O verdadeiro Portugal

Há dias, no Corta-Fitas, João Távora embarcava no comportamento tão típico do “intelectual português” que é a busca da salvação do país, e, como é habitual na espécie, chegava à brilhante conclusão de que “a resolução do imbróglio português só poderá sair duma solução de “salvação nacional” amplamente consensual e de forte liderança”, e de que “é urgente redescobrir a verdadeira alma portuguesa para fundar um novo ciclo”. Deixando de lado a prosa: é difícil dizer qual destas duas “conclusões” é a menos perspicaz.

Comecemos pela “salvação nacional amplamente consensual”. É espantoso como sempre que surge uma crise particularmente grave, toda a gente se lembra de pedir aos políticos que “ponham de lado as divergências” e “se unam” para se encontrar uma “resposta” para os graves problemas que nos afectam. Não ocorre aos suplicantes que é precisamente nas alturas de crise que não só é mais díficil chegar a “consensos amplos” como eles nem sequer são particularmente desejáveis: tais “consensos” são improváveis, pois é em períodos particularmente conturbados e difíceis que as opções à disposição das pessoas se tornam mais radicais, mais drásticas; é portanto apenas e só natural que as divergências entre políticos de uma orientação e outra se tornem ainda mais conflituantes, ainda menos dispostos a chegar a um consenso do que em tempo de “vacas gordas”; em segundo lugar, esses “consensos”, a existirem, são pouco desejáveis pois mais não seriam que um compromisso entre opções mutuamente incompatíveis, um cozinhado aquecido e reaquecido nos microondas das salas do Rato e da São Caetano, concebidos para agradar a toda a gente e destinados a não servir a ninguém que não os que deles recebessem um lugarzinho ou outro numa generosa empresa pública.

Pior que essa curiosa fé no “consenso amplo”, só mesmo o desejo de redescobrir “a verdadeira alma portuguesa” para, com ela, “fundar um novo ciclo”. Não ocorre a João Távora que a “verdadeira alma portuguesa” possa ser precisamente aquela que “fundou o ciclo” a que ele quer pôr fim. Não ocorre a João Távora que “isto” possa ser precisamente aquilo que os portugueses querem. Como em tempos escrevi, Portugal deixou há muito pouco tempo de ser um país verdadeiramente pobre. Há, por isso, uma “memória social” (perdoe-se o jargão) relativamente avivada da penúria, da fome, da miséria. Comparadas com a condição permanente da vasta maioria dos portugueses até há poucas décadas, as agruras desta “crise” são um verdadeiro paraíso, insuficientes para alarmar quem ainda tem a falta de comida como termo de comparação e avaliação da sua condição.

Ainda para mais, a grande maioria do eleitorado certamente se lembra da crise de 73, da do final dos anos 70, da dos anos 80. Um período de dificuldades económicas não é novidade para essa grande parte dos portugueses. E quanto aos eleitores mais novos, desde 2000 que vivem em “crise”, praticamente não se lembram de viver noutro estado que não o de “crise”, e portanto, vêem-na como algo de “normal”, não como algo que justifique uma mudança drástica. Pouca gente em Portugal sente que a estagnação (o destino inevitável do país se não se fizer “alguma coisa”) lhes fará perder o que quer que seja. Já as “reformas” aparecem como a ameaçadora possibilidade de muitos deles perderem alguns dos “benefícios” que o Estado vai fingindo que lhes dá. Entre a calma da estagnação (pouco assustadora se a compararmos com o passado recente do país) e a incerteza das reformas, muitos preferem a estagnação.

Os únicos que poderão perder alguma coisa se a “crise” continuar a ser “normal” (e a ser cada vez mais “normal”) são os que ganharam alguma coisa com a relativa prosperidade dos anos de Cavaco e Guterres. Infelizmente, essa prosperidade veio em grande parte do aumento do funcionalismo público, dos “fundos” europeus e da facilidade do endividamento, ou seja, do Estado e de coisas que ou acabaram de vez ou serão insustentáveis se continuarem. O que quer dizer que os únicos que poderiam ter alguma motivação para querer que a “crise” não se torne “normal”, têm, ao mesmo tempo, muitas razões para não quererem arriscar as “reformas”. É perfeitamente plausível que prefiram comer as poucas maçãs que ainda lhes restam antes que apodreçam, em vez de plantarem outra macieira para passarem a ter mais maçãs para comer. O facto de termos chegado ao “fundo do poço” não quer dizer que façamos tudo para voltar à superfície. Podemos optar por aproveitar o pouco que temos, antes de ficarmos com ainda menos. É uma opção pior, diz o caro leitor, e eu acho que o leitor tem razão. Mas nada nos garante que optemos pelas melhores soluções. A “alma portuguesa” teve, aliás, uma oportunidade de mostrar o que queria há bem pouco tempo. E o que quis foi precisamente “isto”. E eu bem que gostava de acreditar que nada disto é verdade, mas infelizmente é mesmo.

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