Lisboa: pequenos arranjos e desregulamentação

No que diz respeito ao seu planeamento, Lisboa precisa de poucas coisas. Medidas cirúrgicas. Árvores nos passeios e passeios direitos, sem buracos, nem carros. De menos carros (é verdade que os transportes públicos não são uma maravilha, mas o culto do automóvel em Portugal é, para não dizer pior, idiota). São precisos mais jardins, jardins para as pessoas, e não ‘espaços verdes’ fechados em gaiolas com medo que alguém os estrague. Neste campo, um presidente não precisa de ser ganancioso. Apenas comedido. Ambiciosamente comedido.

Mas há áreas onde ele poderá azo à sua imaginação e sonho de glória. Na desburocratização camarária. Na desregulamentação dos serviços sitiados no Campo Grande. Lisboa precisa de esplanadas; esplanadas grandes, nas grandes praças, mas também daquelas pequenas, com três ou quatro mesas que, em qualquer cidade, nascem que nem cogumelos em qualquer lugar: na esquina da rua, num passeio estreito, nas traseiras de um prédio. Tem de passar a ser fácil abrir restaurantes, cafés, pastelarias, lojas, quiosques. Tem de ser fácil licenciar obras em casa, nos prédios, requerer o arranjo de passeios, de bancos, a substituição de árvores partidas e mortas. Ou seja, um autarca lisboeta deve descentralizar os serviços. Atribuir mais competências às freguesias e mais responsabilidade aos cidadãos, permitindo que estes tratem de certas zonas da cidade, próximas das suas casas. Um autarca de Lisboa deve querer ser responsabilizado de forma devida. Assim, poderá exigir ao governo central, mais poderes no lançamento, liquidação e cobrança dos impostos municipais, pois só assim, se sentirá obrigado a apresentar orçamentos equilibrados. Um presidente ambicioso quer ter mais escolas municipais, polícia municipal com mais poderes e mais atribuições e uma política de apoio aos que necessitam mais descentralizada.

Um presidente ambicioso não abre buracos, nem faz muitas obras. Mexe em papéis e negoceia com os poderes. Procura equilíbrios e assume compromissos.

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16 thoughts on “Lisboa: pequenos arranjos e desregulamentação

  1. lucklucky

    “mas o culto do automóvel em Portugal é, para não dizer pior, idiota”

    Não e não, é das poucas Liberdades que os Portugueses têm.

    Cidade que não favorece a mobilidade é uma cidade morta.

  2. Luís Serpa

    O culto do automóvel em Portugal não é fundamentalmente diferente do culto em qualquer outro país onde o automóvel seja uma novidade. Ou a sua democratização, se preferir. Por isso vai ser difícil convencer as pessoas de que horas numa bicha de trânsito não são uma melhoria da qualidade de vida: para a maioria delas é.

    Isto dito, revejo-me inteiramente neste “programa”. Esperemos que o PS perca as eleições.

  3. “Lisboa precisa de esplanadas grandes, nas grandes praças”

    Isso em Portugal em geral e em Lisboa em particular é inviável, devido ao muito sol. A não ser que se cubram as “grandes praças” de árvores, ninguém ques estar nelas sentado à torreira do sol.

    Lisboa não é Bruxelas nem Londres. Esplanadas em Lisboa, só se forem cobertas.

  4. “Atribuir responsabilidade aos cidadãos, permitindo que estes tratem de certas zonas da cidade, próximas das suas casas”

    Isso é uma ideia muito romântica. Tratar da cidade para quê, se depois há outras pessoas que a estragam? A cidade não é uma aldeia, nem mesmo um bairro, onde se possa facilmente controlar quem estraga, quem caga nos passeios, quem suja, quem escreve grafitis, etc. Por isso, tratar de espaços é a modos que um disparate.

  5. “Um presidente ambicioso quer ter polícia municipal com mais poderes e mais atribuições”

    Eu acho isso muito perigoso. Uma polícia na dependência pessoal de um presidente de Câmara? Isso é um perigo enorme. Para o presidente da Câmara colocar boys e girls com uma pistola ao cinto, a impôr a sua vontade pela cidade afora? Que desgraça.

  6. Luís Serpa

    Caro Luís Lavoura,

    Os seus comentários parecem muito bem fundamentados, mas dão a impressão de que nunca andou por essa cidade fora, e menos ainda por esse mundo.

    Pequenas esplanadas já as há – são é poucas, não por causa do sol, mas por causa da burocracia. Exceptuando as ruas no sentido leste-oeste, todos os passeios têm períodos de sol e de sombra (vá a Salvador, por exemplo, ver a quantidade de esplanadas que há em qualquer canto, e fale-me da “torreira do sol” depois, está bem?)

    Quanto aos polícias municipais, o descalabro que foi a política de António Costa relativamente ao estacionamento selvagem e a explicação que para isso ele deu falam por si, creio.

    Já quanto às políticas de vizinhança creio que há pontos que se podem discutir.

    Cordialmente,

    Luís Serpa

  7. Maria João Marques

    ” menos calçada à portuguesa que é um inferno para os saltos dos sapatos das senhoras.”-também voto nisto!

    Luís Lavoura, Londres é de facto uma cidade ideal para esplanadas , tendo em conta a quantidade de chuva. E deve ser também pela ausência de sol que existem imensas esplanadas em Itália, de norte a sul, em Espanha, na Grécia e restantes países do Norte da Europa.

  8. «Isso em Portugal em geral e em Lisboa em particular é inviável, devido ao muito sol. A não ser que se cubram as “grandes praças” de árvores, ninguém ques estar nelas sentado à torreira do sol.

    Lisboa não é Bruxelas nem Londres. Esplanadas em Lisboa, só se forem cobertas.»

    Não me lembro de árvores na Plaza Mayor de Madrid, sabe? Nem junto à Puerta del Sol. Ou no Barrio Santa Cruz em Sevilha. Já agora, onde é que há esplanadas em Londres?

  9. Luís

    Em relação aos parques públicos estou perfeitamente de acordo. Nós não precisamos de mais jardinzecos minúsculos para inglês ver que têm custos de manutenção elevados. Precisamos sim de grandes áreas verdes com árvores autócnes (carvalho-roble, carvalho-negral, carvalho-de-monchique, castanheiro, etc) ao estilo de Hyde Park (por exemplo), onde as pessoas possam correr, as crianças brincar, os jovens conviver à hora do almoço… No que concerne ao trânsito e á utilização abusiva e idiota do carro, também concordo. Quem conhece a Europa Média sabe do que falo. Mas falta uma coisa. Um candidato a Lisboa deve defender uma reforma do mapa do poder local, ampliando o concelho e reduzindo o número de freguesias. Santana Lopes fala na nova freguesia do Parque das Nações, mas devia ir muito mais longe nesta matéria.

  10. Luís,

    “árvores autócnes (carvalho-roble, carvalho-negral, carvalho-de-monchique, castanheiro, etc)”

    eu não sou um especialista na matéria, mas creio que nenhuma dessas árvores autótones é… autótone da região de Lisboa. Na região de Lisboa é mais carvalhos cerquinhos, sobreiros e pinheiros mansos. Corrijam-me se estiver errado.

  11. Cirilo Marinho

    E em Londres? Quais são as árvores autóctones de Londres?

    Dizem que dava jeito, parece que por causa do sol.

  12. Luís

    Caro Luís Lavoura, as árvores autócnes da região de Lisboa serão o carvalho cerquinho, o pinheiro-manso e o sobreiro. Quando mencionei as outras árvores pensava no país de uma forma geral e não apenas em Lisboa. Tem razão, devia ter sido cientificamente mais correcto ou mais explícito. Mais, uma nota: eventualmente, o carvalho-negral surgiria na serra de Sintra, mas tal já é difícil de apurar.

    Caro Cirilo Marinho, em Londres abundam muito os carvalhos-robles. Esta espécie, também conhecida como carvalho-inglês ou carvalho-alvarinho, seria autócne de várias regiões do Norte e Centrode Portugal, especialmente do Minho, Douro Litoral, Beira Litoral Norte, Cordilheira Central e Terra Fria Transmontana, e está presente em quase toda a Europa Média. Esta árvores pode ser vista em várias daquelas pequenas «squares» quadradas que abundam pela cidade, ou então nos parques de maiores dimensões. Também há faias, por exemplo, outra folhosa que ocorre na Ibéria Atlântica (e em Portugal no Gerês). Platános não me recordo, não vou à cidade desde 2005. E em Londres, apesar de terem «pouco sol», há muitas árvores.

  13. JP Ribeiro

    Lisboa tem mais de 10.000 funcionários camarários. Mais do que Roma. Desse escândalo ninguem fala.

  14. Eu gosto de esplanadas sem árvores e com muito sol, quanto mais, melhor. Parece que os proprietários não esperam por uma lei que os obrigue a ter guarda-sóis nas esplanadas.

  15. Luís

    «Luís Lavoura, Londres é de facto uma cidade ideal para esplanadas , tendo em conta a quantidade de chuva. E deve ser também pela ausência de sol que existem imensas esplanadas em Itália, de norte a sul, em Espanha, na Grécia e restantes países do Norte da Europa.»

    A título de curiosidade, em Lisboa a quantidade de chuva que cai num ano, em média, é bem superior à de Londres. Atendendo à normal climatológica 1961-1990, em Lisboa a precipitação média anual foi de cerca de 750 mm, ao passo que a de Londres foi de cerca de 650 mm. Já na normal climatológica 1971-2000, em Lisboa tivemos em média 720 mm por ano, e em Londres 590 mm. A diferença reside na distribuição da chuva ao longo do ano. Lisboa tem a precipitação maioritariamente concentrada entre Outubro e Abril, tendo um número de dias com chuva por ano inferior ao de Londres. Em Lisboa, a chuva tende a ter um carácter torrencial, podendo em poucas horas chover tanto como num mês inteiro em Londres.

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