É favor não contrariar

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

Desde o início que se assiste a uma luta entre o que Obama é e o que os seus devotos queriam que fosse. O discurso de aceitação do Nobel da Paz, que Obama dedicou à necessidade de determinadas guerras, é apenas o mais recente golpe numa ilusão que deu um trabalhão a criar. Aos poucos, a ilusão esvai-se e sobra aquilo que, dentro dos EUA, sempre se pressentiu: um homem, eleito por motivos válidos, absurdos e assim-assim ao mais influente cargo da Terra e cuja prestação convém avaliar em função dos factos e não de delírios.

Incrivelmente, fora dos EUA os delírios persistem. Se muitos, desanimados, desistiram de ver em Obama o ícone antiamericano com que sonharam, outros, por teimosia ou convicção real, mantêm a esperança. Alguns dos esperançados roçam o fanatismo. Alguns dos fanáticos roçam a paródia. São os que, em se tratando de Obama, “percebem” na oposição à erradicação das minas terrestres a forma de erradicar as minas terrestres, na manutenção do Patriotic Act o processo de acabar com o Patriotic Act, na detenção de terroristas em bases americanas o modo de condenar a detenção de terroristas em bases americanas e, em suma, na defesa da guerra o único caminho para a paz.

Há dias, um editorial do Público partilhava esta recusa da evidência em prol do seu reverso e exigia aos “cínicos” que se calassem. Enquanto “cínico”, calo-me: certos estados mentais não devem ser contrariados. Já basta o próprio Obama contrariá-los diariamente, embora, como se nota, sem grandes resultados

2 pensamentos sobre “É favor não contrariar

  1. cfe

    A procissão ainda vai no adro…

    De certa maneira, Obama trilha o percurso que Lula caminhou: o marketing, as palavras bonitas de fé num futuro melhor, a mudança de paradigma a que os cidadãos estavam habituados a ter em seu governo.

    Há diferenças, obviamente, mas o alargamento da mudança aos demais aspectos da vida é a mensagem que passam em todas as vezes que podem discursar.

    No caso de Lula, pode-se observar uma contenção em seus atos para não deixar transparecer o verdadeiro objetivo que possui: o de criar uma sociedade em que o estado tem um papel determinante nos runos da sociedade. Agora, já na reta final de seu mandato as pessoas começam a acordar do hipnotismo pela absoluta verdade dos fatos.

    Pela semalhança no esquema que praticam e por a sociedade americana ser muito aguerrida, Obama poderá estar apenas minando o caminho de seus oponentes para que mais a frente seja capaz de colocar em prática aquilo que propõe.

    Não tomemos a falta de visualização da ação pela sua inexistência.

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