Pontes à Direita

jazzamemuito1

No último ‘Descubra as Diferenças’, o João Távora diz às tantas que é quase um dever de patriotismo a defesa de medidas liberais para a economia. O João é, acho que o posso definir desta forma, um conservador. Ora, quando um conservador como o João, alerta para a necessidade do liberalismo, creio que acerta em cheio na possibilidade e urgência da união entre a direita liberal e conservadora.

Sejamos claros: o liberalismo implica responsabilidade, o que pressupõe mais direitos e poder para as famílias, grupos e associações diversas, mais os indivíduos que a  compõem. Ora, esta nova realidade que o liberalismo origina é ‘ouro sobre azul’ para os conservadores. Menos estado e mais liberdade de escolha é a única possibilidade de os conservadores viverem a bem com o próprio estado. A unida maneira de viverem numa sociedade onde os outros não lhes impõe modos de vida e valores que não partilham. A diversidade liberal bem pode ser uma mais-valia conservadora.

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17 pensamentos sobre “Pontes à Direita

  1. “o liberalismo […] pressupõe mais direitos e poder para as famílias, grupos e associações diversas”

    Erro! O liberalismo pressupõe mais direitos e poder para os indivíduos e não para as famílias, grupos nem associações. O individualismo é o cerne filosófico do liberalismo.

  2. “Menos estado […] é a única possibilidade de os conservadores viverem a bem com o próprio estado”

    Não, porque para os conservadores o Estado é essencial e necessário para imporem os seus valores aos outros.

    É, por exemplo, necessário um Estado que proíba as lésbicas de acederem à procriação medicamente assistida, é necessário um Estado que impeça o suicídio medicamente assistido, é necessário um Estado que obrigue os embriões humanos a ser conservados em congelador per secula seculorum, etc.

  3. André: Em relação à esquerda, a mais conservadora e a “so called” moderna, penso ter já percebido o que pretendem. Ambas são paternalistas e ambas dependem do estado para praticamente tudo. Embora a conservadora defenda mais igualdade para as massas; e a moderna, uma nova elite com acesso ao poder (financeiro e político) que impõe às massas a sua cultura. Mas para as massas não há cá luxos como esse da liberdade individual nem excentricidades como a escolha individual. Todos contribuem para o estado que começa a controlar a sua vidinha (em nome da segurança, etc. e tal).

    Em relação à direita as fronteiras são muito mais difíceis de definir. E só estou a considerar aqui a direita que aceita as regras do jogo de uma democracia de qualidade. É que é muito redutor considerar uma nova política “liberal” apenas no sentido económico e o resto ser abrangido por um controle, aqui tendencialmente conservador (valores tradicionais, etc.)

    A tentação do poder elitista e paternalista, na cultura portuguesa, é o principal obstáculo, a meu ver, à construção de uma cultura liberal. Uma coisa é certa: é mais saudável definirem-se fronteiras muito claras. E nesse caso não sou a favor de juntar tudo, dar-lhe o rótulo “liberal” e esperar que passe aos olhos de quem anda atento. É que numa sociedade que se quer moderna e com uma democracia de qualidade os cidadãos são tratados como adultos, têm direitos, conhecem-nos e defendem-nos.

  4. Marcos Garrido

    @ Luís Lavoura:

    Uma pequena correcção: para o liberalismo, o princípio do individualismo não significa o primado da razão e direitos de uma única pessoa. Pode ser extensível a terceiros desde que todos os envolvidos o aceitem voluntariamente ou, o que é o mesmo, sem que haja sequer sombra de coerção. A esse propósito recomendo-lhe a leitura de um ensaio de Hayek sobre o tema que poderá encontrar no “Individualism and Economic Order” do dito autor.

  5. “Uma pequena correcção: para o liberalismo, o princípio do individualismo não significa o primado da razão e direitos de uma única pessoa. Pode ser extensível a terceiros desde que todos os envolvidos o aceitem voluntariamente ou, o que é o mesmo, sem que haja sequer sombra de coerção.”

    Exacto. O liberalismo correctamente entendido não nega a natureza social do homem. Limita-se a tentar minimizar o uso da coerção nas relações sociais.

  6. Plenamente de acordo desde que não se confunda direita conservadora com aquele aborto laranja para onde parecem descambar muitos dos pseudo-liberais…

  7. “Uma pequena correcção: para o liberalismo, o princípio do individualismo não significa o primado da razão e direitos de uma única pessoa. Pode ser extensível a terceiros desde que todos os envolvidos o aceitem voluntariamente ou, o que é o mesmo, sem que haja sequer sombra de coerção. ”

    Penso que isso não contradiz o Luis Lavoura – no fundo, estão a dizer que as familias, associações, etc., só “têm” os direitos que os individuos lhes deleguem. Ou seja, só os individuos têm direitos.

    O problema é aplicar este raciocinio à instituição “familia” (uma posição individualista consequente implicaria, p.ex., aceitar o “direito” dos filhos abandonarem os pais).

  8. “O problema é aplicar este raciocinio à instituição “familia” (uma posição individualista consequente implicaria, p.ex., aceitar o “direito” dos filhos abandonarem os pais).”

    Não Miguel. Basta aceitar que até determinada idade, a capacidade de exercício dos direitos não deve ser plena.

  9. João: Li os posts que linkou e que me levam a manter as minhas dúvidas iniciais em relação a uma hipótese de reorganizar a direita a partir de valores e objectivos comuns.
    1 – Numa possível reorganização deveriam, a meu ver, definir-se fronteiras e esclarecer objectivos de forma clara.
    2 – Considero redutor considerar-se uma cultura de direita liberal, mas só a nível económico. No seu terceiro link, quando aborda valores sociais e culturais, está implícito um controle elitista e paternalista. Ora, numa democracia de qualidade a cultura liberal não pode ficar apenas reduzida ao plano económico, implica a abertura e tolerância, a liberdade individual, a possibilidade de escolher. E isto só se verifica numa sociedade aberta e tolerante, onde cada indivíduo tem o direito de se movimentar livremente e de se identificar com uma de diversas hipóteses de organizar a sua vida.

    A direita pode encontrar uma nova arrumação, mas será para todos mais saudável definir bem a sua lista de valores. Dar um rótulo “liberal” sem se ser verdadeiramente liberal a não ser no plano económico, parece-me mais um equívoco. Além disso, o tempo é imaparável: novas formas de organização social, novas formas de comunicação, novas formas de criar e produzir, etc. O desafio está precisamente aí: na criatividade e flexibilidade de que a direita for capaz.

  10. Cara Ana: “numa democracia de qualidade a cultura liberal não pode ficar apenas reduzida ao plano económico, implica a abertura e tolerância, a liberdade individual, a possibilidade de escolher. E isto só se verifica numa sociedade aberta e tolerante, onde cada indivíduo tem o direito de se movimentar livremente e de se identificar com uma de diversas hipóteses de organizar a sua vida.” a presunção de que a Ana se está a referir questões “fracturantes” da moda, não é suficiente para eu obstar à sua opinião. O principio geral é o de que a liberdade de cada um termina onde começa a do outro.

  11. João: Li a sua resposta com muita atenção mas também com alguma perplexidade.
    Onde é que me estou a referir a “questões fracturantes”? São fracturantes porque nos são impostas. E ainda por cima de forma insidiosa. Logo, quem limita alguma liberdade de escolha é quem impõe seja que modelo for.
    Mas é significativo que tenha logo referido essas “questões fracturantes”.

    Se concordo com a evangelização do laicismo militante em vigor? Não.
    Com a insidiosa introdução à socapa de novos valores a que eu chamo “cultura de morte” (aborto, eutanásia, etc.)? Não. Ainda por cima numa sociedade fragilizada como a nossa?
    Se concordo com a forma como se desrespeitam pessoas, profissões e instituições? Não.
    Com a crise de valores que deveriam ser a referência de uma democracia de qualidade? Não.
    Descrédito e desconfiança generalizados que só podem contribuir para a domesticação social, uma forma moderna de escravatura? Não.

    Mas não concordo com nenhum tipo de evangelização. Defendo a capacidade de cada um escolher. E para isso precisamos de uma informação de qualidade, de legislação adequada e de tolerância à diferença.

    João, pode ser ingenuidade minha, mas pensei que fosse consensual que liberdade individual era um valor a defender. E que numa democracia de qualidade não há necessidade de se andar a impor seja o que for a quem quer que seja.
    A minha esperança é essa mesmo: que a direita que se diz liberal se adapte rapidamente aos desafios dos tempos actuais. Que não são apenas económicos.
    Com os meus cumprimentos

  12. João: O equívoco até pode ter sido meu. Reli o terceiro link para confirmar:
    “… De resto, caro Duarte, quanto “ao de César ou de Deus”, não me parece que proteger os valores de defesa da vida e da família sejam opções unicamente religiosas. Para mais desconfio que a maioria dos portugueses tolera mal a libertinagem no ensino, as revoluções nos costumes, os histerismos fracturantes, e, last but not the least, identifica-se ou no mínimo respeita a Igreja Católica e a sua obra. …”
    Penso que é aqui essencialmente: embora também defenda a defesa da vida da família, aceito o direito de outros optarem por outras escolhas pessoais. A tolerância necessária que ser liberal implica. Este direito à liberdade de escolha não devia ser uma questão fracturante. Devia ser naturalmente aceite. O problema é que ficou tudo minado com a evangelização socialista.

    O entusiasmo da minha resposta revela mais o interesse que o tema me desperta do que um possível incómodo com a divergência. Apenas quis contribuir para o debate que considero essencial (e até acho que já o referi noutros debates aqui, há meses atrás).
    Gostei do debate e acho que a divergência é saudável, desde que consigamos clarificar bem o que defendemos.
    (E sim, tenho de treinar um tom mais fleumático, já vi.)
    Cumprimentos e obrigada pela sua amabilidade

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