o liberalismo é de esquerda?

Gladstone%20&%20Disraeli

A Inglaterra política do século XIX é inteiramente dominada por duas figuras ímpares: William Ewart Gladstone e Benjamin Disraeli. Ambos nascidos para a política no seio do Partido Conservador, os tories, haveriam de romper politicamente em 1855, quando Gladstone abandonou aquele partido para ingressar no Partido Liberal, os whigs, do qual se tornaria líder, mais tarde. A razão da desavença foi pessoal e de princípios. Gladstone não suportava Disraeli e este retribuía-lhe igual estima chamando-lhe frequentemente “Tartufo”. Numa carta endereçada a Lord Derby, Disraeli escreveu:”A posteridade fará justiça a Mr. Gladstone, esse maníaco sem princípios, a essa extraordinária mistura de inveja, vingança, hipocrisia e superstição”. Nos princípios, Gladstone era liberal, enquanto Disraeli era conservador e proteccionista.

William Gladstone foi primeiro-ministro por quatro vezes, entre 1868 e 1894. Disraeli foi-o também, mas apenas por duas vezes, entre 1868 e 1880. Um e outro exerceram os mais elevados cargos políticos do seu tempo, o primeiro como torie e, mais tarde, enquanto whig, e o segundo mantendo-se como membro do Partido Conservador, que conquistou a pulso e graças a inúmeras dissensões e rupturas internas.

Enquanto Ministro das Finanças, cargo que exerceu por quatro vezes, e Primeiro-Ministro, Gladstone aboliu mais de mil tarifas existentes no Reino Unido, que representavam cerca de 95% da totalidade desses encargos. Reduziu os impostos sobre a renda a uma quota única de 1,25%, sendo que tinha por objectivo eliminá-lo completamente. Liberalizou o comércio, reduziu as tarifas alfandegárias, liberalizou as relações comerciais com a França, o velho inimigo, e também com a Áustria, a Bélgica e os estados alemães. Extinguiu ou reduziu toda a espécie de impostos e tarifas que conseguiu (imposto de renda, como já referido, as taxas sobre o papel, o lúpulo, a madeira, a pimenta, o açúcar, o vinho, entre muitos outros). Em política internacional, Gladstone era um pacifista nato, tendo advogado a arbitragem internacional para a resolução de conflitos, no que foi absolutamente inovador e também muito contestado internamente, no seu país. Em matéria de costumes e de religião, Gladstone era um crente profundo, achava-se predestinado pelo Altíssimo (“O Todo-Poderoso parece estar a poupar-me e a apoiar-me em vista de algum grande propósito, por mais que eu me julgue indigno. Glória a seu nome”, escreveu ele, um dia, no seu diário, a propósito das suas intenções pacificadoras da Irlanda). A quem o queria ouvir costumava afirmar: “Ah! A noção do pecado, eis a grande carência da vida moderna”.

Benjamin Disraeli era um político profundamente distinto do seu rival. Proteccionista, aumentou impostos, atacou a legislação liberalizadora do comércio internacional, legalizou e protegeu os sindicatos, criou diversa legislação laboral, tendo fixado a duração diária do período de trabalho, regulamentado o trabalho feminino e infantil, e produziu inúmera legislação de proteccionismo social. Na política externa, era um expansionista defensor do Império Britânico, e tudo fez para o manter e aumentar a sua área de influência, sobretudo em África e na Ásia. Não era um homem de convicções religiosas profundas, nem lhes recorria para fundamentar as suas ideias políticas.

Gladstone e Disraeli são, assim, dois modelos paradigmáticos do liberalismo clássico, o primeiro, e do conservadorismo, o segundo. Gladstone reduziu o poder do estado e do governo, deu mais liberdade e responsabilidade individual aos ingleses, foi um cosmopolita no domínio das relações internacionais. Disraeli tinha da sociedade a noção conservadora de que tudo nasce na política, e que esta deve ser protagonizada por um estado robusto e interventor. Gladstone procurou conservar o liberalismo clássico e o estado mínimo que tinham permitido a Revolução Industrial, e Disraeli foi um profeta e o primeiro construtor do Estado Social inglês.

Nesta medida, cabe aqui perguntar, invocando as afirmações contidas no artigo de hoje, no i (O liberalismo é de esquerda), do Prof. João Cardoso Rosas, se o liberalismo clássico de Gladstone se situava, utilizando os critérios que utilizou, mais à esquerda ou à direita, colocando a mesma questão para o conservadorismo de Disraeli. Quando Cardoso Rosas escreve que Durante o século 19, antes do triunfo do socialismo, ser de esquerda ou ser liberal era a mesma coisa”, estaria a pensar nos whigs e nos tories de Gladstone e Disraeli? Parece-me bem que não.

7 pensamentos sobre “o liberalismo é de esquerda?

  1. José Manuel Moreira

    Rui:
    Excelente, como sempre. Mas talvez não valha a pena gastar tanta tinta com tantas razões doutrinais e históricas… O que justifica este tipo de escrita é mesmo o ser “vendável”, o ter boa procura: a começar pelos mentores do jornalismo de conveniência.
    Temos de admitir que a questão essencial para este autor (como para o outro) talvez não seja a busca da verdade (inconveniente) mas a da mentira mais conveniente. Como fazer render a ética igualitária que suporta um status quo que é fruto de um ambiente de ignorância que tem tanto de atrevida como de consentida. Um estado de coisas que em outros tempos tentei superar com o livro “Liberalismo: entre o conservadorismo e o socialismo”. Só que o que continua a dar é o “ou”, não o “e” … basta ver em que termos se trata de novo a velha e maldita equivalência entre fascismo e comunismo.
    JMM

  2. Eu não sei o que o Cardoso Rosas estava a pensar, mas se eu fosse dizer que “Durante o século 19, antes do triunfo do socialismo, ser de esquerda ou ser liberal era a mesma coisa” seria possivelmente esse exemplo (ou algo parecido) que iria dar.

    Aliás, quando vejo/leio pessoas a argumentar “o fascismo/nazismo/etc. são estatistas, logo são de esquerda” uma das coisas que me vêem à cabeça costuma ser exactamente “mas esta gente conhece a história do Partido Conservador inglês?”

  3. Rui,

    O texto está excelente. No entanto, a pergunta final continua a não fazer sentido para mim. Por que raio interessa situar o liberalismo à esquerda ou à direita? Esta diferenciação fez sentido numa determinada altura da história, na Rev Francesa, agora não me parece que faça. Com a existência de tantas, tantas ideologias a dominar o espectro político dos nossos dias (comunistas, socialistas, liberais, conservadores, social-democratas, democratas-cristãos, and so on) a distinção entre esquerda e direita e a distinção entre partidos de esquerda e partidos de direita não é mais que um exercício fútil. De que interessa se se considera o liberalismo uma ideologia de esquerda? Se acham que é, pois muito bem. O que interessa é a ideologia em si e não o inútil rótulo.

    Cumprimentos

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