Eu poupo, tu poupas, ele gasta

Parece que o dia 31 de Outubro é o dia mundial da poupança (algo que me passou completamente ao lado devido ao desprezo, cada vez maior, pela comunicação social)  e  alguém no INE veio dizer que os portugueses andavam a poupar mais e que usavam o dinheiro que sobrava das prestações mais baixas dos empréstimos habitação para poupar em vez de consumir.

Obviamente fui tentar descobrir mais sobre esta poupança tresloucada dos meus compatriotas no site do INE mas não encontrei a press release que pensava existir. Não se perdeu tudo porque entretanto encontrei um quadro bastante interessante (pena acabar em 2006) sobre a poupança líquida dos vários sectores nacionais e podemos ver que o “cidadão comum” sempre poupou visto que são as famílias as únicas consistentemente a poupar. Até haveria anos em que o saldo nacional seria positivo não fosse uma coisa chamada “administração publica”.

Os portugueses já perceberam que se “esticaram” e que a dívida é para ser paga o mais rapidamente possível para voltarmos a respirar livremente. Todos os dias esforçam-se e consomem menos para acelerar este processo de cura… depois vem alguém por trás e endivida-se por eles.

Publicado também no Inflaccionista.

30 pensamentos sobre “Eu poupo, tu poupas, ele gasta

  1. Rxc

    E continua-se a taxar a 20% os juros de depósitos a prazo, enquanto que outras aplicações, de maior risco, são olhadas de forma mais benevolente pelo voraz Estado, que tão bem serve o interesse comum (aos que o gerem, claro…)

  2. “continua-se a taxar a 20% os juros de depósitos a prazo, enquanto que outras aplicações, de maior risco, são olhadas de forma mais benevolente pelo voraz Estado”

    Eu diria que um Estado liberal deveria taxar da mesma forma (isto é, à mesma taxa) todas as aplicações financeiras e, em geral, todas as formas de ganhar dinheiro.

    Por sinal, 20% parece-me uma taxa muito próxima da ideal.

  3. JoãoMiranda

    ««E continua-se a taxar a 20% os juros de depósitos a prazo, enquanto que outras aplicações, de maior risco, são olhadas de forma mais benevolente pelo voraz Estado»»

    Portanto, na sua opinião a taxa a aplicar a um negócio sem risco deve ser a mesma que a a aplicar a um negócio com risco. Já lhe passou pela cabeça que um negócio com risco tem, frequentemente, menos valias, pelo que a taxa real é bastante superior à real.

    Um exemplo: quando a taxa é de 10% e não é permitida a consolidação de ganhos e perdas, um pequeno investidor que ganhe, em trades de curto prazo, 5000 euros num ano e perca 5000 euros no seguinte paga 500 euros de impostos apesar de o ganho líquido antes de impostos ser nulo e depois de impostos ser negativo.

  4. “Portanto, na sua opinião a taxa a aplicar a um negócio sem risco deve ser a mesma que a a aplicar a um negócio com risco. Já lhe passou pela cabeça que um negócio com risco tem, frequentemente, menos valias, pelo que a taxa real é bastante superior à real.”

    Já lhe passou pela cabeça que se ninguém poupar não há capital disponível para quem quer ir à banca e montar uma empresa para “correr riscos” ?

  5. António Costa

    Caro Nuno Branco,
    assume a quota-parte de responsabilidade do Diário Económico na necessidade de divulgação do dia mundial da poupança, mas não resito a recordar-lhe que o jornal fez uma edição especial no sábado – aliás patrocinada por um conjunto de empresas e que permitiu o ‘início’ de uma poupança. E um suplemento especial de 40 páginas sobre pouopança.
    Os melhores cumprimentos
    António Costa
    Director do Diário Económico

  6. João Miranda,

    quase todos os negócios têm risco, e quase todos os negócios têm ocasionalmente perdas.

    Um agricultor que cultiva batatas pode num ano ter lucro, e paga imposto. No ano seguinte o tempo é desfavorável, as batatas apodrecem o agricultor não tem lucro, não paga imposto. A taxa de imposto pago pelo agricultor deve ser a mesma que a paga pelo industrial que produz parafusos, ou pelo trabalhador que vende o seu trabalho. O industrial também pode num ano vender montes de parafusos, no ano seguinte só ter custos fixos e não vender nada. O trabalhador pode num ano ter muito trabalho, no ano seguinte ficar desempregado. Todas essas formas de ganhar a vida têm risco.

  7. «Um agricultor que cultiva batatas pode num ano ter lucro, e paga imposto. No ano seguinte o tempo é desfavorável, as batatas apodrecem o agricultor não tem lucro, não paga imposto.»

    As empresas, incluindo empresários em nome individual, podem transitar prejuízos ao longo de alguns anos por forma a obter créditos fiscais em anos que tenham lucro. Um investidor individual não pode fazer o mesmo com as menos valias.

  8. Um investidor em actividades de economia real, agricultura, indústria ou comércio, tem um efeito multiplicador e gera postos de trabalho.
    Portanto, em ano de prejuízo continua a pagar impostos na forma de taxas autónomas de IRC, de IVA, de IRS dos empregados, de TSU, de derrama, etc., etc.,…
    Um investidor meramente financeiro, só pode existir se existirem investidores de economia real.
    O contrário é discutível.
    Ainda pode ser que venha a ser inventada uma nova forma de pagar pelo pão, mas terá de haver sempre um agricultor, um moleiro, um padeiro e uma padaria.
    Pelo menos, eu vejo por aqui muitos a discutirem o padrão ouro, ou o dólar, ou o euro, mas não ainda não vi nenhuma discussão sobre o fabrico alternativo do papo-seco.
    Decididamente nunca me considerarei um liberal económico, se para isso, tiver de aceitar que os fluxos financeiros têm a mesma dignidade e utilidade que os fluxos económicos.
    .
    .

  9. “tiver de aceitar que os fluxos financeiros têm a mesma dignidade e utilidade que os fluxos económicos”

    Os últimos só ocorrem ocorrem como consequência dos primeiros.

  10. “Os últimos só ocorrem ocorrem como consequência dos primeiros.”

    Exactamente. E a distorção que ocorre nesta relação é introduzida, só e apenas, pela criação de moeda a partir do nada e ao gosto do freguês.

  11. JoãoMiranda

    ««Um investidor financeiro é um especulador, deve ser taxado como se tivesse jogado no casino.»»

    Qualquer empresário é um especulador.

  12. “Os últimos só ocorrem como consequência dos primeiros.”

    Evidentemente.
    Mas é possível imaginar um Mundo em que o padeiro troque pão por sapatos, que o sapateiro troque sapatos por pratos, e que o oleiro troque pratos por pão.
    O que quer dizer, que é possível imaginar um mundo sem ministros das finanças, bancos centrais e bolsas, mas não sem Padeiros, Sapateiros e Oleiros.
    Os fluxos financeiros e quem ganha a vida com isso, são como as velocidades numa bicicleta, só facilitam o andamento se não avariarem, não atrapalharem e não exagerarem.
    Mas o andamento é sempre mérito do ciclista, das rodas e dos pedais.
    .

  13. “é possível imaginar um mundo sem ministros das finanças, bancos centrais e bolsas”

    O ministro das finanças faz pouca falta, mas o da economia ainda menos.
    O BCE foi a melhor coisa uqe aconteceu a Portugal nos últimos 50 anos. Porque a alternativa é o controlo da emissão da moeda pelos políticos e não as utopias ronpaulianas que o pessoal aqui adora…
    Qaunto às bolsas basta comparar o nível de vida dos países que as têm com os que as não têm.

    “mas não sem Padeiros, Sapateiros e Oleiros.”

    Oleiros? Onde?
    Sapateiros? Para consertar os sapatos da Zara?
    Padeiros? Cada vez menos.
    E os Agricultores, pá!? Sem esses é que a gente não consegue viver de certeza. Por isso é que são cada vez mais…

    “é possível imaginar um Mundo em que o padeiro troque pão por sapatos, que o sapateiro troque sapatos por pratos, e que o oleiro troque pratos por pão”

    Não é preciso imaginar, basta ir a Cuba ou qq dos outros paraísos socialistas que ainda resistem.

    “Os fluxos financeiros e quem ganha a vida com isso”
    Cabrões dos parasitas, pá. Pegassem mas era numa enxada, pá!

    “o andamento é sempre mérito do ciclista, das rodas e dos pedais”
    Depende essencialmente da bicicleta. E daqueles cones que eles põem na cabeça.

  14. Rxc

    Caro João Miranda, devo estar enganado, é que pensava que a formação de capital “saudável” deveria ser feita a partir das poupanças dos cidadãos, e que por isso deveríamos proteger (ou pelo menos não penalizar) os depositantes, em detrimento dos especuladores (“tails I win, heads you lose”). Ando a ver Peter Schiff e Ron Paul a mais, pelos vistos…

  15. Caro Rxc,

    Acho que está a misturar duas coisas: uma coisa é dizer que um sistema bancário “saudável” deve depender em larga margem das poupanças das pessoas, outra é dizer que a formação de capital sustentada pelas poupanças deve ser premiada em relação à dos especuladores/investidores.

    São coisas inteiramente diferentes. Uma coisa é criticar a solidez monetária e o sistema bancário, e dizer que estes devem ter uma forte componente alicerçado nas poupanças. Outra é dizer que só as poupanças são economia “saudável”, quando o papel dos especuladores/investidores continua a existir e é valioso, papel esse que é principalmente o de favorecer melhorias generalizadas de produtividade e o aparecimento de novos produtos e serviços que permitam valorizar o capital e a qualidade de vida das pessoas.

    Não basta ter “capital sólido”. É preciso ter uma economia e um mercado dinâmicos para o valorizar.

  16. lucklucky

    “O BCE foi a melhor coisa uqe aconteceu a Portugal nos últimos 50 anos. Porque a alternativa é o controlo da emissão da moeda pelos políticos e não as utopias ronpaulianas que o pessoal aqui adora…”

    O BCE foi a pior coisa que aconteceu a Portugal. Porque os políticos ainda se tornaram mais irresponsáveis, e o povo incapaz de corrigir os erros após pequenas crises, aliás, nem se apercebe do que se passa. Teremos a grande crise, o mesmo vírus mas mais mortífero porque estivemos protegidos pela a incubadora.

  17. Pingback: A herança do engenheiro « O Insurgente

  18. “O BCE foi a pior coisa que aconteceu a Portugal. Porque os políticos ainda se tornaram mais irresponsáveis”

    Andam a imprimir dinheiro para pagar o TGV? Ao menos isso não podem fazer.

  19. Já agora e porque desde ontem à noite quando este tópico tinha apenas 10 comentários que não o lia surgiram-me algumas duvidas sobre os comentários de algumas pessoas. Diria que a mais pertinente de todas é simplesmente porque é que um tipo que vai ao casino e teve a sorte de naquele dia bater a casa tem que pagar imposto?

    Quanto aos utopianismos Ron Paulianos eu confesso que fui ver o dicionário:
    Utopia: Sistema ou plano que parece irrealizável.

    Ora visto que há países considerados que conseguiram a grande proeza de viver séculos sem um banco central (mesmo com sistemas de reserva fraccional) parece-me que há aqui um largo exagero, um desconhecimento de história ou até má fé para desinformar as pessoas.

  20. “há países considerados que conseguiram a grande proeza de viver séculos sem um banco central (mesmo com sistemas de reserva fraccional)”

    E sem computadores, papel higiénico, aspirina, etc. Assim se prova que são criações indesejáveis da civilização moderna.

    “parece-me que há aqui um largo exagero, um desconhecimento de história ou até má fé para desinformar as pessoas.”

    Bah, para ouvir bocas destas vou ao arrastão. Passem bem.

  21. “E sem computadores, papel higiénico, aspirina, etc. Assim se prova que são criações indesejáveis da civilização moderna.”

    Sim, os EUA até 1913 eram a vergonha do mundo desenvolvido. Felizmente que conseguiram descobrir a FED a tempo.

  22. “O ponto é que não demonstra nem deixa de demonstrar.”

    A força do argumento comoveu-me. Fiquei sem perceber se simplesmente não entende a lógica por detrás do que eu disse ou se simplesmente quer mandar tiros para o ar.

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