Depois digam lá que “as estatísticas valem o que valem”

340x255

O gráfico acima é apresentado pelo Hugo Mendes, em resposta ao Nuno Gouveia, sugerindo que numa comparação entre legislaturas os três primeiros anos do governo PS viram uma criação líquida de cerca de 100.000 postos de trabalho, enquanto no governo anterior teve lugar uma destruição de cerca de 40.000 postos. Estas comparações são um bocado irrelevantes, tendo em conta a complexidade das causas e, especialmente, o desfasamento temporal entre estas e as consequências. Contudo, as contas subjacentes ao gráfico devem ser um bocado “simplex”. É que os números do gráfico acima não batem certo com a evolução efectiva da taxa de desemprego, que não parou de aumentar desde 2000, como pode ser visto no gráfico abaixo, do Observatório das Desigualdades do ISCTE.

pibdesemprego_graf3

Exceptuando eventualmente alguns curtos periodos influenciados por efeitos sazonais ou excepcionais (que são irrelevantes para a tendência de longo prazo), a criação líquida de emprego foi sempre negativa. Seria bom o Hugo Mendes clarificar como fez as contas (se é que foi ele que fez, pois o gráfico tem todo o aspecto de ter sido gerado por um qualquer assessor do ex-ministro Pinho equipado com Magalhães) na elaboração do gráfico…

23 pensamentos sobre “Depois digam lá que “as estatísticas valem o que valem”

  1. “o gráfico tem todo o aspecto de ter sido gerado por um qualquer assessor do ex-ministro Pinho equipado com Magalhães) na elaboração do gráfico…”

    Se calhar usaram aquele que o Chavez deixou cair ao chão

  2. As duas coisas não são contraditórias – se a população activa aumentar, podemos ter ao mesmo tempo criação liquida de emprego e aumento da taxa de desemprego.

  3. Pois. E foi essa a “jogada” que o PS tentou fazer. Mas também é natural que a economia absorva naturalmente o crescimento populacional. Especialmente quando este é modesto.

  4. Nuno Nasoni

    E a tendência de evolução da população activa mudou assim tanto, nos últimos 3 anos?… A malta anda a reformar-se muito mais tarde?

  5. Por outro lado, o governo do PSD teve o azar de apanhar a recessão (expectável) pós-Euro 2004 quando parou a construcção dos estádios e outras infraestruturas. Ainda por cima, tudo “investimentos” (nem se devia chamar investimentos àquilo que foi feito) sem qualquer rentabildiade.

  6. «As duas coisas não são contraditórias – se a população activa aumentar, podemos ter ao mesmo tempo criação liquida de emprego e aumento da taxa de desemprego.»

    Verdade. Mas para os números em causa não dá. Eu pelo menos não reparei que tenham surgido do nada mais um milhão de trabalhadores…

  7. Rasgão

    Caro Miguel,

    Fica-lhe mal desconfiar dos números; está lá bem explícito que a fonte é o INE.

    Tem duas opções: ou confia, ou vai ao site do INE e extrai a informação (se não souber como fazer, eu ensino-lhe).

    Outra coisa: não são precisos 1 milhão de novos activos para explicar a “aparente contradição” entre os dois gráficos. Bastam 100 mil. Mais uma vez, se não perceber, eu explico.

  8. Caro “Rasgão”,

    «Fica-lhe mal desconfiar dos números; está lá bem explícito que a fonte é o INE.»

    O facto do gráfico se basear em números do INE não quer dizer que não possa estar mal. That’s the point.

    «Tem duas opções: ou confia, ou vai ao site do INE e extrai a informação (se não souber como fazer, eu ensino-lhe).»

    A presunção é engraçada. Parafraseando o seu querido líder, “ainda está para nascer” quem possa criticar o seu track record, certo?

    «Outra coisa: não são precisos 1 milhão de novos activos para explicar a “aparente contradição” entre os dois gráficos. Bastam 100 mil. Mais uma vez, se não perceber, eu explico.»

    100 mil novos postos de trabalho líquidos, todos por novas entradas na população activa, implicariam uma redução da taxa de desemprego de duas décimas. Durante os primeiros três anos do actual governo, a taxa de desemprego aumentou quatro décimas. Mas olhe, deixe estar, eu não tenho pretensões a explicar o que quer que seja a quem só vê o que quer.

    A mim pouco me importa se aumentou mais o desemprego no governo anterior. That’s not the point. Como referi, existem desfasamentos temporais, bem como outros factores, que tornam irrelevante a comparação. O que não é irrelevante é a desfaçatez de usar números deliberadamente distorcidos para defender uma aldrabice.

  9. Rasgão

    Miguel,

    As suas contas estão erradas.

    Tomando como referência o 1T05 e o 1T08, a taxa de desemprego subiu 1 ponto percentual (de 7,5% para 7,6%). A população activa aumentou em 111k (de 5,507M para 5,618M): a criação líquida de emprego foi de 97 mil (de 5,094M de 5,191M) e o número de desempregados aumentou 14 mil (de 413k para 427k).

    Se preferir tomar como referência o 2T05 e o 2T08, os números são muito semelhantes.

    Mas, como lhe disse, o melhor é mesmo o Miguel ir ao site do INE e verificar por si antes de insinuar o que quer que seja.

    Fica-lhe mal, muito mal.

  10. «O que não é irrelevante é a desfaçatez de usar números deliberadamente distorcidos para defender uma aldrabice».

    Quais são os números “deliberadamente distorcidos”? E qual é a “adrabice”? Ou o problema é não saberem que pode haver criação líquida de emprego e aumento do desemprego?

  11. «As suas contas estão erradas (…) o melhor é mesmo o Miguel ir ao site do INE»

    A questão é que fui. Encontrei apenas dados trimestrais. Os mesmos que o “Rasgão” usa. Isso não serve para análise, por causa da sazonalidade, como bem sabe. Por exemplo, se em vez de andar um trimestre para a frente, andasse um para trás, em vez de um aumento de 1 décima, havia um aumento de 6 (maior que as 4 que mencionei). Por isso se devem usar médias anuais. O gráfico do OD do ISCTE é isso que dá. Uma subida de 4 décimas. Do mesmo modo, o aumento da população activa terá sido de cerca de 70k, não os 111k que refere trimestre a trimestre, o que ainda reforça mais o efeito.

    «antes de insinuar o que quer que seja (…) Fica-lhe mal, muito mal»

    Eu não insinuei nada. Afirmei que estes números são propaganda baseada em comparações inválidas (e pior, irrelevantes). Também tinha o Hugo Mendes em melhor conta, que talves não fosse mais um na claque de cheerleaders que se recusam a ter um mínimo de pensamento crítico sobre os “seus”. E escusa lá de dizer o que me fica ou não mal, pois a sua opinião não tem muito peso para mim. Mal, mesmo, é alguém prometer coisas que não dependem de si, que sabe que não dependem de si, e depois ainda ter a lata de “fudge the numbers” para fugir aos factos.

  12. Rasgão

    Ó homem, a comparação feita é entre variações homólogas a 3 anos:

    1T02-1T05 Governo PSD/PP
    1T05-1T08 3 primeiros anos Governo PS

    Que raio – onde é que entra aqui a sazonalidade? Invente outra desculpa que essa não vale.

    Outra coisa: os Governo PSD/PP e PS começaram e acabaram em dias fixos no calendário. Não se pode andar trimestres para a frente e para trás ao gosto do freguês (o meu comentário sobre escolher o 2T05 e não o 1T05 como início do Governo PS, tem a ver com o dia em que o Governo tomou posse – no limite entre os dois trimestres). Também não se pode utilizar médias anuais porque os Governos não começaram em Janeiro de um ano e acabaram em Dezembro de outro, percebe?

  13. Rasgão

    Mais uma coisa, Miguel:

    Dou de barato que pode escolher médias anuais, ou até andar para trás um trimestre (o que não deve, mas enfim – o Governo do PSD/PP foi de Abril de 2002 a Março de 2005).

    Desafio-o a apresentar um gráfico semelhante ao que o Hugo publicou (utilizando os dados que entender) e que seja capaz de contradizer esta evidência (a quantificação será resultado da sua análise):

    Os 3 anos de governação PSD/PP destruiram (muito) emprego, enquanto os três primeiros anos de Governação PS criaram (2,5 vezes muito) emprego.

  14. tric

    “Os 3 anos de governação PSD/PP destruiram (muito) emprego, enquanto os três primeiros anos de Governação PS criaram (2,5 vezes muito) emprego.”

    aldrabices, puras aldrabices!

  15. «Desafio-o a apresentar um gráfico semelhante ao que o Hugo publicou (utilizando os dados que entender) e que seja capaz de contradizer esta evidência (a quantificação será resultado da sua análise): Os 3 anos de governação PSD/PP destruiram (muito) emprego, enquanto os três primeiros anos de Governação PS criaram (2,5 vezes muito) emprego.»

    Estou a ficar um bocado cansado de debater com gente cujo tom é chico esperto e cuja lógica é, para ser simpático, defeituosa. Aqui fica uma última contribuição:

    1) É evidente que não apresento um gráfico que diga que o desemprego aumentou menos durante o governo PSD/CDS do que durante o actual, por que tal não aconteceu. Em lado algum me viu defender tal ideia. É evidente, pelo próprio gráfico do OD do ISCTE, que o desemprego aumentou mais entre 2002 e 2005 do que entre 2005 e 2007. Trazer esta questão à baila é uma falácia, sugerindo que eu tenho de estar errado na crítica que faço ao argumento de que este governo criou emprego, lá porque no tempo do governo anterior a subida foi ainda pior (como se fosse essa a minha asserção, que não é).

    2) Também em lado nenhum me verá dizer que em periodos de tempo tão curtos se pode estabelecer uma causalidade entre as políticas do governo e a evolução do desemprego. Eu não teria tal falta de pudor intelectual. Já os cheerleaders do PS parecem não ter qualquer pejo em fazê-lo. Os efeitos das políticas macro do governo em 2005 e 2006 deveriam estar a ver-se nos números de 2008 e deste ano, que infelizmente estão contaminados pela queda das exportações causada pela crise exterior. Por um lado, o governo sofre com algo que não causou, mas por outro, tem a vantagem de que não se poder validar se a recuperação marginal de emprego que ocorreu na primeira metade de 2008 era conjuntural ou sustentada. (dando aqui de barato que essa recuperação foi mérito do governo, o que não é de todo líquido).

    3) O que está em causa não é se o desemprego aumentou menos durante o governo PS (primeiros 3 anos) do que durante o anterior. Isso é um facto. Se esse facto é atribuível às políticas do governo, ou se o pior comportamento anterior se pode atribuir ao governo de então, é duvidoso. Excepto se contarmos com os programas de formação profissional que são criados especialmente para massajar os números (mas também não é isto que está causa). O ponto é que José Sócrates fez uma promessa eleitoral de diminuição dos valores absolutos do desemprego em 150000 postos de trabalho. Algo que pela forma atabalhoada como foi sendo refraseado ao longo do tempo vê-se que ele não entendia bem, e que pura e simplesmente não estava ao seu alcance “entregar”.

  16. Diebold

    “As suas contas estão erradas.

    Tomando como referência o 1T05 e o 1T08, a taxa de desemprego subiu 1 ponto percentual (de 7,5% para 7,6%).”

    Que engraçado. Uma criatura que não sabe fazer operações aritméticas simples a tentar ensinar os interlocutores a fazer contas.

  17. Rasgão

    Caro Miguel,

    1. Começou por duvidar da veracidade do gráfico. Depois disse que não era possível haver criação de emprego líquido e aumento da taxa de desemprego. A seguir, que tal só seria possível com mais um milhão de activos. Por último, que a sazonalidade era um factor a ter em conta.

    2. Quando perdeu o debate quantitativo virou-se para a legitimidade da comparação.

    3. Ora, se quiser manter a coerência de discurso, pare de falar dos 150 mil empregos. Eles teriam sido criados, não fosse a actual conjuntura a que vocês chamam “abalozinho”.

    [Diebold: perceberá que isso é um erro honesto (são 0,1pp). Se assim não fosse, o argumento quantitativo não funcionava. Mas pronto, se acha que essa é a questão central, satisfaça-se com isso]

  18. Alexandre Gonçalves

    Deixem-me ver se percebo…
    Num determinado momento existem 250.000 desempregados existindo com uma taxa de desemprego de 5% com uma população activa de 5.000.000. Se no final de 4 anos de governo a população activa passar para 4.600.000 e todos estiverem empregados temos uma taxa de desemprego de 0% mas perdemos 150.000 postos de trabalho. Então isto é mau!!!. Mas se a população activa nesse mesmo período passar para 5.500.000 e a taxa de desemprego para 10% foram criados 200.000 postos de trabalho. Isto já é bom!!! Sinceramente este tipo de análise é o típico da nossa classe política: hipócrita e falsa.

    O Sócrates queria recuperar 150.000 postos de trabalho, não criar 150,000 postos de trabalho, o que é diferente!

    Para sermos honestos a análise do objectivo teria de ser feita da seguinte maneira:

    Taxa Desemprego no início da legislatura: TD1
    População Activa inicio da legislatura: PA1
    População Activa no final da legistatura: PA2

    Nº Empregos existentes no final da legislatura de modo a cumprir com o objectivo de recuperar 150.000 postos de trabalho >= (PA2*(1-TD1)+150.000)

    ou de outra maneira, numero de desempregados existentes no final da legislatura:
    (PA2*TD1-150.000)

  19. «Começou por duvidar da veracidade do gráfico. Depois disse que não era possível haver criação de emprego líquido e aumento da taxa de desemprego. A seguir, que tal só seria possível com mais um milhão de activos.»

    Continuo a achar o gráfico deliberadamente “misleading”, embora com a sua “ajuda” (assumo aqui que está por dentro da produção dos gráficos que tem mostrado) já perceba como os números foram obtidos. Criação de emprego líquido nos termos avançados pelo gráfico com o aumento que existiu da taxa de desemprego e perante o contexto de uma população activa estagnada ou com crescimento muito reduzido é de facto impossível. O comentário do milhão de activos foi um erro que não me custa nada a admitir (fiz as contas ao contrário, isto é, que crescimento seria necessário para manter a taxa de desemprego com um aumento do nº de desempregados de 100k).

    «Quando perdeu o debate quantitativo virou-se para a legitimidade da comparação.»

    Esta é uma técnica argumentativa muito “à lá” Sócrates. Tem piada. Em primeiro lugar, o meu argumento começou pela legitimidade da comparação. Se você não aceita este facto é por não saber ler ou por ser intelectualmente desonesto (está a ver? eu também sei usar estas técnicas). Em segundo lugar, não perdi nenhum debate quantitativo, pois o comentário do milhão, embora errado, não é relevante para o argumento de que perante os dados médios (que são mais correctos para o fim em vista) a ideia de que houve uma criação líquida de 100k postos entre 2005 e 2007 não bate certo.

    «Ora, se quiser manter a coerência de discurso, pare de falar dos 150 mil empregos. Eles teriam sido criados, não fosse a actual conjuntura a que vocês chamam “abalozinho”.»

    Bem sei que não convém ao PS que se fale dos 150k empregos… Seria muito pedir coerência no discurso dos apoiantes do PS e para estes não responderem com gráficos como o do Hugo Mendes (alhos) quando alguém lembra a promessa (a priori sabida incumprível) do 150k (bugalhos)?

    Por fim, quem é que se referiu à actual conjuntura como “abalozinho”? É que eu não fui de certeza. E afino quando me atribuem coisas que não disse (nem penso). Acho pouco sério, está a ver?

  20. lucklucky

    Para lá desta discussão sem sentido eu com o dinheiro dos outros também consigo criar muitos empregos. Então se conseguir mascarar o desemprego com cursos temporários ainda mais.

    A economia do País está toda distorcida pelo elevado endividamento e defice. Como a economia que temos não é sustentável é impossível analisar comn detalhe o que se está a passar ou passou excepto para dizer que é mau.
    Sem a bolha da dívida e do defice provavelmente teríamos 15% de desemprego e como a situação não é sustentável quando não houver possibilidade de crescer mais a dívida é bem capaz de irmos a 20%.

  21. Rasgão

    Miguel,

    1. Você insiste nessa história dos dados médios, mas não percebe muito bem o que eles significam. Deixe-me que lhe diga: são a média dos dados trimestrais ao longo do ano.

    2. Ou seja, por muito que lhe custe, os dados por mim apresentados descrevem muito bem o que de facto se passou e não contrariam o gráfico que o Miguel apresenta (do gráfico do ISCTE não é possível deduzir a informação que está no gráfico do Hugo porque falta informação sobre a população activa).

    3. Ora, o que é que se passou com a população activa? (mais uma vez, este são dados do INE; representam variações homólogas a três anos e utilizam como referência o 1T de cada ano. Sabes porque podemos fazer isso? Porque o Governo do PSD/PP começou em Abril de 2002 e o do PS em Março de 2005).

    – Governo PSD/PP (3 anos: de 1T02 a 1T05): A população activa aumentou em 140 mil pessoas. E o que aconteceu a esta gente? Foi toda parta o desemprego – nem um emprego criado. Não contente com isso, a economia ainda foi buscar mais 37 mil empregados e lançou-os no desemprego. Resultado, o número de desempregados aumentou em 177 mil (de 236 mil para 413 mil – se vir, isto é compatível com a subida da taxa de desemprego do seu gráfico)

    – Governo PS, antes do “abalozinho” (primeiros 3 anos: de 1T05 a 1T 08): A população activa aumentou em 111 mil. A economia conseguiu gerar emprego para 97 mil desses novos activos e “só” 14 mil é que foram para o desemprego (o número de desempregados passou de 413 mil para 427 mil).

    – Ou seja, entre 2002 e 2005 (PSD/PP), a economia nacional atirou todos os novos activos para o desemprego. E entre 2005 e 2008 (PS), a economia nacional consegui criar emprego para 87% dos novos activos.

    Espero que ajude na sua reflexão.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.