(Mais) Uma pérola do jornalismo económico nacional

No Diário Económico de hoje: “Grande fatia de obrigações do BPP vence daqui a 40 anos

Proposta do Banco Privado para o fundo para o retorno absoluto prevê uma maturidade de três a anos, prazo que deve permitir pagar capital e juros.

Quase metade da carteira de activos dos produtos de retorno absoluto do Banco Privado Português (BPP), composta sobretudo por obrigações, vence depois de 2015. E mais de 14% atinge a maturidade apenas em 2049.

Neste ‘portfolio’ em que estão investidas as poupanças dos clientes de retorno absoluto do BPP – perto de 1,2 mil milhões de euros – outro tanto, cerca de 13%, vence apenas em 2016. Em 2017, atinge a maturidade 6,5% da carteira e, em 2015, acima de 6% das obrigações.

Estão aqui, desta forma, perto de metade da carteira de retorno absoluto dos clientes do BPP. Do “bolo” total, apenas 3,8% vence nos próximos três anos, dos quais o,8% este ano, 1% em 2010 e 2% em 2011.

Não conheço a jornalista que assina o artigo (Maria Ana Barroso), nem tão pouco serve este post como qualquer espécie de ataque pessoal. Mas para quem está habituado a ler os jornais económicos portugueses, erros deste género (ou sempre que algum número tem mais de 3 ou 4 zeros ou quando é preciso fazer algum câmbio) não são tão incomuns quanto isso. E às tantas ficamos entre a irritação e o riso. É que não se percebe como estas “gralhas” passam por um jornalista, por um revisor, por um editor… num jornal económico!

Ninguém acha estranho que 14% das obrigações terminem em 2049? Quando seguramente nenhuma das restantes obrigações termina nos 10 anos anteriores ou posteriores? Aqui fica desfeito o mistério para quem não sabe (nem tem obrigação de saber): 2049 é a maturidade que, genericamente, é atribuída a obrigações perpétuas. Pelo que, na realidade, 14% das obrigações em questão não têm uma data de maturidade definida neste momento.

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17 pensamentos sobre “(Mais) Uma pérola do jornalismo económico nacional

  1. Já que o LT aparenta tanto saber sobre a matéria, explique-me por favor duas coisas:

    1) O que são obrigações sem data de maturidade definida? São assim coisas como os certificados de aforro, que pagam juros mas que nunca se sabe quando é que serão pagos de volta? Se uma obrigação não tem prazo de maturidade definido, como é que o seu comprador tem a certeza de alguma vez receber o seu dinheiro de volta?

    2) O que são os “produtos de retorno absoluto”? É que eu nunca ouvi essa expessão a não ser no contexto do BPP e não sei o que ela significa. Nunca nenhum banco me tentou induzir a colocar as minhas poupanças num “produto de retorno absoluto”, pelo menos com tal nome. Como se define “produto de retorno absoluto”? É um depósito a prazo? É um fundo de investimento? É um produto de captação de aforro estruturado?

  2. Uma obrigação perpétua (sem maturidade) paga-te um juro anual até bateres a bota. O capital foi-se, ficas com os juros até morreres ou abrir falência a entidade a quem emprestaste o dinheiro, o que acontecer primeiro.

  3. Caro Luís Lavoura,

    Não sei se sei tanto sobre a matéria, sei o suficiente para trabalhar neste meio.

    1) Numa obrigação perpétua não existe uma data de maturidade obrigatória previamente definida. Existem datas a partir das quais, (regra geral) por opção do emitente, a emissão pode ser alvo de um reembolso antecipado. Não existe, no entanto, nada que obrigue o emitente a realizar este reembolso antecipado. Ou seja, em teoria, podemos ter uma dívida cujo principal nunca será reembolsado e que irá “apenas” pagar juros periodicamente. No entanto, apesar disso, é um instrumento de dívida bastante utilizado e transaccionado nos mercados financeiros

    2) Nunca trabalhei no BPP pelo que o meu conhecimento dos “produtos de retorno absoluto” é o de qualquer pessoa que tenha acompanhado a “novela” BPP. Parece-me que, claramente, não serão depósitos a prazo pois se fosse esse o caso os depositantes estariam ao abrigo do fundo de garantia e não teriam o seu capital em risco, o que, pelas recentes manifestações e protestos, não parece ser o caso.

  4. LT, obrigado pela resposta.

    Vejo que não soube responder à minha segunda pergunta, que era de facto a que mais me interessava.

    Esta designação “produtos de retorno absoluto” deixa-me positivamente perplexo. Todos os jornalistas, económicos e não económicos, utilizam essa designação, no contexto do BPP, como se se tratasse de uma coisa que toda a gente sabe o que é, e que está perfeitamente definida. No entanto, nunca vi explicado, nem em termos claros nem sequer em termos obscuros, o que são e como se definem “produtos de retorno absoluto”. Será um tipo de produto financeiro que só o BPP comercializava? O que esconderá essa misteriosa designação?

  5. “Retorno absoluto” é um chavão bullshiteiro usado para descrever uma estratégia de investimento de fundos que é diferente do mais corriqueiro sistema de “retorno relativo” usado em fundos tradicionais. Enquanto estes têm por objectivo bater os seus benchmarks, os primeiros pretendem dar aos seus investidores um retorno absoluto, isto é, independente dos benchmarks do mercado.

    Assim, se um fundo de investimento em acções do sector de telecom tiver uma performance superior a um benchmark (p.ex. o índice S&P correspondente) então tem um retorno relativo bom. Caso contrário mau. Isto significa que se o índice cair 15% e o fundo apenas cair 10%, é considerado um sucesso.

    No “retorno absoluto”, o objectivo de gestão não é bater o índice. É dar X% de retorno efectivo, acima de zero, aos investidores. Como? Usando “enhanced techniques” e seguindo uma estratégia “activa” 😆

  6. “chavão bullshiteiro”

    Excelente expressão.

    Devias fazer um post com a “definição” de retorno absoluto. Acho que muita gente – incluindo nos meios políticos e mediáticos – partilha a dúvida do LL embora não tenha coragem de o admitir… 🙂

  7. “No “retorno absoluto”, o objectivo de gestão não é bater o índice. É dar X% de retorno efectivo, acima de zero, aos investidores. Como? Usando “enhanced techniques” e seguindo uma estratégia “activa””

    🙂 🙂 🙂

  8. “É que não se percebe como estas “gralhas” passam por um jornalista, por um revisor, por um editor… num jornal económico!”

    O pior é que até se percebe: a ignorância de princípios básicos de economia e finanças no meio é assustadora…

  9. Basico

    Partir do pressuposto que a jornalista está errada sem saber o que está efectivamente na carteira é uma pressuncao perigosa, visto que
    as obrigacoes nao sao necessariamente perpetuas.

    Poderao perfeitamente CDO’s, CLO’s ou ABS. Este tipo de obrigacoes tem maturidades muito longas, e foram absolutamente triturados pelo mercado no ano passado.

  10. Migas, obrigado por explicar.

    Mas então, por que raio é que o Estado se deve preocupar especialmente com os clientes de retorno absoluto do BPP? Eles investiram em fundos, os quais, como toda a gente sabe, flutuam de valor de dia para dia e não podem nunca garantir uma qualquer rentabilidade, nem grande nem pequena. Ou seja, não são, de forma nenhuma, depósitos a prazo. Não vejo qualquer razão para o Estado atribuir maior valor (e prioridade a recompensar) a fundos de investimento com retorno absoluto do que a fundos de investimento com retorno relativo, nem a quaisquer ouros fundos de investimento.

  11. Basico,

    Tem razão que não posso ter a certeza porque não tive (aparentemente, ao contrário da jornalista) acesso à composição da carteira de suporte aos produtos de retorno absoluto. No entanto, se ler o artigo, repara que os emitentes referidos não são emitentes de CDO/CLO/ABS e afins (tipicamente veículos) mas sim bancos. Pelo que apesar do risco associado à minha “presunção”, vou manter a minha posição.

  12. lucklucky

    Retorno= Retornar algo que se entregou. Absoluto= Total? . Parece uma garantia de que pelo menos o dinheiro investido seria devolvido.

  13. Os fundos foram (alegadamente) vendidos aos clientes como se fossem depósitos a prazo. Tinham uma garantia de capital, por isso, se tudo corresse bem, até eram como se fossem depósitos. Como correu mal, a garantia do banco não vale nada e os investimento não são cobertos pelo fundo de garantia de depósitos.

    A garantia não advém (ou pelo menos não devia advir) do facto de ser um “retorno absoluto”.

  14. Contabilista

    Na prática eram depósitos a prazo, mas como não eram formalmente denominados como tal, não se pagava IRS/IRC sobre os juros (nem o Banco tinha que “descontar” para o FGD), o que melhorava ligeiramente a rendibilidade face aos depósitos a prazo “normais”. Acresce que no contrato o Banco garantia a totalidade do capital investido bem como uma determinada taxa de juro. Os prazos das aplicações variavam entre 3 meses a 1 ou 2 anos. O Banco de Portugal sabia, a CMVM sabia, a Deloitte sabia, todos sabiam. Quando isto estourou, todos os que sabiam esqueceram-se e os clientes que confiaram num Banco e numa supervisão é que se lixaram.

  15. “Quando isto estourou, todos os que sabiam esqueceram-se e os clientes que confiaram num Banco e numa supervisão é que se lixaram.”

    Pois.

  16. Pingback: Comentários « O Insurgente

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