Revisitemos 2004 (II)

Poucos meses depois de empossar o governo de Santana Lopes, Jorge Sampaio decide dissolver a assembleia da república por ‘trapalhadas’ não especificadas do governo, desde logo uma justificação leviana para uma acção tão grave. Não se limitou a demitir o governo das tais trapalhadas, o que, a existirem (e o PR a mim não mas comunicou), até se justificaria, uma vez que isso garantiria a continuidade da coligação PSD-CDS. Numa decisão com objectivo único de ajudar o PS, Sampaio dissolveu uma maioria absoluta na AR.

Ainda bem que só agora com Cavaco Silva temos um presidente que atacou o partido político do governo.

Revisitemos 2004

Durão Barroso foi para Bruxelas e deixou-nos com um governo liderado por Santana Lopes. Jorge Sampaio deu posse ao novo executivo, depois de tentar que o PSD lhe fornecesse outro líder, frisando bem que o governo estava sob vigilância e dependente da benevolência presidencial: teria de seguir o programa e as políticas, concretamente de finanças públicas, do governo anterior.

Pois é, nunca tivemos uma situação em que o PR deixa tomar posse um governo de que desconfia e ao qual tem pessoalmente aversão.

Ver de bancada (3)

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Percebe-se e compreende-se muito bem que Cavaco Silva não vá fazer o habitual discurso do 5 de Outubro. Afinal, foram demasiadas semanas a entregar munições ao campo do adversário.

Temos portanto um 5 de Outubro reduzido ao seu merecido lugar histórico: festejado sem intervenção do seu próprio presidente da república, sem intervenção do edil do município onde têm lugar as comemorações oficiais, remetido ao cerimonial soporífero e oco da cangalhada republicana que ainda sobrevive, ano após ano entrando no ritual dos feriados que se sabe que existem porque dão umas folgas.

São afinal augúrios para o ano que vem. Quando se contempla o estado que perpassa a nossa república da base até ao seu cume, tão bem retratado e concluído na sua plenitude com a queda do Anjo Cavaco de ontem, vê-se bem para que vão ser gastos os obscenos recursos que se prometem para o ano que vem. Com a crise que atravessamos, económica, institucional e de estado, só pode ser mesmo para bem da república. Se calhar não será é bem na perspectiva que se suporia.

Golpe de Estado (2)

“O pronunciamento de Cavaco, e o fim do regime” de Henrique Raposo

Cavaco ontem fez aquilo que, no passado, se chamava “um pronunciamento”. No passado, quando o país ainda não tinha bases constitucionais maduras, no passado, quando o país se divertia a fazer golpes de estado, um tipo chegava e dizia aquilo que Cavaco disse ontem: “aqueles tipos não são de confiança”. Depois, esse tipo ficava à espera dos seus generais. Nunca chegava a haver guerra civil. Contavam-se apenas as armas. Se tivesse mais armas do que o outro, o tipo ganhava sem disparar um tiro. Cavaco abriu fogo. Deve ir à guerra sozinho. Até porque, estou desconfiado, já não tem generais no coldre.

São mesmo necessários os exegetas

Ó meus amigos, mas que interpretações e extrapolações tão melodramáticas têm sido feitas das palavras do PR. Pela minha parte – e continuo a achar que Cavaco geriu muito mal o silêncio sobre o caso das escutas e tem que se queixar tanto de si próprio como do governo – acho que ontem Cavaco Silva nos tratou como adultos e não como crianças que precisam que lhes seja dita uma mentira, embora saibam a verdade, por necessidade de auto-ilusão. Vejamos:

1. O PR desligou-se das notícias sobre desconfianças de escutas (e aqui acredita-se ou não; eu acredito), afirmou que desconfiava da veracidade dessas notícias, incluindo os e-mails do DN. Sobre a existência de desconfianças (e não das notícias de) nada disse, como nada tinha que dizer em público (o que até ontem também era a opinião de todos).

2. A comunicação foi defensiva, diz-se. Pois claro que foi. Toda a gente, claro, exigia que Cavaco se explicasse. Cavaco assumiu que foi “forçado” e fez muito bem. Foi autêntico e não nos tomou por parvos fingindo que tudo estava no melhor dos mundos.

3. Cavaco disse claramente que não confia neste PS e que este agiu de forma desonesta, inventando mentiras para colar o PR ao PSD e distrair os eleitores dos problemas do país. E depois?! Estamos nos inícios do parlamentarismo inglês em que, no fundo, tudo dependia dos humores do Rei? Desde quando o nosso sistema é tão frágil que seja necessário um PR gostar, confiar ou respeitar num PM? Se Cavaco não confia em Sócrates e o acha desonesto, so what? Desde quando questões institucionais se devem reger por sentimentos pessoais?  O que tem a declaração do PR com a indigitação do novo PM? Os resultados eleitorais são o que são e o PR deve agir lealmente para com os eleitores qualquer que sejam a opinião ou os sentimentos. As dificuldades entre Cavaco e Sócrates seriam as mesmas se Cavaco não nos tivesse confiado a sua opinião sobre o PS, nós saberíamos dessas dificuldades, mas parece que elas só existiram a partir do momento em que Cavaco dá publicamente a sua ‘interpretação pessoal’ do que aconteceu. Ora sejamos crescidinhos, sim?

4. Cavaco conseguiu, com a sua declaração, avisar o PS que, se continuar a abusar, o PR poderá comunicar, em declarações ou, menos solenemente, em entrevistas a sua ‘interpretação pessoal’  dos objectivos deste PS e que isso não será lisonjeiro para o PS.

Virgens ofendidas

Joâo Cândido da Silva

“Nunca imaginei que um Presidente da República fosse capaz de fazer uma comunicação ao País tão ridícula e lamentável”, disse Alfredo Barroso, antigo assessor de Mário Soares na Presidência da República, sobre a intervenção de Cavaco Silva acerca do “caso das escutas”. Sem dúvida que, no tempo de Soares, o talento para intrigar e manipular era muito mais apurado. Era feito às escondidas mas, também, à luz do dia, através das “Presidências abertas”.

(des)arrumação

Vale a pena ler o artigo de Gonçalo Reis no Jornal de Negócios, que ajuda a desmontar a tentadora ideia de que António Costa nada fez na Câmara Municipal de Lisboa porque andava ocupado a arrumar a casa e a tratar das contas. Pelos vistos, entre 2007 e 2008, a dívida total da Câmara aumentou 151 milhões de euros, as despesas correntes da cresceram 5,6% e as receitas correntes baixaram 0,6%.

Golpe de Estado

Cavaco fez ontem um arremedo de golpe de Estado. Dois dias depois de um partido ter sido o mais votado, Cavaco veio dizer que, no fundo, ele não é bem legítimo, porque usa o poder indevidamente. Ao dar este semi-golpe de Estado, Cavaco naturalmente deve estar à espera de parceiros para embarcar com ele. Quer contar armas. Na minha opinião, é uma estrada que deve seguir sozinho. Que eu saiba (mas, claro, eu sei muito pouco), ninguém lhe encomendou esta guerra. Mais: não foi para isto que ele foi eleito. Ele foi eleito para ser o garante do regular funcionamento das instituições. Agora transformou-se no garante do seu irregular funcionamento. Até domingo, era o PS que queria lançar o regime numa espécie de guerra civil larvar. No domingo, graças aos resultados do BE e do CDS, deixou de o poder fazer. Ontem, Cavaco tinha a oportunidade de acabar com essa guerra civil e tinha todas as condições para isso. Graças ao resultado de domingo, ele voltara a ser o centro essencial do sistema político, aquele sem o qual nenhum partido (incluído o do governo) podia ter uma legislatura descansada. Em vez disso relançou o caos nesse sistema. Boa sorte.