os silogismos do professor rosas

Surpreende-nos, mais uma vez, o Prof. Cardoso Rosas. Neste artigo estabelece o seguinte silogismo: a direita portuguesa é conservadora; a direita portuguesa não é liberal; logo, o liberalismo é de esquerda. O liberalismo do Prof. Rosas fica-se por John Stuart Mill, segundo ele o “liberal” do “século 19”, John Rawls, o “liberal” do “século 20”, e esse grande doutrinador com vasta obra publicada que responde pelo nome de Barack Obama, provavelmente o maior liberal do século XXI, digo eu. Enquadramento rigoroso e exacto para um especialista em Teoria Política, como se vê.

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7 thoughts on “os silogismos do professor rosas

  1. Ricardo G. Francisco

    Caro Rui Albuquerque,

    Este é um ataque que a direita conservadora merece e com o qual devia contar.

    Estando de acordo que liberais estão claramente mais confortáveis ao lado de conservadores, não podem deixar-se nem ir a reboque nem dominar na “política real” por estes. Posições morais centralistas são usadas para condenar incoerencias a liberais, mesmo que injustamente e por associação. Um liberal pode ter convicções morais “conservadoras” no campo moral, sem implicar a sua imposição à força pelo estado. Quando o mesmo liberal está associado na política real a outros que a querem impor à força fica em uma situação insutentável e fácil de atacar: “portanto algumas liberdades podem ser sacrificadas desde que o direito à propriedade privada seja santificado”.

    Faloando da política nacional e da provável aproximação política entre liberais e conservadores est devia ter um efeito secondário. Liberais terão de reforçar o que os separa dos conservadores, nomeadamente na descentralização tambem nos costumes e moral ou nas preocupações securitárias. É que se estiverem juntos não é necessário reforçar a comunicação do que os une.

    De resto, este artigo devia alertar para uma coisa. Liberais com tantos pruridos em ter uma intervenção pública mais forte, ainda perdem esse espaço político para “liberals” do tipo EUA. De facto, acredito que esse é o caminho de médio prazo de um BE. Vão esquece-se dos seus antecendentes socialistas/comunistas e apostar na linha sexy de comunicação “liberal” que sempre atraiu a comunicação social tanto nos EUA como em Portugal.

  2. Fernando S

    “Um liberal pode ter convicções morais “conservadoras” no campo moral, sem implicar a sua imposição à força pelo estado…”

    “Liberais com tantos pruridos em ter uma intervenção pública mais forte…”
    Ricardo G. Francisco

    Afinal em que é que ficamos na recomendação aos liberais … mais ou menos “imposição à força pelo estado”/”intervenção pública mais forte” ?!…

  3. Ricardo G. Francisco

    Fernando S,

    Intervenção pública individual…pruridos em envolverem-se na política nacional.

  4. Ricardo,
    O problema é que, como diz o Rui, o Prof JCS não é um político profissional pouco versado em ciência política. Os erros grosseiros que cometer neste artigo (e em anteriores) não se podem atribuir à ignorância.

  5. Fernando S

    Ricardo,

    “Intervenção pública individual … pruridos em envolverem-se na política nacional.”

    Ok. Percebi, pelos vistos mal, que se tratava de uma maior intervenção do Estado na sociedade e na economia.

    Mas não tenho a ideia de que sejam pruridos que fazem com que os liberais não tenham tanta visibilidade e intervenção publicas (talvez tenham mais intervenção do que visibilidade) … mas sim a natural dificuldade em transmitir e em dar expressão politica a valores e praticas liberais numa sociedade ainda muito marcada pela ideia de que a “salvação” deve vir de uma providencial intervenção do Estado !

  6. “O problema é que, como diz o Rui, o Prof JCS não é um político profissional pouco versado em ciência política. Os erros grosseiros que cometer neste artigo (e em anteriores) não se podem atribuir à ignorância.”

    Pois não…

  7. Fernando S

    “De um ponto de vista histórico, o liberalismo afirmou-se como a alternativa de esquerda a um conservadorismo mais ou menos reaccionário, mais ou menos saudoso da monarquia absoluta e do Antigo Regime. Durante o século 19, antes do triunfo do socialismo, ser de esquerda ou ser liberal era a mesma coisa.”
    João Cardoso Rosas

    Efectivamente, os liberais estavam (quando estavam) nos parlamentos “à esquerda” dos defensores dos regimes monárquicos autoritários e conservadores, situados “à direita”.
    Mas os liberais reclamavam a liberdade individual em todos os campos contra o intervencionismo discriminatório dos poderes instalados defendido pelos monarquicos conservadores (na verdade até mais “restauradores” do absolutismo).
    Como o próprio Cardoso Rosas reconhece, estes “liberais” e esta “esquerda” não tinham então nada a vêr com o “socialismo”.
    Eram pelo Estado de Direito, pela igualdade dos indivíduos perante a lei, em todos os campos da vida em sociedade, da política à economia passando pelos costumes.
    Na política eram pela liberdade de expressão, pelas constituições pluralistas, pela democracia política (que os socialistas vieram a chamar “burguesa”).
    Na economia eram pelo “laisser faire”, contra o proteccionismo, contra o intervencionismo do Estado no comércio e na industria, pela concorrência, pela liberdade económica (hoje seriam chamados “neoliberais” pela “esquerda”, mesmo a mais moderada).

    Posteriormente, ao longo do século XIX, o eixo da vida política deslocou-se.
    Por um lado, uma parte dos até então liberais, que se autodesignavam inicialmente como “republicanos” e “progressistas”, aproximou-se das ideias e posições de tipo “socialista” e “revolucionário”.
    Por outro lado a área monárquica absolutista e conservadora perdeu influência e desapareceu ou passou a ser minoritária nos parlamentos.
    Os “republicanos/progressistas/socialistas” passaram a sentar-se “à esquerda”. Os “liberais”, que continuaram a defender as liberdades políticas e económicas, passaram a situar-se “à direita”.

    Mas a “nova” esquerda, socialista, nunca teve (nem quiz ter) nada a ver com a “velha” esquerda, liberal.
    De resto, a esmagadora maioria dos representantes da “nova” esquerda desde cedo se demarcou do “velho” liberalismo, e até de todo e qualquer liberalismo. Alguns ficaram-se pela defesa de uma maior intervenção do Estado na legislação laboral e social e na distribuição do rendimento. Outros deram um passo e refutaram a própria “democracia burguesa”, as liberdades políticas, e enveredaram por vias claramente autoritárias e totalitárias.
    Nalguns paises, alguns dos novos “progressistas” mantiveram a designação “liberal” em oposição ao velho conservadorismo político e moral. O que, por exemplo, explica que nos Estados Unidos ainda hoje os “progressistas” sejam conhecidos como “liberais”. Mas, para além da persistência de alguns resíduos de origem não socialista (a liberdade individual, o reconhecimento dos direitos das minorias, etc), estes “liberais progressistas” têm muito pouco que ver com a tradição liberal (“clássica”).
    Ao longo do século XX, a “esquerda” passou a ser cada vez mais sinónimo de “anti-liberlismo”. O marxismo, nas suas diferentes versões, passou a ser a sua principal e a mais forte referência ideológica.

    É verdade que, desde o século XX, uma parte da esquerda evoluiu afastando-se das posições mais intervencionistas, autoritárias e iliberais da agora “velha” esquerda. Muito lentamente, em várias fases (“social democracia”, “socialismo democrático”, “nova esquerda”, etc) e com avanços e recuos. Desde a aceitação do “reformismo” em substituição da “revolução”, passando pela defesa das liberdades políticas e da democracia (“burguesas”) contra a ditadura e o totalitarismo (“proletário e popular”), até ao reconhecimento da inevitabilidade e da necessidade do mercado e de alguma liberdade económica ao lado de um sector público importante e de uma uma forte política redistributiva.
    Não há dúvida de que se tratou de uma evolução de retorno a uma certa dose de “liberalismo”. Mesmo quando foi feita de modo envergonhado e sem o pleno reconhecimento do falhanço do “socialismo” e da validade do “liberalismo”.
    De qualquer modo, esta evolução, por bem vinda que seja, não põe fim à oposição, sempre actual, entre o intervencionismo estatal (relativamente ao qual não poucas vezes a esquerda e a direita conservadora estão de acordo) e o liberalismo.
    Não sabemos o que nos reserva o futuro, mas o que é certo é que, nos dias de hoje, o liberalismo não é de esquerda !!

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