“Iniciativas Pífias”

Vale a pena ler o editorial do Público de hoje. Este é um texto que, como lá se escreve, “será lido com mil lupas”.

Para além do muito que se escreverá sobre a execução sumária do assessor do PR, ou sobre as declarações de óbito de campanhas partidárias, temo que a questão que é aqui verdadeiramente importante acabe por ser asfixiada no meio da tempestade permanente em que a nossa democracia se vai tornando. E a questão é verdadeiramente importante porque envolve directamente o exercício da mais alta magistratura deste país. Se admitirmos os 3 “factos essenciais” apresentados naquele editorial como verdadeiros, então o melhor que podemos esperar é que tudo não tenha passado de uma enorme novela alimentada por um assessor. Nesse caso, a demissão é plenamente justificada, embora tardia, e carece de uma justificação plena por parte do próprio PR para que não subsistam dúvidas.

Este é o cenário feliz. O outro arrisca-se a não ter fim — ou, no pior dos cenários a arrastar a nossa democracia para o que um antigo PM já designou como um “pântano”. Não há justificação para a possibilidade de a Presidência ter estado sob escuta dos serviços de informação do Estado. Também não haverá justificação para que, existindo essa suspeita, e existindo ela há 17 meses, o PR não se tenha lembrado de nada melhor que promover uma denúncia à comunicação social. Se isso fosse verdade — possibilidade em que me recuso a acreditar — isso equivaleria à admissão por parte do PR de que as instituições do Estado não funcionam, ou que estão irremediavelmente comprometidas. Isso equivaleria à declaração de falência do Estado de Direito Democrático. Do qual, afinal, o PR é o responsável último.

9 pensamentos sobre ““Iniciativas Pífias”

  1. Visto de Fora

    Excelente texto !
    Escelente último parágrafo !
    Excelentes conclusões !
    Mas alguém duvidava da promiscuidade existente (invísível apenas para quem olha mas não quer ver) entre as duas maiorias partidárias que ocupam e partilham tudo, dentro e fora das instituições públicas, um lugar para ti, um lugar para mim, (e com isto não se pense que as minorias partidárias agissem de outro modo)..é assim a actuação politica em Portugal!

  2. “Se admitirmos os 3 factos apresentados naquele editorial como verdadeiros”

    Não podemos admitir tal coisa. Só quem é parvo é que pode acreditar no José Manuel Fernandes, um maoista treinado como editor do Luta Popular, no qual aprendeu a mentir. É repugnante que haja hoje pseudo-liberais que acreditam em gente que vem de tal escola.

  3. Cirilo Marinho

    Curiosamente, parece-me que esses factos fazem todo o sentido, e parece-me que são corroborados pelos conteúdos divulgados.

    Quanto à confiança, Luis, merece-me a mesma quer um ex-maoista quer um ex-bloquista, como é o teu caso.

    Já quanto à vergonha na cara, o JMF ainda parece revelar alguma.

  4. Visto de Fora

    O “Público” descobriu-me ou descobri-o eu nos tempos primordiais do Vicente J. Silva onde, sendo possível a minha ingenuidade, nunca detectei parcialidade na prestação da informação, tanto nas notícias propriamente ditas como na coluna editorial.

    Hoje o Público para mim, com o mesmo distancionamento mais profundo, revela permanentemsnte nas suas colunas editoriais (JMF)os seus odiozinhos e invejas.

    Lamento que muitos assim não pensem e assim abusem mas os jornalistas (com especial atenção para os responsáveis editoriais) devem nunca esquecer a responsabilização do seu código deontológico, e saber separar opiniões pessoais da prestação da notícia nua e crua.

    As colunas editoriais teem uma maior liberdade de opinião, mas não obstante essa opinião deve ser prestada com serenidade e ética, prática esta cada vez mais rara nas colunas de JMF.

    E falo do Público, porque é, ainda assim, pessoalmente o melhor jornal diário português e dou por mim, nos tempos que correm a vê-lo cometer os erros dos seus concorrentes e a primar, cada vez menos pela diferença!

  5. José Barros

    O Fernando Lima não foi demitido, foi afastado das funções que ocupava. Coisa muito diferente que supôe, não um juízo sobre quaisquer factos que tenha praticado, mas sobre as condições que o mesmo teria para continuar a desempenhar o mesmo papel. Por outras palavras, depois de ter sido nomeado pelo DN, não havia maneira de Lima continuar a ser o assessor para a comunicação social por não haver condições para tal. O que não significa que o PR tenha nele perdido confiança. Se assim fosse, ele não continuaria na presidência. Donde existe um patente aproveitamento do timing escolhido pelo PR (péssimo). Donde também o caso não estar encerrado e poder ter desenvolvimentos antes ou depois das eleições. Ora bem, declarações a poucos dias das eleições teriam uma leitura eleitoral que o PR dispensaria; depois das eleições correriam o risco de levar ao engano os portugueses que irão votar no domingo. O que é pior? Evidentemente, a segunda hipótese, porquanto ninguém quer acordar no dia 28 e saber que deu a vitória a um governo que espia a presidência. Por outro lado, a política da não intervenção é comboio que já passou. PR já interveio e num sentido que objectivamente só prejudica o maior partido da oposição.

    A última frase do editorial de JMF também é significativa. Lembro que o DN ou não tem provedor ou este não se pronuncia sobre os métodos do jornal, designadamente, sobre a divulgação ilícita de fontes alheias com recurso à violação de comunicações electrónicas de outro jornal.

    É por isso sinal da loucura em que o país vive que objecto de todas as críticas seja afinal um jornal que tem um provedor independente e particularmente crítico do mesmo, enquanto se silencia a gravidade dos métodos utilizados por um pasquim que nem provedor tem ou, se o tem, omite qualquer menção à forma como o seu jornal viola fontes alheias e divulga, sem autorização, as comunicações electrónicas de um outro jornal.

  6. “A última frase do editorial de JMF também é significativa. Lembro que o DN ou não tem provedor ou este não se pronuncia sobre os métodos do jornal, designadamente, sobre a divulgação ilícita de fontes alheias com recurso à violação de comunicações electrónicas de outro jornal”

    Tem. Chama-se Mário Betencourt Resendes e como dizia á prepósito o Luís M Jorge, é melhor esperarmos sentados.

  7. O José Manuel Fernandes “treinado como editor do Luta Popular?”…
    Se tudo o que o “ex-bloquista”(!?) Luis Lavoura diz, se baseia no mesmo nível de conhecimento que manifesta quanto ao “millieu” da extrema esquerda da década de setenta, estamos tramados…

  8. A. Trigueiro

    Se o Prof. Cavaco Silva julga que está ser vigiado pelo Governo e nada faz, é de uma enorme gravidade.

    Ao Presidente da República exige-se que tenha a coragem de enfrentar o que for preciso, para não deixar as coisas chegarem a este ponto. Se não, em vez de um Presidente da República temos uma “Maria” vai com as outras…

    Se afinal não há suspeitas e o Prof. Cavaco deixou que a sua Casa Civil se entretesse em jogos palacianos tendentes a influenciar o resultado das eleições, então temos um Presidente da República, não de todos os portugueses,
    mas sim um lider de facção que já não está em condições de continuar a exercer o cargo para o qual foi eleito.

    Muita gente saberá disto. Muitos só não o admitem pelo medo de ficarem orfãos.
    (políticos, é claro)

  9. A. Trigueiro,

    tenha havido suspeitas da parte de Cavaco Silva ou não tenha, é totalmente inapropriado que um assessor dele tenha soprado essas suspeitas para a comunicação social.

    Se o Presidente da República Portuguesa tem suspeitas de que anda a ser espiado, seja por quem fôr, deve agir com discrição no sentido de acabar com essa espionagem. Agira através dos serviços de contra-espionagem e de informações, policiais e militares. Isso é o que qualquer autoridade de qualquer Estado faz quando suspeita de que anda a ser espiada.

    A espionagem combate-se com contra-espionagem e com despistagem. Não se combate com denúncias aos jornais.

    O facto de a suspeita ter sido soprada para os jornais mostra claramente que o objetivo do assessor do Presidente não era combater a espionagem, e sim lançar a suspeita para a praça pública. O que é totalmente inapropriado, porque o facto de a susspeita andar pela praça pública em nada contribui para que a espionagem termine.

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