Acordo PS-CDS e breves notas sobre o PSD

O Adolfo Mesquita Nunes criticou a minha análise às negociações orçamentais que juntaram PS e CDS à mesma mesa. Se concordo com o essencial do que o Adolfo escreveu, já denoto que ele não compreendeu o fundamental do que defendi.

O CDS está a negociar o orçamento com o governo por dois motivos: Em primeiro lugar, porque representa vários sectores muito específicos do eleitorado e tem todo o interesse (legítimo, diga-se) de os defender. Daí ser um partido com temas caros, como sejam a segurança, o apoio às famílias numerosas e a agricultura. Ao CDS cabe dirigir-se ao seu eleitorado e mostrar que cumpriu. Já quando se vira para país, tal não sucede. A razão está em que partidos pequenos, sejam de direita ou de esquerda, para pouco mais servem que negociar trocos e esperar algumas migalhas. Ora, perante o abismo em que Portugal se encontra (e não estou a exagerar), isto não chega. Melhor ainda: não serve.

Chegamos agora ao segundo motivo que levou os centristas a negociar com os socialistas e que é a inépcia do PSD.

Caso o PSD tivesse um programa bem definido e alternativo ao PS (como deveria ter sido apresentado nas últimas legislativas), que defendesse uma mudança de modelo governativo e de modelo de desenvolvimento, um programa bem estudado pelos seus pares, caberia ao PSD não aprovar qualquer orçamento socialista, sob o pretexto de não querer pactuar com o agravamento da situação calamitosa em que o país se encontra e mostrar-se pronto para eleições. Assim não sendo, prepara-se para se abster.

Fosse o PSD liderado por uma equipa capaz, com visão e planeamento estratégico e o CDS via-se obrigado a ser cúmplice do PS ou a se encostar ao PSD. Entre os social-democratas há muito medo em mudar de discurso, por receio de se perderem as benesses conquistadas e nunca mais se chegar ao poder. A verdade vem precisamente no sentido contrário: quanto mais depressa o PSD apresentar um corte com o passado, mais cedo regressa ao governo. E aqui chegamos ao ponto essencial, porque o PSD, sendo um partido mais abrangente, alcançará o poder não para levar a cabo políticas sectoriais que satisfaçam uma parte do eleitorado, mas encarar o governo do país como um todo. A minha crítica ao CDS está, pois, não na forma como se tem comportado, mas no dilema de pouco mais conseguir fazer que isto. E ‘isto’, como referi, é nada.

6 pensamentos sobre “Acordo PS-CDS e breves notas sobre o PSD

  1. André,

    Chegaste a uma conclusão errada. O que o CDS está a fazer não é nada, é pouco. Ou é o possível. Nada é o que o PSD está a fazer, como bem o demonstras. Não se pode imputar ao CDS a responsabilidade de, com 10% dos votos, se substituir ao PS, ou até mesmo ao PSD. Isso é irrealista. Se é isso que as pessoas querem, têm bom remédio: votem no CDS, em vez de votarem no PSD (ou no PS).

  2. Mas será que o PSD poderia “mudar de discurso” mantendo-se “um partido abrangente”? Tenho algumas dúvidas.

    Se o PSD mudasse de discurso – no sentido preferido pelo André – perderia o Alberto João Jardim e mais umas dúzias de presidentes de Câmara. E lá se ia a abrangência toda…

  3. Maria João Marques

    “quanto mais depressa o PSD apresentar um corte com o passado, mais cedo regressa ao governo.”
    Precisamente. E, quando lá chegar, consegurá ficar mais tempo.

  4. Adolfo Hilário

    O PSD ficará lá mais tempo se a maioria dos portugueses viver melhor sob o seu governo do que no anterior.

  5. José Barros

    Quase em total acordo com o post.

    O CDS com estas negociações segura o núcleo duro do seu eleitorado (sendo generoso, direi 7%). Os restantes 3% que votaram no partido terão votado nele por acreditarem que o mesmo poderia crescer e constituir uma alternativa de direita ao PS e ao PSD. Esses podem ficar zangados com as actuais negociações pelo que representam de pequenez política: o CDS não quer defender uma visão do país, antes pretente apenas satisfazer algumas clientelas. Donde, o partido estará a perpetuar a sua menoridade política.

    O PSD tinha um caminho: avançava com um programa concreto de cortes na despesa pública e colocava o PS entre a espada e a parede, podendo depois colher os frutos do descalabro financeiro e económico que se avizinha. Optando por dar uma no cravo e outra na ferradura – mostrando sinais de preocupação com o défice e o endividamento, mas admitindo também a abstenção perante um orçamento previsivelmente situacionista – perde qualquer credibilidade com alternativa de governo.

    Em resumo, continuamos a não ter direita em Portugal.

  6. Pingback: Últimas linhas acerca das negociações do orçamento de estado « O Insurgente

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