo ponto, visivelmente incomodado com o carácter pessoalista das perguntas, José Manuel Fernandes respondeu que não estava ali para dar a sua opinião mas sim para relatar os factos. A subtil pedagogia de nada serviu e em nada alterou o pendor pessoalista das rondas de perguntas que se seguiram. A certo ponto, o ex-director do jornal Público era ele próprio um consultor ético, exigindo-se dele a sua «opinião», a sua «avaliação qualitativa», a sua «interpretação dos factos». Nesta fase fica claro que se teria poupado tempo e dinheiro pedindo-se directamente ao entrevistado que enviasse um parecer ético por escrito.

No intervalo das audições, uma jornalista da RTPN confirma a anterior evidência dizendo que a única função da Comissão de Ética é fazer um «relatório» das entrevistas, e que «a Comissão de Ética não é um julgamento. Não está ali para emitir juízos». Nesse caso pergunta-se, o que está ali a fazer? Uma Comissão de Ética tem por função apresentar um parecer sobre algo de  duvidosa correcção moral, o que implica critérios cuja aplicação conduz à possibilidade de emitir juízos morais. E emitir juízos morais é necessariamente sair da esfera da pessoalidade para entrar na do «julgamento». Sem isso estamos apenas a presenciar uma entrega de declarações ao vivo por parte dos entrevistados, à qual se poderia facilmente substituir a entrega de um documento escrito sem o elemento espectáculo.

De seguida veio Mário Crespo e começou o one man show.  O jornalista não só não se incomodou com o carácter pessoalista das questões (que incluiam perguntas sobre Bárbara Guimarães), como as amplificou de bom grado, aproveitando a plataforma para promover o seu livro e interrompendo os trabalhos para pousar de pé para os foto-jornalistas com fotocópias da sua “última crónica”. O momento alto anconteceu quando, interpelado por uma deputada do PSD que pedia a Crespo que dissesse «algo de concreto», Crespo respondeu afirmativamente ao pedido com algo que qualificou de «absolutamente concreto»: o sentimento que o envadiu quando recebeu uma t-shrirt (que fez questão de mostrar) em que se lia Eu ainda não fui processado por Sócrates.

Num país em que um sentimento é «absolutamente concreto», em que uma auto-proclamada Comissão de Ética se abstém de emitir juízos morais, e em que o pessoalismo é guia para a investigação objectiva, resta pouco a acrescentar sobre os problemas Éticos sobre os quais a Comissão se propôs investigar e que assentam, precisamente, na crença de que é possível pessoalizar a figura do Primeiro-Ministro, distinguindo nele a pessoa e o chefe de governo.

2 pensamentos sobre “O país dos pessoalismos

  1. Manolo Heredia

    “o pessoalismo é guia para a investigação objectiva”, macacos me mordam se isto é para entender !

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