O que é que o Governo está a comprar

Há uns meses, foi anunciado que o Estado, pela mão do Governo socialista, planeava “nacionalizar” a companhia de seguros COSEC, como medida de “resposta à crise”. Como é costume nestas coisas, o assunto caiu no esquecimento. Ontem, o Rui Carmo chamava aqui a atenção para uma notícia do Expresso, confirmando a intenção governamental de adquirir os 50% de acções da empresa até aqui na posse do BPI, por 27,5 milhões de euros.

A explicação dada em Maio (que, sabendo como é o Governo, nada grante que se mantenha) para a decisão era a aparente “necessidade” de “garantir às empresas exportadoras nacionais um acesso seguro ao crédito”. Segundo o Governo, a crise económica provocara uma contracção do crédito à exportação, que estava a afectar seriamente o sector. O raciocíonio socrático (não o do outro) é, como sempre, brilhante: aparentemente, ninguém estava disposto a segurar as exportações portuguesas, por o risco ser visto como demasiado grande. Ou seja, fazer seguros às exportações portuguesas neste momento é um mau negócio. Como é um mau negócio, o Governo achou por bem ir a correr comprar esse mau negócio com o dinheiro dos contribuintes.

Mas, na realidade, o Governo não pretendia, com esta medida, responder à crise e facilitar os seguros das exportações portuguesas, pretendia, isso sim, fazer um seguro de vida para si próprio. Não pretendia comprar um mau negócio, pretendia cimentar o seu poder. Convém perceber que este negócio não foi congeminado agora, depois do PS ter tido o desastroso resultado das europeias e começar a temer pela derrota nas legislativas, mas antes dessas eleições, numa altura em que Sócrates e os seus aguadeiros nem sequer sonhavam com a possibilidade de serem corridos de São Bento.

Assim, o negócio da COSEC pretendia ser mais um exemplo da estratégia “Tony Soprano” que o governo tem seguido: há um episódio de The Sopranos, dono de uma loja de artigos de desporto, enfrenta algumas dificuldades financeiras, e pede ajuda a Tony. O seu amigo, claro, fica a dever-lhe um favor, e Tony não perde tempo a cobrá-lo (até porque o amigo não pode saldar a dívida): a loja do amigo de Tony Soprano rapidamente se torna numa plataforma para Tony e os seus “colegas” se envolverem nas mais variadas vigarices. Desde que chegou ao poder, e ainda mais desde que a “crise” rebentou, que a estratégia do Governo tem sido semelhante: Sócrates não hesita em “ajudar” esta empresa e aquela, ou o sector A e o sector B. Escusado será dizer que, tal como o amigo de Tony Soprano, estes “ajudados” ficam a “dever uma” (ou “muitas”) ao senhor Primeiro-Ministro. Ao adquirir uma participação maioritária na COSEC, o Governo pretendia ter mais um meio (a juntar à CGD, por exemplo) de condicionar os “negócios” portugueses: ao comprar a COSEC, o Governo faria com que mais um sector de actividade ficasse directamente dependente de decisões governamentais para sobreviver. Passaria a haver ainda mais gente com menos liberdade para criticar o Governo. Coisa que, provavelmente, só preocupará os socialistas depois de 27 de setembro (e só se perderem as eleições), mas que nos devia preocupar em qualquer circunstância.

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