A misoginia do polvo

Não tinha tido a certeza de perceber as indirectas de Felícia Cabrita, esta semana entrevistada por Mário Crespo, sobre a “misoginia” de que era alvo, misoginia essa que ligaria o caso Casa Pia ao caso Face Oculta e que caracterizaria a natureza das actuais redes de abuso de poder em Portugal. “A classe jornalista sabe de que estou a falar”, acrescentou.

Este twit de Paulo Pedroso clarificou as coisas:

Pura espionagem, portanto. Não é, Tomás? http://bit.ly/9NigiO about 14 hours ago from twitterfeed

Curiosamente, para os visados ou interessados na protecção que os tentáculos do polvo permitem, a referência “à cama de alguém” parece ser suficiente para manchar ou ridicularizar o conteúdo das investigações que têm vindo a ser tornadas públicas, tornando-as inócuas, “não é Tomás?”. O primado da forma sobre o conteúdo, e o primado da legalidade sobre a moralidade, são de facto ferramentas característas das redes de abuso de poder que só pela destruição do valor da verdade conseguem impor a ditadura da validade.

Neste sentido, a misoginia serve aqui apenas um tipo de primado da forma, o mesmo usado por aqueles que se recusam comentar o contéudo crimonoso das escutas à custa da forma criminosa pela qual foram tornadas públicas. Noutro sentido, mais profundo, a misoginia é ela mesma um símbolo do repúdio por aquilo que, pela sua natureza, não se dobra às regras que os homens decidiram inventar para jogar o jogo dos assuntos públicos.

12 pensamentos sobre “A misoginia do polvo

  1. GovernoDeCorruptos

    E é também isso que explica, como depois da vergonha da Casa Pia, esse palhaçote é deputado, candidato a câmaras e figurinha da sociedade (sem esquecer o papel miserável da suposta namoradinha!).

  2. VC

    Miserável é que Paulo Pedroso tenha lata suficiente para continuar aqui no pardieiro.
    Ainda consigo ver o atleta a interromper uma sessão parlamentar (ao som imaginário de Chariots of Fire) em demonstração da força da justiça engravatada.

  3. balde-de-cal

    há uma “jurna-lista”referida por AMÁLIA num fado:
    «dormi com ele na cama, tenho a mesma condição»

    DIZEM QUE AS MENINAS DA CASA PIA QUE IA AOS CÚ-MICIOS
    E dispunhaM de 3 “buracos” conforme o cliente

  4. Pingback: Não sou pressionável. « O Insurgente

  5. Paulo Pedroso

    Quis dizer e repito por extenso que o procedimento de fazer verter escutas sem relevância criminal para o espaço público é pura espionagem política. As ligações a Felícia Cabrita são vossas e não minhas. Digo-vos, agora, mais, o recurso a tácticas policiais para destruir adversários políticos é um método conhecido dos regimes totalitários e foi praticado abundantemente por estes. Se quiserem dar-se ao trabalho de estudar um pouco, notarão que também aí eram usados abundantemente os meios de comunicação de massas. Os fascismos e os comunismos fizeram-no até à náusea e levaram à destruição não apenas moral de muitas pessoas de bem. Há uma longa genealogia de casos desses.
    Não me importam os métodos pelos quais os jornalistas chegam às escutas que aparecem nos jornais. Não é certamente por telepatia e é porque se jogam interesses recíprocos de quem as fornece e de quem as recebe, em que nem acho que seja de condenar os jornalistas, como tive ocasião de testemunhar num julgamento precisamente de jornalistas. O resto é do domínio da maledicência, da ficção ou do humor mais ou menos negro. Se não perceberam que aquilo que escrevi era em denúncia da espionagem como técnica de destruição de pessoas e não uma qualquer forma de misoginia, não é problema meu. A misoginia está tão longe do meu espírito que não me passou pela cabeça a vossa interpretação. Mas fizeram-na. Paciência.
    Já é problema meu que permitam que permaneçam na caixa de comentários os insultos que nem sequer são só a mim sem que isso cause qualquer sobressalto à vossa consciência liberal. Mas, se entendem que o que acima está escrito (ou que ensaiar listas de “gente reles” com insultos à mistura) faz parte da liberdade de expressão, fico inteiramente esclarecido sobre a importância que para vós tem a dignidade humana, sobre o vosso personalismo e sobre a profundidade e intensidade das vossas convicções liberais.
    Mais, para que fique claro, se o Filipe Abrantes que aparece nos comentários é o mesmo que fez a lista que entretanto apagou no twitter, tenho a dizer-lhe apenas que é um canalha miserável e a vós que acolhem no vosso seio rufias que não merecem mais do que dois sopapos.
    Se acharem que o meu comentário não se enquadra na clarividência, justeza e adequação do post e dos que publicaram, sintam-se à vontade para o apagar. Se quiserem, publiquem-no. Tive o Insurgente noutra conta durante muito tempo, mas era eu, concerteza, que estava enganado.

    Paulo Pedroso

    PS. Nem partilho do primado da forma sobre o conteúdo, nem do da legalidade sobre a moralidade, nem admito que ninguém me ligue a nenhuma rede de abuso de poder, assim como não tenho nada a ver com outras coisas que para aí me atribuem e merecem discussões sérias com quem queira discutir seriamente, como julguei durante muito tempo que era o caso das pessoas que aqui escrevem. Quem me conhece sabe que assim é e quem não me conhece e quiser discuti-las comigo sabe como fazê-lo. Quem quiser insultar, que fale sozinho ou com quem tenha o mesmo tipo de intenções. A mim o que vocês escrevem dói, não é sobre uma ficção ou algo longínquo. Oxalá nenhum de vós nunca perceba a diferença que faz discutir estas coisas quando deixam de ser simplesmente sobre teoria e princípios e passam a ser também sobre a nossa intimidade, a nossa vida e a das pessoas que as partilham connosco.

  6. elisabetejoaquim

    Paulo Pedroso,

    O objectivo do texto não é insultar mas sim dar voz a uma queixa que a jornalista Felícia Cabrita repetiu durante a Comissão de Ética: o facto de estar a ser alvo de um “plano para a denegrir” (e com isso pressionar profissionalmente), usando o facto de ela ser mulher – o que a própria qualificou de “misoginia”. De facto, não tinha tido a certeza de compreender as queixas da jornalista até ver o seu twit, que evidencia que circula publicamente a referência insultuosa à “cama de alguém” para falar do trabalho da jornalista (a “ligação a Felícia Cabrita” é sua, através do link que reproduz este texto de Tomás Vasques na qual se insinua que houve «envio» da notícia [que Felícia cabrita publicou no SOL] a troco de «cama»: «Quando não servem para incriminar ninguém, porque não constituem crime, as escutas, meio auxiliar da investigação criminal, autorizadas por um juiz, chegam aos jornais por sorteio ou ainda será utilizado o velho método, consagrado na literatura e no cinema, de enviar alguém para a cama de alguém?»).

    Compreendo que o Paulo Pedroso queira defender a sua imagem pública com este comentário (por isso publicado apesar do insulto que dirige injustifiadamente – o episódio era uma brincadeira – a um membro deste blogue), mas não se compreende, usando o mesmo critério do direito ao bom nome sobre o qual aqui escreve, que o Paulo Pedroso colabore e publicite tentativas de denegrir o nome de outros. Caso não tenha percebido, também é sobre a «intimidade e a vida» da jornalista que esse tipo de insinuações recai.

  7. elisabetejoaquim

    «Já é problema meu que permitam que permaneçam na caixa de comentários os insultos que nem sequer são só a mim sem que isso cause qualquer sobressalto à vossa consciência liberal.»

    Tal como aceitei o seu comentário apesar de ter insulto, aceitei também os outros que considera insultuosos. Considero que cada um é responsável por aquilo que diz publicamente e que não me compete ser um filtro.

  8. Esse Pederoso diz que está aberto a discutir, mas uma vez fiz-lhe perguntas sobre uma reportagem que vi sobre ele na TVI e o tipo ameaçou-me logo com tribunal. É preciso comentar isto?

  9. Paulo Pedroso

    Sobre o seu post, da minha parte está tudo dito. Sobre “a brincadeira” de Filipe Abrantes, compreendo que o queira desculpabilizar, mas o comentário que ele vem aqui publicar demonstra que é dado insistentemente a essas “brincadeiras”. Mas não percamos mais tempo com isso. Quero voltar a olhar para o Insurgente como olhei no passado e apetece-me discutir ideias e não fazer casos de insinuações e quejandos.

    Paulo Pedroso

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.