Ó meus amigos, mas que interpretações e extrapolações tão melodramáticas têm sido feitas das palavras do PR. Pela minha parte – e continuo a achar que Cavaco geriu muito mal o silêncio sobre o caso das escutas e tem que se queixar tanto de si próprio como do governo – acho que ontem Cavaco Silva nos tratou como adultos e não como crianças que precisam que lhes seja dita uma mentira, embora saibam a verdade, por necessidade de auto-ilusão. Vejamos:
1. O PR desligou-se das notícias sobre desconfianças de escutas (e aqui acredita-se ou não; eu acredito), afirmou que desconfiava da veracidade dessas notícias, incluindo os e-mails do DN. Sobre a existência de desconfianças (e não das notícias de) nada disse, como nada tinha que dizer em público (o que até ontem também era a opinião de todos).
2. A comunicação foi defensiva, diz-se. Pois claro que foi. Toda a gente, claro, exigia que Cavaco se explicasse. Cavaco assumiu que foi “forçado” e fez muito bem. Foi autêntico e não nos tomou por parvos fingindo que tudo estava no melhor dos mundos.
3. Cavaco disse claramente que não confia neste PS e que este agiu de forma desonesta, inventando mentiras para colar o PR ao PSD e distrair os eleitores dos problemas do país. E depois?! Estamos nos inícios do parlamentarismo inglês em que, no fundo, tudo dependia dos humores do Rei? Desde quando o nosso sistema é tão frágil que seja necessário um PR gostar, confiar ou respeitar num PM? Se Cavaco não confia em Sócrates e o acha desonesto, so what? Desde quando questões institucionais se devem reger por sentimentos pessoais? O que tem a declaração do PR com a indigitação do novo PM? Os resultados eleitorais são o que são e o PR deve agir lealmente para com os eleitores qualquer que sejam a opinião ou os sentimentos. As dificuldades entre Cavaco e Sócrates seriam as mesmas se Cavaco não nos tivesse confiado a sua opinião sobre o PS, nós saberíamos dessas dificuldades, mas parece que elas só existiram a partir do momento em que Cavaco dá publicamente a sua ‘interpretação pessoal’ do que aconteceu. Ora sejamos crescidinhos, sim?
4. Cavaco conseguiu, com a sua declaração, avisar o PS que, se continuar a abusar, o PR poderá comunicar, em declarações ou, menos solenemente, em entrevistas a sua ‘interpretação pessoal’ dos objectivos deste PS e que isso não será lisonjeiro para o PS.