Não nos tomem por parvos, sff (parte 1)

É muito divertido (num registo agri-doce) ler e ouvir jornalistas e comentadores muito escandalizados com a manipulação política a que o Público se deixou submeter, neste caso das escutas, pelo facto de ter noticiado as desconfianças de Belém. Vamos deixar de lado a discussão sobre tal manipulação – que pressupõe que não haveria nenhum interesse na notícia, independentemente da fonte, o que se torna estranho depois de todos os órgãos de comunicação social terem ecoado a notícia do Público depois desta surgir – para nos debruçarmos neste escândalo de classe por um possível jornalismo engagé do Público.

Devem querer tentar uma encenação daquela série dos Monty Python das piadas que provocam a morte por riso, não querem? É que eu, para todo o lado que olhe, só vislumbro jornalismo politicamente conotado. E não é necessário ir para extremos do género da jornalista de causas Fernanda Câncio. Alguém no seu juízo não considera que em 2005 todos os media não fizeram activamente e deliberadamente campanha por José Sócrates contra Pedro Santana Lopes? Alguém considera jornalismo isento o tom meloso que o DN usa para noticiar algo relacionado com o governo e com o PS? Alguém duvida que a RTP, com a má vontade com que noticiou os casos Freeport ou da licenciatura de Sócrates ou os seus lindos projectos de casas beirãs, com os favores de debater os temas que interessam ao governo e nos timings que interessam ao governo no Prós e Contras, por exemplo, quer proteger o actual governo? Ninguém considera estranho, outro exemplo, que António Borges não seja mais convidado para programas televisivos a partir do momento em que se torna vice-presidente do PSD? Ninguém questiona a escolha de comentadores que pululam nas televisões, maioritariamente empenhados em nos explicar porque, apesar de tudo, José Sócrates é um bom governante? Ninguém vê uma estranha consistência entre as opiniões  que os jornalistas publicam nos seus blogues ou colunas de opinião e o teor das suas notícias (supostamente isentas)? Alguém tem dúvidas que a publicação dos e-mails do Público pelo DN, em cima das eleições, foi uma encomenda (usando o léxico do próprio DN) para beneficiar o governo, manchar o Presidente da República e influenciar a campanha eleitoral?

Se quiserem, escandalizem-se com a parcialidade alheia, ignorando valentemente o próprio enviesamento, mas façam-no com recato e longe dos olhos e ouvidos dos restantes cidadãos. O espectáculo da hipocrisia é indecoroso e nós temos a obrigação de exigir que nos poupem a tais indignidades.

4 pensamentos sobre “Não nos tomem por parvos, sff (parte 1)

  1. Lionheart

    Mas qual é o espanto com a hipocrisia dominante? Cavaco foi inapto e ingénuo. Pensou que podia fazer aos socialistas o que Soares lhe fez, mas esquece-se que o partido do regime tem muito mais força e já fez coisas bem piores, para ser apanhado de surpresa por um “aprendiz de feiticeiro”. Além disso, a comunicação social quase toda está às ordens do PS e não bufa. O PSD e Cavaco não têm “lobby” nos media para combater o PS no seu jogo, principalmente agora que a Moura Guedes e o seu jornal da TVI foram saneados. Quanto ao “Público”, com uma redacção quase 100% de esquerda como é que Cavaco e a sua “entourage” esperava fazer este número sem que o PS soubesse? Que tontice pegada.

  2. Manuel LRB

    O que me surprendeu neste caso não foi o “jornalismo políticamente conotado”, manipulado ou instrumentalizado.

    Este tipo de jornalismo ou melhor, jornalistas, é conhecido, até porque os próprios não escondem as suas preferências.

    O que me surprendeu foi a origem do caso ser a Presidência de República e a gestão que o Presidente fez da mesma, intervindo indirectamente na campanha, infelizmente com prejuízo para o partido que lhe é mais próximo.

  3. Lionheart, concordo.

    Manuel, os jornalistas não escondem as suas preferências, mas de seguida fazem notícias em que as prefeências não são reveladas e que são, supostamente, isentas e imparciais quando, no fundo, estão a fazer política.

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