O caminho da servidão

Hoje a meio da tarde estava preso numa fila de trânsito e ouvi um pouco de uma entrevista a um académico de Braga que, se percebi bem, é o Professor José Cesário. Pelo que entendi está envolvido na luta contra o tabagismo e, entre outras coisas, estuda os efeitos das diferentes leis nos diferentes países. Parece que em Espanha, quando a lei actual apareceu, os fumadores migraram em massa para os locais abertos ao público que continuaram a permitir fumar, o que levará, a prazo, a legislar mais ou menos no sentido da lei portuguesa para acabar com o regabofe. O Prof José Cesário tem muita pena que a acção da ASAE tenha perdido a autoridade que teve nos primeiros tempos, que é necessária mais fiscalização ao cumprimento da lei e punições mais duras, etc.
Bem, nada neste início me espantou embora, aos poucos, me fosse incomodando sem saber bem porquê. O que me espantou a seguir foi a total falta de pudor com que, o tipo de leis contra o fumo em espaços públicos, foram propostas para outros tipos de hábitos “pouco higiénicos” e para o interior das próprias casas das pessoas. Como se fosse a coisa mais natural deste mundo, o Professor José Cesário dizia que é necessário aprender com a nossa lei do tabaco para combater os maus hábitos alimentares das crianças e jovens; com toda a naturalidade disse que é preciso impedir que os pais fumadores fumem dentro de casa. Não passa pela cabeça do Professor José Cesário que o que ele propõe (cheio de boas intenções com certeza) é o caminho do totalitarismo.

Quando da proposta e aprovação desta lei, muitos avisámos para o que aí vinha: primeiro o tabaco nos cafés, depois em casa de cada um, depois a comida, a literatura, a seguir outra coisa qualquer, até a sociedade higiénica hitleriana esteja completa. Ou seja, a construção do Homem Novo continua por aí nas cabecinhas totalitárias dos altruístas.

5 pensamentos sobre “O caminho da servidão

  1. ol

    De um comentador:

    Crio esse tópico para nós fumantes, que fumamos porque gostamos e não queremos parar.
    Fumo 5-8 cigarros por dia de forma controlada e não me importo de ficar uns dias sem fumar se for preciso. Mas fumo porque gosto. Sou médico, e no hospital onde trabalho apenas mais 3 médicos fumam. Sofremos preconceito diariamente, por fumar, mesmo o fato de se fumar na rua, em ambientes abertos, mas perto de outras pessoas, não é bem aceito. Olha que eu evito fumar em lugares fechados e incomodar os outros, fumo sempre no aberto, e mesmo assim me importunam. Faço questão que as pessoas me vejam fumando, mas o que acontece na prática é que as pessoas cada vez mais fumam escondidas, em cantinhos, morrendo de vergonha de “incomodar”.
    Além de achar o cigarro gostoso, me agrada o sabor do tabaco, os efeitos da nicotina são fantásticos, sempre foi por isso que o cigarro foi usado, e não vejo porque não usá-lo. Muitas pessoas se entopem de psicotrópicos, antidepressivos ansiolíticos etc, e isso é aceito tranquilamente, pois faz parte da “cultura” criada pelo lobby da industria farmacêutica e da pseudo neurociência.
    O cigarro sempre foi distribuído aos soldados na guerra, e usado desde que existe, porque: Tira a fome e o sono, diminui a ansiedade, relaxa, aumenta a capacidade de raciocínio, deixa a pessoa mais alerta – sem causar ansiedade como efeito colateral – ou como dizem os ingleses deixa a pessoa “sharp”, aguça a inteligência. Ótimo para um soldado. No trabalho que faço me considero um soldado. Tenho que lutar todos os dias contra as doenças, conviver com a morte, com a incapacidade causada pela doença e com a minha própria. Muitas vezes um cigarrinho me ajuda a aguentar umas horinhas a mais, me a dá aquele momento de relaxamento que me permite seguir operando madrugada a dentro para tentar fazer o melhor.
    É ridículo portanto comparar o cigarro, com as drogas ilícitas, o cigarro te aproxima da realidade, melhora teu desempenho, te ajuda a fazer mais e melhor. É óbvio que se o sujeito fumar como um louco e se o organismo do sujeito for sensível, ele vai fazer mal e o sujeito vai passar mal…mas aí já são muitos ses – Isso já mostra como essa questão nunca é tratada corretamente. É óbvio tambem que os efeitos positivos do cigarro variam também de pessoa para pessoa. Não estamos falando de metafísica portanto, por isso não existe solução teórica e universal, estamos no campo empirico, no mundo físico, onde os efeitos são variáveis e onde teremos toda uma gama de efeitos e para-efeitos que vão variar de acordo com uma série de aspectos. Portanto não é correto discutir o tabagismo como uma questão metafísica. A não ser no sentido da liberdade de fumar ou não, mas isso é uma camada do problema apenas. Mas o que se faz sempre nas discussões é assumir a figura de linguagem “o cigarro faz mal” como um preceito metafísico e concluir logicamente que então não se deve fumar. Se pega dados empiricos, científicos, ou seja probabilísticos e limitados e se interpreta esses dados metafisicamente e se os aplica universalmente, o que não é possível, nem correto.

    Portanto essa discussão cigarro faz mal ou não ou cigarro versus drogas ilícitas, pra mim é agenda, é pauta, isso é uma discussão dirigida, errada desde o seu princípio. Pra fazer as pessoas olharem pro lado errado. Pra emburrecer a gente, pra depois a gente aceitar que cortem os nossos direitos e ainda achar bom. Acordem!!

    É como o Olavão diz uma armadilha pra te fazer entrar e discutir coisas erradas e perder teu tempo e emburrecer.

    Isso de fumar ou não, é um problema de juízo concreto de cada um. Cada um que desenvolva sua capacidade de juízo, sua inteligência, e decida o que é melhor para si, na sua situação concreta.
    Eu fumo porque gosto, aproveito os efeitos positivos da nicotina, e fumo pouco porque o cigarro me faz mal se eu fumar demais – me sinto enjoado. Então sei quantos cigarros posso fuma, fumo com prazer e pronto.

    de:
    http://www.seminariodefilosofia.org/node/528

  2. “Ou seja, a construção do Homem Novo continua por aí nas cabecinhas totalitárias dos altruístas.”

    Fernando Pessoa disse (segundo o CITADOR):

    “Não haja medo que a sociedade se desmorone sob um excesso, de altruísmo. Não há perigo desse excesso.”

    Esperemos que ele tenha razão.
    .

  3. “O que me espantou a seguir foi a total falta de pudor com que, o tipo de leis contra o fumo em espaços públicos, foram propostas para outros tipos de hábitos “pouco higiénicos” e para o interior das próprias casas das pessoas.”

    Caro Hélder

    Eu por deformação profissional tive na altura (e mantenho), outro tipo de aversão a essa legislação que se anunciava.
    Eu não fumo, e o fumo passivo incomoda-me bastante, mas as leis de proibir fumar em locais fechados irritam-me.
    Aquilo que eu defendia e defendo é que, mais importante do que proibir alguém de fumar numa sala, é garantir que o arejamento duma sala se faz de modo técnica e higienicamente correcto.
    Antigamente a vantagem de durante uma reunião, alguns dos participantes fumarem, era que isso permitia colocar-me na posição de melhor arejamento.
    Hoje em reuniões em que ninguém fuma, mas obviamente exala todo o tipo de vírus e bactérias, já apanhei carraspanas à conta disso, que dantes não apanhava.
    Eu na minha sala de reuniões do meu pequeno escritório, montei um sistema de renovação de ar, que me permitia ter reuniões onde nunca proibi de fumar, o que produziu reuniões bem saudáveis para mim e bem simpáticas para quem eu recebia.
    .

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