[José Barros]

5 anos de Insurgente, cinco anos de resistência a uma sufocante herança socialista que tem atravessado sucessivos regimes e governos em Portugal. Como se o socialismo fosse uma inevitabilidade histórica na história não tão recente do país, para lá da qual qualquer pensamento político estruturado nos valores da liberdade e da responsabilidade devesse ser considerado uma loucura passageira.

E, no entanto, o liberalismo veio para ficar. Não como programa político concreto e, ainda menos, com representatividade partidária, antes como horizonte de esperança num país sem soluções político-partidárias à vista e em crise permanente.

A alternativa liberal já não é, de certeza, passageira. E, mais do que isso, começa a ser cada vez menos insólita.

O problema do endividamento, a asfixia fiscal das famílias e empresas, a degradação da qualidade do ensino e a ausência de mecanismos efectivos de controlo da qualidade da democracia – leia-se, uma imprensa e uma justiça independentes do poder político -, tudo isto precisa de respostas. Para cada vez mais pessoas, as soluções liberais são isso mesmo. Respostas. Desconhecidas no passado, ainda impotentes no presente, cada vez mais prováveis no futuro.

Nisto tudo, O Insurgente tem sido um dos pontas de lança dessa viragem política. E, para quem, como eu, lê o blogue desde o seu início não é difícil encontrar razões para esse sucesso.

Distinguiria duas acima de todas as outras: a capacidade, muito por mérito do AAA, de encontrar nos diferentes e numerosos autores do blogue a diversidade criativa no espaço de um mesmo pensamento político; e, por outro lado, a honestidade intelectual de todos os que nele escrevem e que tornam a leitura de O Insurgente num momento saudável do dia, por comparação com o que se encontra noutros blogues e meios de comunicação em geral.

Temos, assim, a linha saudavelmente ortodoxa do AAA e do Miguel, a irreverência libertária do JLP, do Carlos e do Helder, não esquecendo a moderação do trio AMN, RAF e Maria João Marques, só para citar aqueles autores que melhor conheço.

Sobretudo, temos nessa diversidade o ponto de encontro da partilha de princípios políticos e, repito, uma honestidade intelectual assinalável que não encontro, de momento, em mais nenhum blogue colectivo da blogosfera.

Por tudo isto agradeço e faço votos de que O Insurgente continue por muitos e bons anos.

José Barros é co-autor do blog Desabrantizante.

[Fernando C. Gabriel]

Quase por inadvertência, comecei a escrever num blogue em Novembro de 2004. Em Dezembro o presidente dissolveu a Assembleia. A 20 de Fevereiro de 2005 as eleições legislativas produziram uma maioria absoluta socialista. Ao sétimo dia nascia o Insurgente, um blogue que assumiu a defesa do individualismo, num país que acabava de dar mais uma demonstração do seu carácter político gregário, identificável nas diferentes mutações históricas do corporativismo. Contra um adversário cuja força assenta no número, no colectivismo e na capacidade de organizar politicamente a propensão tribal para a pilhagem, o Insurgente propôs-se defender um projecto político de liberdade. Não a “liberdade” dos philosophes –outro nome para a igualdade de resultados, imposta politicamente e que acaba por se reduzir à liberdade de pedir, de defender o que se recebe e de exigir mais. A liberdade reconhecida pelos fundadores do Insurgente é a liberdade de prosseguir os diferentes projectos individuais de auto-realização sem a necessidade de autorização política prévia, algo que pressupõe a existência de um Estado de direito governado por leis e não por um processo permanente de legislação arbitrária —a versão jurídica do tumulto revolucionário. Porque esta liberdade não é dissociável da tradição política ocidental, aqui nunca houve condescendência para o terrorismo, para os despotismos orientais, para os populismos latino-americanos, ou para a corrupção de instituições internacionais sem escrutínio nem legitimidade política.

Por tudo isto, o Insurgente atraiu muito naturalmente a fúria de críticos, com graus variáveis de sanidade e despudor. Não sendo um liberal, pelo menos no sentido ideológico do termo –e duvido que exista outro– não farei a apologia do liberalismo: basta recordar que, ao contrário das ideologias propugnadas por muitos desses críticos, o liberalismo nunca gerou regimes criminosos, tanto piores quanto maior a nobreza proclamada dos fins. Como recordou Allan Bloom, “if the infinite longing for justice on earth is merely a dream or a prayer, the shedding of blood in its name turns from idealism into criminality”.

Os últimos cinco anos desta década baixa e desonesta afastaram o país e a União Europeia (ainda mais) da forma de associação política aqui defendida e a decadência parece ser o derradeiro acquis comunitário. O governo concentrou poderes, concentrou informação, concentrou mais e mais recursos; sempre insuficientes para satisfazer as necessidades. Quando a conjuntura económica mundial se tornou adversa, inventou inimigos externos e o colectivismo da colmeia passou ao colectivismo do vespeiro, onde poucos se atrevem a criticar e ninguém se propõe seriamente a modificar seja o que for. Dentro do espartilho legal e institucional definido pelo regime, não é possível reformar nem inflectir esta trajectória; apenas escolher a velocidade de empobrecimento material e cultural. De tudo isto o Insurgente deu conta ao longo destes cinco anos e se o pessimismo não for exagerado, permanecerá como exemplo de dignidade e de respeito pelos seus princípios.

Fernando C Gabriel foi um “founding fathers” do Insurgente, investigador universitário e cronista no Diário Económico.

[Francisco José Viegas]

Recorro diariamente ao Insurgente como uma das leituras matinais – uma coisa é sabermos como vai o mundo pelas sete da manhã, antes de sair de casa (já são raríssimos os blogs que se actualizam antes das nove ou dez da manhã, o que é uma pena); outra, é saber o que pessoas que prezamos pensam dele.

Mesmo para que discordemos, evidentemente. Por isso, O Insurgente está na minha lista de favoritos diários.
Partilho com O Insurgente a preocupação com a liberdade. Portugal nunca a prezou especialmente. O velho regime caiu de podre e não foi por essas ânsias, como dizia Camilo. D. Pedro bem avisou: «Não me obrigueis a libertar-vos pela força.» Libertou. Pela força e com os mercenários recolhidos à beira do Tamisa, pagos por usurários e acompanhados por generais e futuros marechais que não arriscavam muito e que gostavam da guerra civil porque tinham fígados e vaidade a preceito — mas não cérebro, nem tentações, nem desprendimento. Aqui estamos, até hoje, a repetir o século XIX.

Portanto, direitos cívicos, liberdades individuais, tentações libertárias, desconfiança em relação ao Estado, pessimismo bem-humorado, etc. — estou na mesma linha de O Insurgente. Por mais cinco anos, e mais outros cinco, por aí fora.

Francisco José Viegas é autor do blog A Origem das Espécies

[Nuno Gouveia] Insurgentes em Portugal

Felicito os camaradas do colectivo Insurgente pelo seu 5º aniversário. O espírito inconformista está bem presente neste blogue e nas ideias que aqui vão sendo debitadas pelos seus autores. Como sempre acontece em blogues colectivos, e isso também sucede nos que colaboro, nem sempre concordo com o que leio. Mas respeito a coerência e consistência ideológica evidenciada pelos insurgentes, uns mais próximos do que outros das minhas convicções. A direita portuguesa ganha mais com espaços como o Insurgente do que com muitos políticos que por aí andam do nosso espectro ideológico.

Num país onde a esquerda desde sempre tem procurado abafar as vozes inconvenientes, é no Insurgente que por vezes encontramos o argumentário mais insubordinado e aguerrido da blogosfera portuguesa. Ideias como a liberdade individual, a responsabilidade fiscal ou liberalização da economia podem ser consideradas exóticas pelo politicamente correcto, e nem sempre os políticos que representam a direita sabem defender este pensamento. E mais grave, as suas acções muitas vezes contradizem este ideário. Muitos deles deviam ler o que por aqui se escreve. E mesmo que não concordassem com algumas das ideias, sairiam certamente a ganhar.

Outro dos aspectos que me fazem ler diariamente o Insurgente é a inclinação anglo-saxónica de alguns dos seus autores. Por aqui vou lendo muitas referências à vida política americana, e se é certo que a tendência não é propriamente da minha corrente política preferida, encontro sempre pertinência no que vai sendo publicado. Mas era muito positivo que em Portugal a direita político-partidária tivesse este tipo de divergências que persistem do outro lado do Atlântico. Ainda há muito caminho a ser percorrido para haver em Portugal uma direita ideológica plenamente representada no espectro partidário. Contudo acredito que daqui a uns anos o panorama será bem diferente. E o Insurgente, através do seu contributo muito especial, também terá apadrinhado esta desejável alteração de mentalidades. Pelo menos assim espero.

Parabéns a todos os Insurgentes, e que continuem o bom trabalho. Eu agradeço.

Nuno Gouveia é co-autor dos blogs O Cachimbo de Magritte e Era Uma Vez Na América

[Paulo Pinto Mascarenhas] Reviver o passado n’ O Insurgente

insurgente
adj. 2 gén. s. m.
adj. 2 gén. s. m.
Que se insurge; revoltoso.

Festejei o início d’ O Insurgente – na altura então ainda n’ O Acidental, essa velha carcaça do início do século. Aplaudo agora de pé e com as mãos no teclado os cinco anos que celebra, uma idade provecta para quem resiste neste fenómeno chamado blogosfera. Como é óbvio, o melhor d’ O Insurgente são todos os que aqui escrevem, do Miguel Noronha ao André Azevedo Alves, passando pela Maria João Marques, o Rodrigo Adão da Fonseca, o Helder, o Filipe Abrantes – e tantos outros autores que se foram juntando à causa. Alguns tornaram-se amigos, outros continuo a seguir à distância de um computador.

Sendo leitor fiel desta casa, nunca como hoje O Insurgente foi tão indispensável, numa altura em que uma fatia significativa da blogosfera se tornou numa mera correia de transmissão da propaganda e dos interesses do poder socialista, com anónimos e figuras públicas, incluindo deputados, assessores e colunistas de jornais, de mãos dadas ao serviço da verdade oficial.

No meu tempo, como no tempo em que O Insurgente surgiu, os blogues eram sítios de pluralismo e diferença de opiniões, à direita como à esquerda. N’ O Acidental, por exemplo, escreviam muitos autores que se entretinham a zurzir com regularidade nas políticas e nos diversos ministros do governo de coligação entre o PSD e o CDS – ou nos dois primeiros-ministros que se sucederam. Desculpem esta minha viagem nostálgica num momento que é de festa merecida d’ O Insurgente, mas o passado deste blogue é o melhor atestado da independência e da inteligência com que nos presentearam ao longo dos últimos cinco anos – e que vão seguramente continuar a oferecer-nos por muitos e bons.

Obrigado por tudo, bravos Insurgentes.

Paulo Pinto Mascarenhas

Paulo Pinto Mascarenhas é Grande Repórter e colunista do i

[Alberto Gonçalves] Cinco anos que mudaram a blogosfera

É pequenina a minha coluna de favoritos no Explorer. Estão lá o DN, a Sábado, o Arts & Letters Daily, o Mark Steyn, o IMDB e o Accuweather (apontado para Vimioso). E dois blogues: o Blasfémias e o Insurgente. Nem sob ameaça de arma ou pressão governamental eu dispensaria a leitura diária de qualquer deles. O Insurgente, ainda por cima, tem a vantagem sentimental de, em tempos, me ter acolhido enquanto membro. Infelizmente para mim, felizmente para o blogue, a minha participação resumiu-se a um post, de resto excelso, e uma caixa de correio entupida com a desmesurada quantidade de mails privados que os seus elementos mais activos trocam. Outra vantagem é partilhar a amizade do Miguel Noronha, que encontro em almoços relativamente anuais, e a origem do André Azevedo Alves, que também é vimiosense (?) e que, curiosamente, nunca encontrei.

Mas o maior mérito do Insurgente foi mostrar-me que nem todos os portugueses oscilam entre o mata e o esfola, ou seja a “social-democracia” e o socialismo, ou seja imenso Estado e o Estado total. Em minúsculas bolsas de resistência (perdoe-se-me o imaginário), há quem aprecie a liberdade e não aprecie os fundilhos para que o mundo empurra esse valor teoricamente supremo. O Insurgente é uma dessas bolsas, um lugar onde há cinco anos podemos respirar e, ocasionalmente, iludirmo-nos. Embora um verdadeiro libertário admita que a liberdade não vencerá, não custa nada rir dos seus inimigos enquanto podemos. No Insurgente pode-se. E deve-se. Eu, que frequentemente descubro aqui o tema para aquela crónica que falta, devo-lhe muito. Obrigado

Alberto Gonçalves é cronista do Diário de Notícias e da Sábado

[Carlos Novais] Pérolas de Keynes

“Estou impressionado com as grandes vantagens sociais em aumentar o stock de capital até que este cesse de ser escasso”, [é difícil discordar].

“Uma comunidade adequadamente gerida equipada com recursos técnicos modernos, cuja população não está a aumentar rapidamente, deverá ser capaz de reduzir a eficiência marginal do capital em equilíbrio aproximadamente para zero no prazo de uma única geração”, [aqui confessamos o nosso cepticismo, as gerações já não o que eram].

É “relativamente fácil fazer os bens de capital tão abundantes que a eficiência marginal do capital seja zero (e) isso pode ser a forma mais sensata de gradualmente, nos livrarmos de muitas características questionáveis do capitalismo”, [taxa de juro zero, seria bom para os investidores, sem dúvida, esta coisa de poupar primeiro e investir depois é de facto muito questionável para além de ser desagradável].

“Não há motivos intrínsecos para a escassez de capital…é possível que a poupança de uma comunidade através da agência do Estado possa ser mantida a um nível onde deixe de ser escassa”, [pensando nisso, porquê só eliminar a escassez do capital, porque não tornar tudo não-escasso, ou seja, todos os bens de consumo? Que falta de ambição].

“o elemento mais estável e menos facilmente alterável, na nossa economia contemporânea tem sido até agora e pode revelar-se no futuro, a taxa de juro mínima aceitável para a generalidade dos donos de riqueza” através “da eutanásia do rentier e, consequentemente, a eutanásia do poder opressivo cumulativo do capitalismo em explorar o valor de escassez de capital”, [de facto, deve fazer sentido que os empresários e projectos que procuram capital sejam eles próprios os que conspiram para que este seja e continue escasso, mas só Keynes terá sido bafejado por tal revelação].

“os homens estão dispostos, como regra e em média, a aumentar o seu consumo à medida que o seu rendimento sobe, mas não tanto quanto o aumento do seu rendimento”, [aprendi isso a ler o Tio Patinhas].

“a crónica tendência ao longo da história humana para a propensão para a poupança ser mais forte do que o incentivo para investir”, [é uma forte tentação, eu sei, queremos todos ser o Tio Patinhas, e no fundo aqueles mealheiros onde as crianças juntam moedas são um grande inimigo da civilização ].

“O pensamento contemporâneo, está ainda profundamente impregnado na noção de que se as pessoas não gastarem a sua moeda de uma forma elas irão gastá-lo de outra”, [ai estes contemporâneos, onde é que irão buscar estas ideias parvas?].

“o remédio estaria em diferentes medidas concebidas para aumentar a propensão para consumir pela redistribuição dos rendimentos ou de outra forma”, [tirar aos conspiradores que mantêm a poupança escassa para dar aos ávidos de consumo, uma boa ideia].

“que no estado normal das modernas comunidades industriais, o consumo limita a produção e não a produção o consumo,” [caro leitor, pegue na sua poupança acabe com ela].

“A solução certa para o ciclo económico não é para ser encontrada na abolição dos booms e manter-nos permanentemente numa meia-recessão; mas na supressão das recessões e assim manter-nos permanentemente num quasi-boom”, [confesso ver aqui uma genialidade rara].

“Existe espaço, por conseguinte, para ambas as políticas, operarem em conjunto: para promover o investimento e, ao mesmo tempo, promover o consumo, não apenas ao nível onde com a propensão existente para consumir, corresponderia ao aumento do investimento, mas a um nível mais alto ainda.”, [Como é não nos lembramos disto? “C+I”, aumenta-se os dois e o rendimento sobe!].

“A noção de que a criação de crédito pelo sistema bancário permite que investimento tenha lugar a que não corresponde ‘nenhuma poupança genuína” isto é, “a ideia que poupança e investimento … podem diferir um do outro, será explicada, penso que, por uma ilusão de óptica”, [a solução de todos os problemas: para a poupança deixar de ser escassa… os bancos passam a criar crédito sem necessitarem de captar poupança monetária prévia. Onde é que fomos buscar a ideia que fabricar papel não fabrica o capital real necessário a sustentar o investimento? Parvinhos que nós somos. Agora sim, pode-se fomentar o Consumo e o Investimento simultaneamente, porque mais investimento não significa abstenção de consumo. Só falta resolver aquele pequeno problema da inflação e das bolhas seguidas de crises. Um pormenor no entanto].

“Contudo, a teoria do output como um todo, que é o que este livro se propõe a fornecer, é muito mais facilmente adaptado às condições de um Estado totalitário, que a teoria da produção e distribuição de um dado output produzido sob condições de livre concorrência e uma grande medida de laisser-faire”, [claro está, que as coisas boas têm o seu lado menos bom, neste caso um pouco de totalitarismo não mata ninguém… pronto, até pode matar, mas facilita].

“o dever de determinar o volume corrente de investimento não pode com segurança ser deixado nas mãos de privados” [os cálculos matemáticos e sistemas de equações simultâneas passaram a curar todos os males da humanidade desde então].

“uma razoável socialização abrangente do investimento provar-se-á como o único meio”, [os consumidores consomem, o Estado investe, o crédito cria-se… e os economistas comandam].

“O Estado, que está em posição de calcular a eficiência marginal dos bens de capital numa visão de longo prazo na base do benefício social geral [terá de assumir] uma responsabilidade cada vez maior na organização directa do investimento”, [e é para isso mesmo que servem os cursos de economia desde então].

Todas as citações de Keynes encontram-se referenciadas no ensaio “The Misesean Case Against Keynes” de Hans-Hermann Hoppe, que foi objecto de tradução para português, e onde se espera conseguir, futura publicação em conjunto com “Keynes, o Homem” de Murray N. Rothbard.

Carlos Novais é co-autor do blog Vento Sueste

[Isabel Goulão] Por Esta Praia

Em primeiro lugar, parabéns ao Insurgente por 5 anos de intensa vida blogoesférica. Em segundo lugar, achei muito arriscado terem-me convidado para escrever um texto, mas vocês lá saberão os “guest posts” com que se cosem. Por fim, ficam aqui com um modesto chafariz de beira de estrada, a caminho de uma aldeia do interior onde o Diabo perdeu a capa e onde, suponho que não saibam quem é o Ron Paul. Eu própria acho que só o conheço do programa do Jon Stewart, o que provavelmente não abona muito a meu favor, pensarão vocês. Fica bem este aniversário engalanado com um pouco de natureza, já que aquele campo de milho lá no fundo parece carregadinho de químicos (será transgénico?)

Caros Insurgentes, em verdade vos digo: nunca li Hayek e entendo tanto de liberalismo como das razões por que o Sporting não joga sempre tão bem no campeonato nacional como o fez esta semana com o Everton. Isto significa que não percebo muito do que aqui se discute e, quando percebo, nem sempre concordo, o que não é grave: sempre acreditei que não é a ideologia nem as convicções que separam as pessoas. Talvez seja um pouco liberal pelo lado da menina Hayek, uma morena gira e actriz razoável, com aquele “travozinho”de castelhano que dá algum picante às miudas e que tranforma os actores masculinos nuns canastrões, mas adiante.

Estamos aqui para festejar os cinco anos do Insurgente, a quem devo, aliás, a maior das simpatias. Podem chamar-lhe amiguismo, e eu ralada. Já partilhei a mesma mesa e muitas gargalhadas com alguns dos rapazes da coluna da direita e estivemos juntos no mesmo lado de algumas barricadas. A alguns vi-os casar e ter filhos, tudo isto em cinco anos que parecem quinze blog-anos. De alguns deles separam-me muitas águas, convicções, ideias sobre economia, costumes e até política. Diria até princípios bastante diferentes, mas nunca isso me impediu de vir até aqui, onde há gente que se insurge de forma enxuta, livremente, com coragem e sentido de humor. Deste blog só recebi atenções e palavras solidárias (mercy!), pelo que fico contente por estar aqui neste dia com todos vocês.

Um abraço,
Maria Isabel

Isabel Goulão é autora do blog Miss Pearls

[Miguel Morgado] INSURGENTE: 4 ANOS DE PARRHESIA

Na Atenas democrática da Antiguidade a cidadania activa não era apenas isonomia, nem isegoria. A plena cidadania tinha outro requisito de ordem moral, o de que cada cidadão fosse um parrhésiastés. Parrhesia significava literalmente “dizer tudo”, “falar com franqueza”, “dizer a verdade” como quando alguém nos desafia a não esconder nada – “diz-me a verdade!”. Na prática discursiva da parrhésia integrava-se a franqueza, porém não num sentido equivalente à sinceridade ou à transparência dos sentimentos de quem fala – não se tratava de “abrir o coração”. Integrava-se a coragem, já que o parrhésiastés corria o risco de punição ou, pelo menos, de incorrer no desagrado do interlocutor por lhe dizer a verdade inconveniente. E implicava, evidentemente, a crítica, que adquiria um sentido até mesmo de admoestação (merecida), e que se radicava na consciência patriótica de que o melhor amigo da cidade é o que lhe diz a verdade para melhor aconselhá-la a abandonar os maus modos e arrepiar caminhos. Indicava que a prática mais contraditória com a lisonja e com a submissão era precisamente este exercício particular de autonomia crítica intelectual.

Esta prática discursiva sustentava-se numa ética, na medida em que evidenciava a força do carácter do parrhésiastés, disciplinava os poderes políticos (denunciando as suas faltas) e o discurso público (contrastando com as hipocrisias, e sobretudo as adulações e as estratégias retóricas dos demagogos). Era parte integrante da vivência mais plena da liberdade e da vida cívica democrática, pois decorria da abertura tipicamente democrática ao confronto de opiniões e à disponibilidade comunicacional para ouvir o que, por vezes, é doloroso. Era uma certa forma de desconformidade ao poder instalado, o desafio à falsa autoridade. Era um atrevimento.

Parabéns, Insurgente. Muitos anos de vida.

Miguel Morgado é co-autor do blog O Cachimbo de Magritte