2013

Mais do que em relação aos resultados de ontem das Autárquicas, em que grande parte dos municípios (numa percentagem que julgo saber foi bem superior a 80%) reconduziu os seus presidentes de câmara, tenho grande curiosidade em ver o que irão ser as eleições daqui a 4 anos. Nessas eleições vamos assistir a uma conjugação de vários factores inusitados que poderão, julgo eu, afectar de forma muito significativa e interessante essas eleições.

Em primeiro lugar, por consequência da lei que limita os mandatos consecutivos, vamos assistir à saída dos municípios quer de vários dinossauros autárquicos que ocupam esse cargo há décadas, quer daquelas figuras mais carismáticas que presidem a municípios da maior relevância há pelo menos (nessa altura) 12 anos. Rui Rio, Mesquita Machado, Luís Filipe Menezes, Carlos Encarnação, Valentim Loureiro, Isaltino Morais, António Capucho, Fernando Seara, Marília Emília Sousa, Fernando Ruas, são alguns dos nomes que de momento me ocorrem de autarcas nessa iminência.

Ora, a menos que surjam e/ou que se sedimentem nos quatro anos que se seguem figuras igualmente carismáticas que tenham a possibilidade de fixar os seus eleitorados, oriundas da “sociedade civil”, das veriações agora eleitas ou das estruturas locais dos partidos (lembro-me, por exemplo, de Marco António Costa em Gaia), que tenham nestes quatro anos que se aproximam a capacidade de se afirmarem, vamos assistir à constituição de um problema sério para os directórios partidários resolverem, particularmente o PSD que pode perder vários dos seus candidatos paradigmáticos.

Posto este cenário, existem poucas possibilidades em cima da mesa: ou alguns desses candidatos se deslocam e concorrem noutras autarquias (talvez um dos melhores colocados seja Meneses no Porto), com riscos pessoais consideráveis e com dificuldades acrescidas (longe dos eleitorados que semearam ao longo de tantos anos e apoiados por estruturas locais partidárias que lhes são em grande parte alheias), numa estratégia de pegar de estaca com riscos elevados, ou então têm mesmo que forçar o avançar de novas figuras locais, não testadas e com poucas possibilidades de capitalizar ganhos antigos.

Outro dos problemas vai ser a própria reorganização dos eleitorados. Com a mudança esperada nos próximos anos do recenseamento, de forma automática, por via da substituição da totalidade dos bilhetes de identidade por cartões do cidadão, vamos assistir a uma deslocação de inúmeros votos para novas freguesias, muitas vezes de concelhos e distritos diferentes, que vão alterar presumo que significativamente o próprio panorama eleitoral. Vão-se perder votos com fidelidades partidárias em sítios em que fariam a diferença, assim como vamos ter pessoas que poderiam passar a votar em candidatos que lhes são mais próximos, por terem maior presença no dia-a-dia, mas que por força do efeito anterior se vão encontrar numa situação de quase orfandade eleitoral. Consequência, quanto a mim, espectável? Uma significativa aproximação da distribuição nacional de votos nas Autárquicas com a distribuição nas Legislativas.

É de prever, na minha opinião, uma verdadeira viragem do ciclo iniciado desde que existem candidatura autárquicas. Uma possibilidade ímpar de ver despontar novas figuras no panorama político nacional, uma alteração substancial do panorama político autárquico e, eventualmente, também de se limpar muitos dos seus vícios.

Daqui a quatro anos veremos.

7 pensamentos sobre “2013

  1. Bom post, João. 2013 será realmente um ano curioso – mais ainda se o actual Governo se aguentar até lá.

    O que eu continuo a não compreender é o problema do cartão do cidadão. Como é que o recenseamento é feito automaticamente… noutra freguesia? Ou quando se faz o cartão, o sistema informático considera outros factores (e se sim, quais?)?

  2. Até agora o recenseamento era um processo separado da identificação civil. A menos que houvesse iniciativa nesse sentido, uma vez uma pessoa recenseada num sítio, podia sê-lo permanentemente. O que acontecia é que tipicamente as pessoas recenseavam-se no sítio onde cresciam, e mesmo quando se mudavam para ir estudar e posteriormente trabalhar, mantinham esse recenseamento original.

    Agora, o recenseamento é actualizado automaticamente para a freguesia do domicílio que conta da identificação. Uma vez que a generalidade das pessoas actualizam essa morada para a sua morada efectiva, o recenseamento está condenado a mudar.

  3. Podemos assistir a uma chuva de coligações e ao reforço da bipolarização ou a uma fragmentação eleitoral, com CDS e Bloco (a CDU é uma força autárquica forte, mesmo quando perde, nas suas zonas de influência) a ganharem peso de vereação e a favorecerem maiorias.

  4. Pingback: Sobre a regionalização « O Insurgente

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