O “novo” Público

Ouvi há pouco, na TSF, a entrevista de Bárbara Reis, nova directora do Público, a Carlos Vaz Marques. Ouvi, e fiquei preocupado. Diz Bárbara Reis (repetindo o que fora escrito no seu editorial) que o Público tinha tido até aqui um “excesso de carga ideológica”: ou seja, o facto de haver, na redacção do jornal, uma pessoa que gostava de George W. Bush e apoiara a guerra do Iraque é sinal de um excesso de carga ideológica no jornal (presumo que Reis não se estivesse a referir a São José Almeida ou a Teresa de Sousa, exemplos de isenção e neutralidade).

O que me preocupa não é, ao contrário do que se possa pensar, que o “novo” Público se torne um jornal “de esquerda”. O “velho” já o era, e eu continuava a lê-lo. O que me preocupa é uma aparente maior “moleza” perante o regime. Preocupa-me que a retirada de “carga ideológica” acabe por se traduzir em falta de vigilância à podridão que vem de S. Bento. Dirá o leitor que, se isso acontecer, eu tenho bom remédio: deixar de ler o Público. Mas o problema está em que esta não é uma mera questão de gostar ou não do Público. Está em que o Público tem sido, até aqui, o único a não ter medo de investigar as dúvidas em torno da pessoa e do passado do Primeiro-Ministro, o único a pôr em causa a propaganda oficial e a não ir atrás dos “abrantes”. Uma transformação do Público em Diário de Notícias B não seria apenas uma má notícia para os leitores do Público, mas um problema para o país.

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5 thoughts on “O “novo” Público

  1. Cirilo Marinho

    Concordo em pleno com a interpretação e, já agora, com as preocupações também.

    Só consigo imaginar que a sonae quer mesmo acabar com o jornal.

    Não sei qual será o maior dos problemas para o país.

  2. Concordo com tudo o que disse. Seja como for, sabemos que toda a comunicação social tem de alguma forma uma determinada carga ideologica, e isso é mau, não pode ser combatido, mas é mau. Se um homem pensa faz escolhas e se as faz toma decisões, até os jornalistas são humanos… O Publico sempre foi um grande jornal e vai continuar a ser. Os politicos sempre manobraram a comunicação social, e infelizmente…vão continuar. Abraço

  3. José Barros

    Não há volta a dar, já aconteceu. O Público faz hoje parte do jornalismo oficioso. Idealmente esperar-se-ia que o mercado funcionasse e que aparecesse um outro jornal, dos já existentes ou de outros que venham a ser criados, que fizesse o trabalho básico de jornalismo que os outros se recusam a fazer.

    Não tenho grandes esperanças que isso aconteça no imediato, sobretudo, que aconteça em resultado de um exame de consciência de tais órgãos de informação.

    Mais provável é que o governo caia por si e que os jornais se tendam a afastar de Sócrates e do PS à medida que a derrota do governo se torne inevitável.

  4. António Carlos

    Caro Bruno Alves,
    não se preocupe que é só o mercado a funcionar. Escrutinar o poder é mau para o negócio logo a lógica de mercado dita que essa perspectiva seja abandonada e que os jornais “produzam” para a maioria.
    Deixe o mercado funcionar.

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