Artigo de Fernando Gabriel na Autohoje
Quando vejo os produtos dotados de ‘inteligência artificial’, tendo a reparar mais na sua esperteza do que na inteligência. Em geral, são economizadores de tempo e de esforço, mas o preço não é a única contrapartida: a simplificação vem normalmente associada à cedência de informação na utilização, informação cujo acesso por terceiros diminui a privacidade e autonomia individuais. Essa é a componente de esperteza. O Estado já percebeu o potencial de controlo proporcionado pelas tecnologias ‘inteligentes’ e a concomitante facilidade com que elas são aceites por consumidores deslumbrados, ou simplesmente inconscientes do valor político da privacidade. O mais recente esforço legislativo nesta matéria pretende tornar os carros dos portugueses ‘inteligentes’, incorporando-lhes um dispositivo electrónico na matrícula: o ‘chip’.
O ‘chip’ aparece modesto nos propósitos legais, sendo a concretização da sua utilização na cobrança electrónica de portagens remetida para portarias futuras –tal como a salvaguarda efectiva da privacidade, note-se. O legislador justifica-o pela intensa preocupação que sente com o ‘congestionamento’ das praças de portagem. É um propósito acanhado, mas no dia em que dirigir a sua inquietude para uma finalidade de grandeza condigna, como o problema do ‘congestionamento’ e da poluição urbana, o ‘chip’ estará à distância de uma singela portaria: é na cobrança de futuras portagens urbanas que se revela a sua utilidade –e esperteza.
Se o Estado estivesse preocupado com a perda de bem estar decorrente dos diversos ‘congestionamentos’, então a política mais adequada seria a liberalização dos arrendamentos urbanos, incentivando o investimento privado na reabilitação das cidades e a mudança da periferia para o centro, o que economizaria enormes quantidades de tempo e de combustíveis. Infelizmente isso não gerava as receitas da cobrança de portagens possibilitadas pelo ‘chip’, que tem ainda a esperteza adicional de maximizar o efeito de anestesia fiscal, ao tornar o acto de pagamento praticamente imperceptível e ao permitir que tal seja justificado pela necessidade de eficácia na cobrança.
Mansamente, foi aberta a porta a futuras espertezas artificiais: porquê ficar pelas matrículas? O historiador Martin van Creveld propôs uma antevisão de um futuro onde o ‘chip’ é introduzido nos seres humanos à nascença, lendo os níveis hormonais e enviando a informação a uma central onde é processada e decidida a injecção doseada de ‘antídotos’ químicos para impulsos violentos, ou para prevenir a pedofilia e outros crimes. Impossível? A tecnologia e os medicamentos já existem. A única garantia que não serão associados é a ausência de vontade do legislador, cujo desejo de poder e controlo não deve ser subestimado. Adequadamente propostas, as novidades de inteligência artificial serão gradualmente aceites e abraçadas como ‘progresso’: eis a sua maior esperteza e o seu maior perigo.
Excelente texto.
Sem dúvida a tecnologia e a “simplificação” (administrativa, fiscal,etc) são uma das portas da contínua escalada do Estado Moderno para se tornar absoluto e em especial com controlo absoluto do indivíduo. Repare-se que a força do Estado era antes exercido sobre as comunidades administrativas num seu todo ou sobre a familía representada pelos pais, agora exerce-se sobreo o próprio indivíduo como tal.
É o Estado Moderno que cria uma relação total de Estado-Indivíduo, sendo este cada vez mais “livre” das suas relações com os outros (família, comunidade, instituições civis) . É ao Estado que o indivíduo tudo deve e a quem tudo pede. A tecnologia vai permitir que isso levado a um novo expoente já visionado por autores de ficção cientifica há muito tempo.
o Individualismo absoluto é criação do Estado moderno (incluindo o Estado-Social).
Muitos aplaudirão tal medida. Grande parte das pessoas perdeu a capacidade de pensar o mundo de maneira política e passou a ver tudo pelo prisma da tecnologia e da economia.
E os mais jovens, educados no mundo maravilhoso do magalhães e das máquinas de calcular, são os mais imbecilizados.
Se nada for feito, o admirável mundo novo, em combinação com 1984, virá. É só uma questão de tempo.
Não quisemos o Hitler porque era fascista, agora teremos um Hitler com vaselina que também é fascista mas dói muito menos, pelo menos de entrada…