Sobre o acordo PS-CDS

O CDS prepara-se para viabilizar o orçamento de estado, com pequenas alterações que o PS se propõe acatar em nome de uma maioria parlamentar e uma paz de espírito que já não sente desde o Verão. O fenómeno não é novo e surge quando o CDS cresce eleitoralmente. A história demonstra-o. A memória lembra-nos.

Antes das últimas eleições legislativas, sugeri a possibilidade de os centristas se coligarem com o partido socialista e formarem juntos um governo para quatro anos. Tal não aconteceu porque o CDS conseguiu um resultado acima dos 10%, o que não acontecia desde 1983. Com um resultado tão bom, e sabendo que se tratava de um voto de protesto, o CDS não podia ir para o governo. A estratégia transformou-se em render os votos recebidos. Para tal, nunca os democrata-cristãos não se furtaram às negociações com o PS, que não se preocupa em fazer cedências sectoriais ao agrado do eleitorado do CDS. Uns dinheiros para as polícias; umas ajudas para as famílias numerosas; algo mais para os agricultores e daí em diante. Dir-me-ão que é política. Pois é. Mas uma política que se paga caro.

O país atravessa uma grave crise em nada semelhante com os tempos vividos nos anos do guterrismo, quando o CDS, então PP, aprovou orçamentos socialistas. O momento é demasiado grave e o país está atrofiado à custa de pequenos arranjos e ligeiros acertos feitos com um ar de imensa responsabilidade e uma seriedade cega. O desemprego, que se aproxima dos 11% da população activa (uma percentagem muito maior se nos cingirmos ao sector privado), atinge já perto de 600 mil pessoas. Não é pêra doce. Precisamos urgentemente de outro modelo de desenvolvimento, não assente no endividamento do estado em troca de benesses ao agrado de sectores da sociedade que mantêm o status-quo. É preciso pôr o dedo na ferida e reduzir o peso do estado na economia e na sociedade. Centrá-lo no que é o seu papel, naquelas que devem ser as suas funções primordiais. Arrumá-lo e impedir que estrague mais vidas. Ver o país como um todo, sem preferências de uns sectores sobre os outros. Os Portugueses não são peças que se descartam na mesa das negociações. São homens e mulheres que votaram e escolheram quem governasse em seu nome. Fizeram-no confiando, uns mais, outros menos, mas fizeram-no. O mínimo que pedem é um retorno digno.

5 pensamentos sobre “Sobre o acordo PS-CDS

  1. Qual seria a tua sugestão? Vender mais caro o voto? Exigir mudanças políticas reais em vez de um suborno? Concordo mas tens alguma dúvida que o PS mandaria o CDS passear?

    O PS escolheu o caminho mais barato para chegar a uma maioria parlamentar, se esse caminho se tornasse demasiado caro é provável que se virasse para outro lado, outro lado bastante pior, já que o voto favorável do PSD, estando o PSD na confortável posição de não ter grande coisa a perder com um voto contra, também seria demasiado caro.

    Lamentavelmente compor uma maioria ainda não é o equivalente a ser uma maioria.

  2. Pingback: Acordo PS-CDS e breves notas sobre o PSD « O Insurgente

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