Salazar e o Estado Novo

Entrevista com Filipe Ribeiro de Meneses autor de “Salazar – A Political Biography”.

[Há] necessidade de separar Salazar, enquanto homem de Estado e pensador, do Estado Novo. Muitas vezes falamos de salazarismo (um termo que ele abominava) e Estado Novo como sendo a mesma coisa: mas o Estado Novo nunca cessou de evoluir, enquanto as ideias de Salazar foram sempre mais ou menos as mesmas. O regime nos anos 50 e 60 era muito diferente do que tinha sido nos anos 30, e sugiro que não devemos cair na tentação de ver no Estado Novo dos anos 30 a verdadeira face do salazarismo. A sua principal prioridade era manter-se no poder; para o fazer precisava de pactuar com uma série de forças nacionais e internacionais. Conseguiu sempre impedir a instalação permanente de qualquer facção no poder, porque precisava de ambiguidade para ter espaço de manobra. Tinha muitas maneiras de fazer asfixiar as iniciativas de que desconfiava, mas que pela força dos seus apoiantes era obrigado a aceitar.

Este facto traz-me à segunda grande surpresa: o sentimento de fraqueza muitas vezes manifestado por Salazar e aqueles que o cercavam. A lista de inimigos, rivais e potenciais traidores era enorme, mas Salazar não podia lidar com eles como fizera Franco, fuzilando-os. Salvo algumas excepções que não cabiam dentro do regime, era preciso ouvir, negociar e pactuar constantemente e, sobretudo, manter a ambiguidade dominante em torno das grandes questões. República ou monarquia? O que fazer com a Assembleia Nacional? O que era, afinal de contas, o corporativismo português? O melhor era não dizer nada de concreto, para não hostilizar ninguém.(…)

[N]ão devemos privilegiar uma época do Estado Novo e ver nela o “verdadeiro” Salazar, ou a aplicação sem restrições das suas ideias. Os anos 50, com os planos económicos e a internacionalização da economia europeia, são tão dignos de registo como os anos 30, marcados pela criação do Estado corporativo e pelo estabelecimento de organizações tais como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa. Foi nesta capacidade de evolução do regime – fruto da enorme ambiguidade sobre questões essenciais que alimentou ao longo dos anos – que residiu o segredo da longevidade de Salazar. Teria sido impossível ao Estado Novo sobreviver nos anos 50 e 60 se mantivesse a fachada e as práticas dos anos 30.

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