O objectivismo e a democracia-cristã

O Luís Mateus tem aqui um texto sobre o antagonismo, incompreendido por ele, entre o objectivismo e a democracia cristã. Diz que os objectivistas “gostam de pintar a Democracia Cristã (DC) como um socialismo light” o que não é completamente verdade, é um socialismo travestido com os mesmos objectivos de sempre mudando apenas um pouco a forma. Este desdém pela DC nada tem a ver com religiosidade como parece querer fazer crer o autor ao início. Se como ele, e muito bem, diz que “é redutor achar-se que se tem de ser crente para se ser democrata-cristão” da mesma forma é redutor achar-se que se tem de ser ateu para se ser objectivista. É uma questão de como cada um vive a sua religiosidade pois acreditar em Deus não entra em conflito directo com os princípios básicos do Homem objectivista.

Também ao contrário do que quer fazer crer o autor, Rand não é anti-altruísmo (no sentido comum da palavra). Perguntaram-lhe um dia o que aconteceria aos pobres numa sociedade objectivista. A resposta é simples “ninguém será impedido de os ajudar”. Rand entra em conflito com a DC em dois pontos essenciais:

1)      Na obrigatoriedade do altruísmo (o individuo tem uma dívida inata para com a sociedade, excepto se for um incapaz).

2)      No conservadorismo sobre questões “morais” (casamento, drogas, aborto, etc. – notoriamente onde está o maior peso do pensamento da igreja).

Sobre o altruísmo convém relembrar que a DC continua a acreditar num sistema de redistribuição de riqueza. Normalmente preocupa-se mais com grupos (e.g. os idosos) que não são considerados prioritários pelos socialistas/comunistas (e.g. os info-excluidos sem Magalhães, ou o tipo que está muito cansado para procurar emprego e portanto tem que ter um RSI – nunca saberemos como sobrevivia esta gente antes de 1999) mas o socialismo não se define por quem paga e por quem recebe. É o principio moral que está errado: o de roubar a uns para dar a outros – o receptor do produto roubado é meramente pormenor. Curiosamente, sobre este assunto, não se acha irracional roubar a alguém enquanto novo para mais tarde (se viver até lá) passar a ser beneficiário do roubo de que foi vítima (justificando moralmente, para si, este roubo).

A segunda questão é que a DC não defende (como quer fazer crer o Luís) uma economia de mercado. Defende, tal como o socialismo moderno (o da 3ª via) uma economia mista composta de serviços privados e serviços públicos. Os campeões da DC defendem a implementação de escolas privadas? Sim. A DC defende a abolição do sistema público de ensino? Não, ele tem que existir para quem não tem posses dizem. Hospitais privados? A DC diz sim. Acabar com o SNS? Nem pensar, a saúde é um “direito” dos cidadãos (cai do céu como direito divino, não temos de fazer nada por ela). Dizer que, por exemplo, o CDS quer privatizar as empresas públicas não faz dele capitalista – menos socialista que Jerónimo de Sousa certamente, mas continua lá perto. Poderíamos falar de outros pormenores mas genericamente falando a DC entende que há um mínimo de condições que cada ser humano deve ter e que se um qualquer indivíduo não quer, ou não pode, trabalhar por essas condições então é obrigação dos outros providenciar por elas. Também isto é socialismo.

Sobre o segundo ponto lembro-me de outra entrevista (infelizmente não encontro o link) com Rand onde lhe perguntaram o que ela achava dos homossexuais. Ela respondeu, como só ela podia responder, que os achava “revoltantes”. O repórter, sentindo uma brecha pergunta-lhe então se ela acha (esperando, em vão, uma contradição na sua lógica) que o Estado também serve proibir esses casamentos e fazer valer os “bons valores morais”. Respondeu, obviamente, que não deve o Estado meter-se entre essas duas pessoas. Também apoiava a liberalização do aborto (eu tenho algumas reservas à posição dela embora concorde no geral) e a liberalização das drogas algo que a DC nunca poderá apoiar a não ser que seja repensada. Prefere, infelizmente, deixar esse espaço ser ocupado por partidos ligados a Stalin e Trotsky.

Expostas que estão as contradições que considero mais importantes entre DC e objectivismo queria aproveitar também para esclarecer o Luís sobre as ideias objectivistas pois há muita confusão no seu texto:

1)      “O problema ético do Objectivismo de Rand assenta no facto de esta ignorar completamente a nobreza ética que constitui a acção de um homem que vise o bem comum dos seus pares e não apenas o seu bem individual.”

Eu confesso que não sei o que é essa “nobreza ética […] que visa o bem comum”. Como não sei o que é dificilmente posso almejar alcançar essa nobreza, mas nada tenho contra outros a alcançarem. O meu problema é se para o Luís atingir a sua “nobreza ética” vem pedir a mim que sacrifique o meu bem individual… isso é que eu não considero nada nobre.

2)      “Rand ridiculariza toda a acção “altruísta” por achar que este tipo de acção é contra-natura, é contra o próprio interesse individual. Critica a sociedade que valoriza actos altruístas, intitula-os de uma barbárie de sacrifício individual.”

Isto  é falso. Rand ridiculariza o “altruísmo compulsivo”. O Luís está, neste parágrafo, a ignorar o sentido que Rand dá às palavras “egoísmo” e “altruísta” que não é o que normalmente as pessoas (que desconhecem o objectivismo) associam. Se eu sentir um prazer pessoal em oferecer uma sopa a um indivíduo isso, para um objectivista, é tão egoísta como oferecer-lhe uma sopa em troca de uma engraxadela de sapatos. Não é “altruísmo” no sentido em que eu o faço para meu prazer pessoal e não para o do receptor da minha acção. Isto nem tem nada a ver com “cenários irrealistas”, muitos voluntários em acções sociais estão lá porque se sentem bem com isso, sentem-se úteis e não porque querem “sofrer como Cristo”.

3)      “Rand acha que o Homem tem de funcionar sozinho, com a sua mente como única arma e funcionando num sistema de troca justa.”

Esta frase não faz sentido nenhum. O Homem faz trocas com quem se funciona sozinho? O Homem é um animal social, o objectivismo nunca nega isso. Pelo contrário são os socialistas que querem fazer do objectivismo algo que ele não é fazendo comparações (parvas) entre um individualista e um eremita.

4)      “Defender um Estado como pessoa de bem que ajude a aliviar a pobreza não é ser-se socialista.”.

Claro que é. O Estado não tem recursos próprios, tenta “aliviar a pobreza” confiscando os bens dos seus cidadãos através da força (ao contrário, por exemplo, dos jogos da Santa Casa que obtém o seu financiamento de forma voluntária). Ora um Estado que faz isto é um Estado que não respeita a propriedade privada dos seus cidadãos e como é óbvio sem respeito pela propriedade privada não há capitalismo.

5)      “o Liberalismo acredita na pureza do indivíduo e, em teses mais radicais, no fim do Estado.”

Isto já não tem nada a ver com objectivismo. Indecentemente o autor fala de minarquismo sem chamar as coisas pelos nomes e colando-o, injustamente, ao liberalismo.

6)      “A história já provou que a Sociedade sofre quer com o Estado sufucante e dominador, quer com o Estado não regulador que acredita cegamente na ética de cada indivíduo.”

Só porque se diz alguma coisa não quer dizer que seja verdade… exemplos de “sofrimento” de um “Estado não regulador” ? Faz outras referências, mais à frente, que querem implicar o mesmo sem nunca demonstrar nada. Ou muito me engano ou o autor quer fazer passar países da terceira via socialista como liberais para “demonstrar” que o liberalismo não funciona.

7)      “Por isso a Democracia-Cristã acredita no meio termo.”

Ao que Ayn Rand responde In any compromise between food and poison, it is only death that can win. In any compromise between good and evil, it is only evil that can profit. In that transfusion of blood which drains the good to feed the evil, the compromiser is the transmitting rubber tube”. Ou, de uma forma mais simplista: a terceira via não funciona. A crise financeira que vivemos é a prova disso. Porque há coisas que são mesmo a preto e branco, há quem não goste porque quando se é, por exemplo, DC pode ficar com uma cor que não gosta… mas não vale a pena inventar tons de cinzento para fugir ao que é.

Termino lembrando um principio básico do objectivismo “need is not a claim”. Só porque eu preciso de comer para sobreviver não quer dizer que seja obrigação de alguém alimentar-me.

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30 pensamentos sobre “O objectivismo e a democracia-cristã

  1. Uma discussão interessante para a qual lamento não ter tempo para contribuir de form substancial neste momento.

    Só uma nota: percebo o contexto, mas quando leio “Homem objectivista” (ou “Homem socialista” ou “Homem liberal” ou similar) fico sempre ligeiramente arrepiado. E, passe a provocação, acho que é o mesmo tipo de arrepio que sinto quando olho para algumas das capas dos livros da Ayn Rand, autora que apesar disso estimo bastante.

  2. O “Homem [inserir estereotipo] ” eu ainda compreendo (mas não encontrei outro termo na altura) mas que arrepios são esses dos livros e em que capas? Tenho que te oferecer os livros já encadernados? 😛

  3. filipeabrantes

    «Se eu sentir um prazer pessoal em oferecer uma sopa a um indivíduo isso, para um objectivista, é tão egoísta como oferecer-lhe uma sopa em troca de uma engraxadela de sapatos. Não é “altruísmo” no sentido em que eu o faço para meu prazer pessoal e não para o do receptor da minha acção. Isto nem tem nada a ver com “cenários irrealistas”, muitos voluntários em acções sociais estão lá porque se sentem bem com isso, sentem-se úteis e não porque querem “sofrer como Cristo”.»

    Nuno, nesse caso o que entende ela por altruísmo?

    Dar um casaco a um sem abrigo pode então ser tão egoísta como não dar. Como as palavras têm um contexto, e sem desmentir o que ela diz forçosamente (q quem dá sente conforto nisso), confundir as duas acções tem por consequência a não valorização moral de acções generosas.

  4. Caro Nuno, antes de mais obrigado pelo trabalho de ter lido o post e pela menção n’O Insurgente.

    Não deixa de ser curioso esta discussão voltar ao Insurgente, pois foi aqui que tudo começou como um comentário a um post de uns dos autores do Insurgente.

    Tentando não me alongar (vai ser difícil), tenho de chamar a atenção para a total inconsequência do seu primeiro parágrafo. Em nenhum momento inferi que o “desdém” (como lhe chama, nem fui eu) de alguns liberais em relação à DC tem que ver com religiosidade. Isso seria ridículo. Há liberais ateus, há liberais crentes, há DC crentes e DC ateus. Ponto.

    A discussão irá, prevê-se, entrar num beco sem saída.
    O Nuno, por toda a lógica que expôs acima, conclui-se que é contra qualquer tipo de impostos que sirvam para acção social. O Estado deve demitir-se dessa função, ficando ela entregue apenas à vontade privada de indivíduos.
    É cada um por si. Eu discordo dessa visão. Querer colar isso a uma noção de mais ou menos liberdade parece-me falacioso. É uma questão de moral. E quando diz que é errado haver coacção do Estado em nome de uma moral, então tenho de fazer minhas as palavras do Carlos Duarte (que costuma aqui comentar por vezes) quando diz que a

    ““moral” é uma das bases do sistema jurídico. O sistema jurídico implica SEMPRE uma limitação da liberdade individual em função ou do bem-estar da maioria ou da liberdade individual de um terceiro. Portanto, “coacção” é uma necessidade para a vida em sociedade.

    Agora, mesmo considerando o que por via de impostos e políticas sociais, somos obrigados a fazer caridade e que, como essa caridade não é feita directamente por nós, deixa de poder ser considerada ética, relembro-lhe que num sistema democrático e por via da representatividade, Vc. é co-responsável – que é algo que parece ultrapassar muita boa gente – pelas acções do seu Governo.”

    Para não me alongar (como prometi), apenas chamo atenção para o seguinte, quando diz:

    “Indecentemente o autor fala de minarquismo sem chamar as coisas pelos nomes e colando-o, injustamente, ao liberalismo.”

    Interpretou mal o texto, apenas cito esse exemplo como paralelo ao que alguns liberais fazem, falando de socialismo e colando-o, injustamente, à Democracia-Cristã.

    Para finalizar, apenas me posso congratular que a DC seja maioritária e fulcral na maior parte dos países europeus mais desenvolvidos (infelizmente não o é em Portugal) e que também acho muito importante que faça coligações com os liberais, pois, a meu ver, equilibram-se ambos e não me parece que sejam incompatíveis de todo. Mas enfim, é como eu vejo as coisas.

    Cumprimentos e, mais uma vez, obrigado pelo destaque.

  5. Cocas

    A simplicidade linear do maniqueísmo entre individualismo e socialismo é uma forma de de encerrar o debate em binómios de fancaria.
    “A dívida inata do indivíduo à sociedade” não é necessariamente socialista, pois essa noção é muito anterior ao socialismo. E defender uma suposta intemporalidade do socialismo e aplicá-la da forma como este post aplica é não ter noção de existem princípios éticos, religiosos e filosóficos para lá do pensamento de Marx. A menos que vocês queiram reinventar o socialismo, o que me parece um fetiche de gosto duvidoso.

  6. lucklucky

    “““moral” é uma das bases do sistema jurídico. O sistema jurídico implica SEMPRE uma limitação da liberdade individual em função ou do bem-estar da maioria ou da liberdade individual de um terceiro. Portanto, “coacção” é uma necessidade para a vida em sociedade.”

    Tirania da Maioria, coisa que já sabia. Escravatura com coacção soft, até ao dia em que seja você a ser coagido…

    Mas há um exemplo muito simples contra os seus argumentos:

    Vamos por exemplo imaginar que seria possível fazer países com relativa facilidade. Coisa que futuro será possível. Vai colocar um muro para as pessoas não irem embora? E depois? atravessar a fronteira com um exército e obrigá-las a pagar?

  7. “Nuno, nesse caso o que entende ela por altruísmo?”

    É o sacrificio individual em prol de terceiros. Se o que fazes por um terceiro não é para ti um sacrificio então não é altruísmo. Se um amigo teu está a precisar de dinheiro para fazer uma cirurgia e tu lha pagas não é altruísmo, é a demonstração do valor que dás a essa amizade.

    Se por outro lado és obrigado a pagar a saúde de gente que não conheces de lado nenhum, ou pior, de gente que consideras tua inimiga então é o tal altruísmo-compulsivo.

    The world is melting from an orgy of self-sacrificing. – Howard Roark

  8. “Eu discordo dessa visão. Querer colar isso a uma noção de mais ou menos liberdade parece-me falacioso. É uma questão de moral. ”

    Luis,

    Completamente de acordo: é uma questão de moral. Os meus principios morais dizem-me que é errado extorquir dinheiro de outros individuos para me pagarem o jantar só porque tenho fome. Nem faço grande distinção de um governo que a isso me obriga ou de um assalto à mão armada (sendo que deste posso recorrer para a justiça).

    O problema é exactamente a moral, um código moral errado. (E pronto, eu andava desejoso era de fazer publicidade à coisa 😉 ).

    Eu gosto de absolutos. Ou há propriedade privada ou não há. A DC diz “tens direito à tua propriedade privada a não ser que eu precise dela para a causa X”. Não é um principio moral diferente daquele em que assenta o socialismo (não me interessa se tira mais ou menos, se serve causas “mais nobres” ou não) e meramente a um passo lógico de distância ao comunismo.

  9. ““A dívida inata do indivíduo à sociedade” não é necessariamente socialista, pois essa noção é muito anterior ao socialismo.”

    Cocas, tens toda a razão. Vem desde o tribalismo onde o “chefe” decidia quem é que estava pronto para perder a cabeça para agradar ao deus da chuva ou para se colocar à frente de um leão que a malta tinha fome. Curiosamente, raramente era ele próprio.

    Ayn Rand tem textos bastante interessantes (do meu ponto de vista) dessas origens tribais e como elas evoluíram.

  10. filipeabrantes

    «É o sacrificio individual em prol de terceiros. Se o que fazes por um terceiro não é para ti um sacrificio então não é altruísmo. Se um amigo teu está a precisar de dinheiro para fazer uma cirurgia e tu lha pagas não é altruísmo, é a demonstração do valor que dás a essa amizade.»

    Isso tem como consequência que qualquer pessoa com muito dinheiro que doe dinheiro a instituições não possa ser chamada altruísta, parece-me.

    Não sujeito a coacção, um indivíduo tem 3 tipos de atitudes possíveis a meu ver: 1. altruísmo (dar de livre vontade, sob qq pretexto), 2. egoísmo natural (95% dos comportamentos do nosso dia-a-dia), 3. egoísmo extremo e nocivo (espécie de autismo social).

  11. “Isso tem como consequência que qualquer pessoa com muito dinheiro que doe dinheiro a instituições não possa ser chamada altruísta, parece-me.”

    Não necessariamente, há pessoas que infelizmente (um psicólogo poderá aprofundar o tema) têm uma necessidade de se sacrificar em prol dos outros para se sentirem aceites pelo meio (ou sociedade) o que pode levar a este tipo de atitudes.

    De qualquer das formas este altruísmo é ofensivo (pelo menos para mim) e essa pessoa devia ficar contente por isso 🙂

    Imagina um magnata de uma televisão privada a ser obrigado (como é) a passar a mensagem do PCP em tempo de antena a explicar porque é que deviam expropriar o tal magnata. Se o tal magnata oferecer tempo de antena a um tipo que defenda o contrário achas que é altruísmo?

  12. filipeabrantes

    «Imagina um magnata de uma televisão privada a ser obrigado (como é) a passar a mensagem do PCP em tempo de antena a explicar porque é que deviam expropriar o tal magnata. Se o tal magnata oferecer tempo de antena a um tipo que defenda o contrário achas que é altruísmo?»

    Mas eu já disse indirectamente que um gesto dito altruísta feito por obrigação não é altruísmo. É escravidão.

    «De qualquer das formas este altruísmo é ofensivo (pelo menos para mim) e essa pessoa devia ficar contente por isso»

    Tenho dúvidas se será ofensivo. Acho que é natural que isso aconteça. E ainda bem que, p.ex., as tias de Cascais gostam de dar coisas aos pobres. 🙂

  13. “Mas eu já disse indirectamente que um gesto dito altruísta feito por obrigação não é altruísmo. É escravidão.”

    Nem mais, é escravidão. Tal como o SNS.

    Exemplo 1: Alguém de quem eu gosto tem um acidente de carro e eu pago as custas médicas inteiramente do meu bolso (interesse próprio).
    Exemplo 2: Um tipo rouba-me a carteira. Enquanto vai a fugir é atropelado e eu pago as custas médicas através do SNS (escravidão).

  14. Exemplo 3: Um tipo é atropelado e não tem dinheiro para as custas médicas. Deixa-se a morrer até que alguém, não se sabe quem, queira fazer a bondade de pagar o tratamento e não deixar o homem morrer.

  15. Luís,

    Citando do artigo original:
    “Termino lembrando um principio básico do objectivismo “need is not a claim”. Só porque eu preciso de comer para sobreviver não quer dizer que seja obrigação de alguém alimentar-me.”

    Se tu precisares de um rim também tenho de to dar só porque tenho 2?
    Então porque é que tenho de te dar 500 euros para te arranjar as pernas? Só porque tenho 1000 no bolso?

  16. filipeabrantes

    #14

    Com tantas pessoas que votam nos partidos altruístas da esquerda, tenho a certeza que um fundo público c/contribuições voluntárias teria muito sucesso. C/esse fundo ajudava-se quem precisasse (como no exemplo que referiu).

  17. Caro Nuno, que ninguém o obrigue a nada… Tenho pena que se sinta tão reprimido por contribuir para o SNS.. Que nunca caia na desgraça de algum dia não ter como pagar cuidados de saúde e ninguém o querer/poder ajudar, tendo de, vilmente, usar o dinheiro dos contribuintes para o SNS para se tratar.

    O problema é que se toda a gente pensasse como o Nuno, haviam pessoas a morrer aos magotes só porque ninguém mexia uma palha por algo que lhes é alheio.

    Ora, para mim a vida alheia não me é alheia. Muito menos o deve ser para um Estado.

  18. Para concluir, meus caros, acho que esta discussão está num plano de valores morais.

    E estes não se explicam. Ou se têm, ou não se têm.
    Há quem ache que a sociedade baseada em determinado tipo de valores é a mais justa. Há quem ache que essa, rompendo com certos valores e definindo outros, será mais justa. Nada a fazer! Concordemos em discordar.

  19. “O problema é que se toda a gente pensasse como o Nuno, haviam pessoas a morrer aos magotes só porque ninguém mexia uma palha por algo que lhes é alheio.”

    Sim, Deus nos livre de sermos responsáveis por nós próprios e contratarmos um seguro.

    Um seguro, que economicamente, nada mais é do que uma pool de pessoas que contribuem recursos para serem usados quando determinados membros necessitam dela.

    Diferenças para o SNS:
    1) É voluntário.
    2) Não dá prejuízo.

  20. É tudo muito bonito, mas vá ver o caso americano em que, saúde tornada negócio leva a abusos por parte das seguradoras que apenas esperam obter lucro, esquecendo-se da ética profissional.

    É preciso lembrar o exemplo (entre milhares) daquele que, tendo cortado 4 dedos num acidente e não tendo seguro suficiente para a intervenção que re-colocaria todos, teve de optar por dois dedos?

  21. Miguel Botelho Moniz

    «Se como ele, e muito bem, diz que “é redutor achar-se que se tem de ser crente para se ser democrata-cristão” da mesma forma é redutor achar-se que se tem de ser ateu para se ser objectivista. É uma questão de como cada um vive a sua religiosidade pois acreditar em Deus não entra em conflito directo com os princípios básicos do Homem objectivista

    Creio que o Prof Peikoff é capaz de ter uma opinião diferente 😛
    Não recomendo, no entanto, que tentes confirmar junto dele esta minha hipótese…

  22. Miguel Botelho Moniz

    «É preciso lembrar o exemplo (entre milhares) daquele que, tendo cortado 4 dedos num acidente e não tendo seguro suficiente para a intervenção que re-colocaria todos, teve de optar por dois dedos?»

    De repente lembrei-me do Michael Moore. Mas devo estar enganado. Não creio que ele seja Democrata Cristão.

  23. “É preciso lembrar o exemplo (entre milhares) daquele que, tendo cortado 4 dedos num acidente e não tendo seguro suficiente para a intervenção que re-colocaria todos, teve de optar por dois dedos?”

    E portanto a solução é pagarem os outros. Bonito. Porque não obrigar o médico a trabalhar de borla? Afinal os tipos até ganham acima da média, de certeza que podem fazer umas coisitas de borla, e se não poderem há sempre o chicote.

    “Creio que o Prof Peikoff é capaz de ter uma opinião diferente”

    A própria Ayn Rand teria objecções ao que eu disse. No entanto já fui convencido de que depende da forma como cada um decide encarar o fenómeno religioso na sua vida. Nessas coisas tomo a palavra deles que eu sou ateu 🙂

  24. “De repente lembrei-me do Michael Moore. Mas devo estar enganado. Não creio que ele seja Democrata Cristão.”

    É normal que se tenha lembrado, pois o caso vem no filme. Mas também veio no 60 segundos. Nem sei se os do 60 segundos são democratas-cristãos… Da mesma maneira que não sei se o homem que teve de optar por dois dedos era democrata-cristão, socialista ou liberal… Isso muda alguma coisa?

  25. Miguel Botelho Moniz

    Caro Luis (#4),

    A citação que faz do Carlos Duarte é na verdade um mau exemplo. É justamente na ideia de co-responsabilidade e de necessidade de coerção nas políticas sociais que a (so-called) democracia cristã de aproxima do socialismo. E, ironicamente, é também este aspecto que torna a DC pouco cristã… É justamente a idiosincrasia cristã da alma individual e da sua salvação, também individual, que torna imperativa a acção moral de cada um num contexto de livre-arbítrio, sem coerção externa. É evidente que o apoio de um indivíduo ao seu estado constitui uma acção que o co-responsabiliza (parcialmente) no plano ético. Mas pretender que quem não apoia seja igualmente co-responsável é de um colectivismo tribal que de cristão não tem nada.

  26. Miguel Botelho Moniz

    «É normal que se tenha lembrado, pois o caso vem no filme. Mas também veio no 60 segundos. Nem sei se os do 60 segundos são democratas-cristãos… Da mesma maneira que não sei se o homem que teve de optar por dois dedos era democrata-cristão, socialista ou liberal… Isso muda alguma coisa?»

    No caso do homem não muda nada, certamente. Mas se calhar era prudente não basear (ou pelo menos não defender) uma posição política sua recorrendo a informação disponibilizada por alguém com um track-record de distorcer factos para promover a sua (dele) agenda política.

  27. Cocas

    “Tenho pena que se sinta tão reprimido por contribuir para o SNS.. Que nunca caia na desgraça de algum dia não ter como pagar cuidados de saúde e ninguém o querer/poder ajudar, tendo de, vilmente, usar o dinheiro dos contribuintes para o SNS para se tratar.”

    Não sou randiano nem para lá caminho, mas acho que temos razão em sentirmo-nos reprimidos por contribuir para esse “monstro” inepto de despesa mal gerida que é o SNS, assim como para um sistema de ensino ineficaz. Uma coisa é o Estado poder alocar uma verba para poder acudir ao infortúnio alheio – em conjunto com entidades beneficentes e/ou mutualistas locais e nacionais – outra são os sistemas nacionais disto e daquilo. Concordo com o Nuno quanto aos seguros, mas não creio que estes sejam alguma vez suficientes para evitar situações que penso que ninguém gosta de ver.

    Nuno, não li a perspectiva de Ayn Rand sobre essa evolução tribal da imposição coerciva sobre o indivíduo, de qualquer modo ela certamente teve de se esforçar para fazer alguém acreditar que aquilo que tem sido o mundo desde os seus primórdios alguma vez se vá alterar. Refiro-me à Autoridade, seja ela do “chefe tribal” com base numa concepção mágica do mundo seja a do chefe de Estado com outra visão completamente diferente. Sem essa autoridade e esse poder coercivo, em nome do bem-comum ou em nome de algo transcendente, não creio poder existir liberdade alguma e daqui surge de facto a noção de “dívida do indivíduo à sociedade”. Será isto algum tipo de socialismo?

  28. “Nuno, não li a perspectiva de Ayn Rand sobre essa evolução tribal da imposição coerciva sobre o indivíduo, de qualquer modo ela certamente teve de se esforçar para fazer alguém acreditar que aquilo que tem sido o mundo desde os seus primórdios alguma vez se vá alterar.”

    Ayn Rand era uma grande fã da revolução e da constituição americana. Quando lhe pedem exemplos de liberalismo ou de capitalismo a funcionar ela refere sempre o século XIX americano (se bem que, nunca perfeito capitalismo/liberalismo como ela acaba por reconhecer), antes dos ataques (considerados por ela) brutais aos direitos do indivíduo que a constituição pretendia proteger. Fica esta citação de que eu gosto muito:

    “If a drought strikes them, animals perish. Man builds irrigation canals.
    If a flood strikes them, animals perish. Man builds dams.
    If a carnivorous pack attacks them animals perish. Man writes the Constitution of the United States.”

    Uma concepção muito liberal: o Estado protege-nos dos criminosos, a constituição protege-nos do Estado. Ela começa a ficar desgostosa com os EUA no final do século XIX quando são passadas as anti-trust laws e outras leis “anti-competição” que até são usadas em Atlas Shrugged sobre as companhias de comboios. FDR, durante a grande depressão, deu a machadada final no capitalismo (machadada essa que implicou um ataque também ao tribunal constitucional) colocando os cidadão dependentes do Estado como nunca tinham sido nos EUA.

    Isto apenas para dizer que, por um breve momento na história, ela acha que os homens mudaram mesmo e se viram livres da sua herança tribal. Se tiveres curiosidade sobre o tema aconselho-te os livros “Capitalism: The unknown ideal” e “The virtue of selfishness”. São livros pequenos e baratos: um conjunto de pequenos textos onde ela e outros objectivistas (ou ex-objectivistas) expõem os seus pensamentos sobre os mais variados temas.

  29. Altruismo/Egoismo

    Quanto à questão do “Altruismo”, tendo o Nuno já clarificado a questão, nada mais a acrescentar.

    No entanto, quanto ao egoismo, acho importante referir que Rand define o egoísmo muito claramente como A DEFESA DO INTERESSE PRÓPRIO RACIONAL – racional é a palavra chave.

    Rand identifica o egoismo de Nietzsche (o conhecido contemporâneamente) como a OUTRA FACE da mesma moeda: Apenas um egoismo baseado na satisfação de caprichos e instintos animalescos, que levam a pisar tudo e todos para a obtenção do que se deseja (actos impróprios na ética objectivista) justifica a prevalência de uma moral altruista, que proclama o individuo como objecto de sacrificio. (lembro que na moral contemporânea é bem sabido que se não for feito com sacrificio não representa verdadeiramente um acto altruista).

    Muita confusão é gerada ou por um total desconhecimento do objectivismo ou por pura intenção maléfica de o desacreditar. Certo dia alguém afirmou: “Rand defende que se um homem encontrar a cura para o cancro, ele terá todo o direito de a destruir”.

    Escusado será dizer que tal afirmação é completamente falsa. No exempolo dado, Rand defende essencialmente dois aspectos:

    1. NINGUÉM tem o direito de se APROPRIAR PELA FORÇA dessa cura;
    2. Um objectivista jamais terá QUALQUER INTERESSE em destruir algo de tamanho valor.

  30. #14
    «Exemplo 3: Um tipo é atropelado e não tem dinheiro para as custas médicas. Deixa-se a morrer até que alguém, não se sabe quem, queira fazer a bondade de pagar o tratamento e não deixar o homem morrer.»

    Esse tipo era um EREMITA? O Nuno falou da diferença entre um eremita e um individualista e deixou a diferença clara. Será que esse tipo necessitado não representa nenhum valor na escala de nenhum ser humano?

    Alias, se vir alguém caido no chão, creio que o ajudará a levantar-se (tal como eu). Mas a questão aqui é outra: será que se for alguém a passar que não ligue nenhuma ao tipo caído o Luis Pedro Mateus se acha no direito de sacar da pistola e obrigar esse sujeito a ajudar o tipo caído? Eu não!!! Isto são valores MORAIS.

    #16
    Com tantas pessoas que votam nos partidos altruístas da esquerda, tenho a certeza que um fundo público c/contribuições voluntárias teria muito sucesso. C/esse fundo ajudava-se quem precisasse (como no exemplo que referiu).

    Ayn Rand escreveu e estabeleceu principios de tributação voluntária para as funções próprias do estado.

    #18
    Caro Nuno, que ninguém o obrigue a nada… Tenho pena que se sinta tão reprimido por contribuir para o SNS.. Que nunca caia na desgraça de algum dia não ter como pagar cuidados de saúde e ninguém o querer/poder ajudar, tendo de, vilmente, usar o dinheiro dos contribuintes para o SNS para se tratar.

    O problema é que se toda a gente pensasse como o Nuno, haviam pessoas a morrer aos magotes só porque ninguém mexia uma palha por algo que lhes é alheio.

    Ora, para mim a vida alheia não me é alheia. Muito menos o deve ser para um Estado.

    Exactamente a questão: VALORES MORAIS.

    Exemplo: se só tiver um bife, e encontrar uma criança, um cão e um sem abrigo a morrer de fome, a quem dá de comer? A todos? Claro que não. TODOS ESTABELECEMOS UMA ESCALA DE VALORES.

    Ao estabelecermos essa escala de valores, estamos a exercer uma escolha moral.

    Curiosamente, a via do socialismo/colectivismo é uma via política que poderia dispensar por completo o uso do estado: bastava que fossem os partidos socialistas/colectivistas e os seus militantes a contribuirem e estabelecerem a acção social entre si, e deixarem os outros em paz.

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