Inimputáveis

Ainda mal refeito do sismo de ontem (durante o qual dormi profundamente), descubro que o governo planeia obrigar à inclusão de uma clausula relativa a sismos nos seguros multi-riscos. Para tornar o negócio mais interessante para as seguradoras (porque o resseguro não deve ser barato nestes casos) propõe-se constituir um “fundo de risco sísmico” que funcionaria à semelhança do Fundo de Garantia Automóvel.

Para além do carácter paternalista da medida, os nossos governantes (e as seguradoras) demonstram que a sua irresponsabilidade não conhece limites.

Qual é então o problema? Ora vamos imaginar que o sismo de ontem, em vez de uns meros 6 tinha atingido uns assinaláveis 8 ou 9 na escala de Richter. O grau de devastação do Algarve à Grande Lisboa teria sido extremamente significativo. Contrariamente aos acidentes de viação ou outros riscos mutuados, as perdas dos segurados são forte e positivamente correlacionadas e os montantes de danos de tal modo elevados que “devoram” todo o capital das seguradoras. Inexplicavelmente, no i diz-se convictamente que “Uma coisa é certa: quanto mais generalizado for a cobertura anti-sismo, menor será o custo para cada segurado“. Nada mais errado. Quanto mais generalizado maior será o risco assumido pelas seguradoras. Para agravar a questão temos o supracitado “fundo de risco sísmico”. Neste tipo de seguro só uma seguradora multi-nacional conseguiria diversificar o risco. O que não é caso. Caso ocorresse um sismo todas as seguradoras seriam afectadas pelo que, para servir como garantia efectiva, o fundo teria dispor de montantes idênticos ao capital segurado.

Com a legislação avance, para além das perdas humanas e patrimoniais teremos um terramoto financeiro. Este último, criado pela irresponsabilidade humana.

22 pensamentos sobre “Inimputáveis

  1. “…em vez de uns meros 6 tinha atingido uns assinaláveis 8 ou 9 na escala de Richter. O grau de devastação do Algarve à Grande Lisboa teria sido extremamente significativo.”

    Caro Miguel

    Tem toda a razão no seu post no que diz respeito aos seguros, mas na frase acima indicada tem uma incorrecção.
    Quando se usa a escala de Richter, o que interessa é o epicentro do sismo.
    Se o epicentro dum sismo de grau 6, nessa escala, fosse no vale do Tejo e não no mar, então o resultado é que tinha sido muito grave.
    .

  2. Bem, eu refiro um de grau 8 ou 9 no mesmo local do de ontem. Pelo que informam as minhas fontes (pecebo pouco destes assuntos) seria esse o resultado. No exemplo que relata (que não foi o que usei) imagino que também tenha razão.

  3. “Uma coisa é certa: quanto mais generalizado for a cobertura anti-sismo, menor será o custo para cada segurado“

    Eu acrescentaria até: quem fez tão singela afirmação ainda não deve ter percebido o que aconteceu com os CDS e a crise financeira em curso.

  4. Jose Simoes

    “Neste tipo de seguro só uma seguradora multi-nacional conseguiria diversificar o risco”

    Não.

    Pequenas companhias podem obter a mesma diversificação através de se reassegurarem com outras companhias, sejam pequenas ou grandes.

    Aliás é o que já fazem, pelo menos nos riscos sísmico, à décadas pelo que sei ou talvez mais pelo que não sei.

    José Simões

  5. Mas o que se pretendem com isto é evitar o resseguro que é extremamente caro para o sismos. E a medida pretende que seja um seguro obrigatório pelo que passará a ter um peso considerável no risco das companhias.

  6. Domingos Figueira

    Em caso de catástrofe a cobertura dos seguros seria de imediato suspensa. Aliás se morrermos todos faz cá uma falta o seguro…

  7. Jose Simoes

    “o resseguro que é extremamente caro para o sismos”

    É caro, porque o risco é elevado. Mas as companhias cobram bem neste caso (na medida que o risco é elevado) e portanto podem pagar o resseguro. Aliás é isso que fazem as seguradoras sempre. E as resseguradoras. Ou não existe concorrência entre as resseguradoras? Ou as seguradoras não sabem usar essa concorrência?

    Claro que a clausula do governo vai fazer subir o preço dos seguros multi-riscos, ou os preços dos seguros estão tabelados?

    José Simões

  8. O problema é que o resseguro para um universo tão extenso é capaz de não ser muito diferente do capital segurado.

    “Claro que a clausula do governo vai fazer subir o preço dos seguros multi-riscos, ou os preços dos seguros estão tabelados?”
    É o mais provável tratando-se de um seguro obrigatório.

  9. Jose Simoes

    “O problema é que o resseguro para um universo tão extenso é capaz de não ser muito diferente do capital segurado”

    Isso é impossível. Aliás o preço de resseguro é uma prestação periódica, afinal é um seguro, quer portanto dizer que por cada euro seguro se pagaria um euro por ano (ou talvez um euro por mês?). Mas que oportunidade de negócio. Ou o negócio de resseguros não é livre?

    Até porque sendo um universo extenso há muito a cobrar. Imagino que se cobra mais se se tiver mais clientes, ou não? Talvez o que cobra seja proporcional ao n. de cliente, tal como o capital seguro.

    “tratando-se de um seguro obrigatório”

    O seguro “multi-riscos” é obrigatório? Eu não tenho (e até tenho cobertura anti-sísmica).

    Claro que se o preço fosse tabelado todas as conclusões são possíveis enquanto não se souber o preço da tabela. Mas não vejo qualquer indicação nessa direcção. E o seguro automóvel é obrigatório e não está tabelado.

    José Simões

  10. A grande diferença é que ao contrário do seguro automóvel se acontecer um sismo todos as apólices são activadoas ao mesmo tempo. Percebe agora?

  11. Jose Simoes

    “A grande diferença é que ao contrário do seguro automóvel se acontecer um sismo todos as apólices são ativados ao mesmo tempo. Percebe agora?”

    Não num espaço alargado. Daí o resseguro ser essencial, claro, aliás creio que fui a primeira pessoa a referir isso neste fórum, o que mostrar que estou ciente que algum tipo de apólices tende a acontecerem todas ao mesmo tempo, o que pode ser difícil de gerir numa carteira de seguros.

    Mas a referencia aos seguros de automóvel, foi para mostrar que a ligação obrigatório=tabelado não colhe, como penso, é claro no que escrevi antes. Esse é o ponto fundamental. Não sendo tabelado, as companhias podem fazer os seus resseguros, ver o preço e cobrar. Assim se evitem os cartéis e as vendas enganosas.

    José Simões

    José Simões

  12. Só uma nota: pelo menos para efeito de garantias bancárias no arrendamento comercial (presumo que na compra também) em Lisboa, o seguro relativo a sismos já é exigido pelos Bancos

  13. Miguel

    “No way”! Entretanto, o governo iria intervir para “evitar o risco de contágio sistémico” (!) e os segurados iriam ficar a ver navios, tal como os depositantes do BPN.
    Condição prévia: que o governo no poder seja ainda socialista.

  14. Pingback: Para ajudar à festa « O Insurgente

  15. ricardo saramago

    O que a experiência demonstra, em casos de catástrofe generalizada é que:
    1-As companhias de seguros não têm capacidade financeira, nem vontade para cobrir os prejuízos que seguraram.
    2-Os governos acorrem a subsidiar e pagar os prejuízos de muitos dos que não fizeram seguro e desviam a maioria das verbas disponíveis para obras públicas, engenharias diversas e planos de reconstrução grandiosos que não passam do papel.
    3-Os segurados a quem as seguradoras recusam ou atrazam as indemnizações não teriam,em Portugal, meios para fazer exercer os seus direitos na justiça em tempo útil.
    Não haja ilusões, em caso de catástrofe, serão sempre os cidadãos segurados ou não a ter que suportar os prejuízos, sendo que aqueles que tenham capacidade financeira poderão um dia vir a ser ressarcidos parcialmente por via judicial.

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