O Futuro e a Dívida

João,

O futuro é dentro de um ou dois anos. Quando confrontado com um défice galopante do orçamento de estado, o governo terá dois caminhos: reduzir despesas (improvável, perante a cultura indígena) ou aumentar impostos. Qualquer início de recuperação será sobrecarregado por uma mais limitada capacidade de consumo e investimento e voltaremos às taxas de crescimento anémicas e à divergência com o resto da União.

Como referes, «Endividar não é mais do que acreditar que o crescimento futuro não só é possível como irá permitir pagar as dívidas». De facto é assim. Mas o contexto não é irrelevante. A capacidade de endividamento não é ilimitada; depende da situação de partida. Quem já está muito endividado tem menos crédito do que quem o está menos. À medida que a dívida acumulada aumenta, quem empresta irá exigir mais retorno, para cobrir o risco, ou então garantias reais. No caso da dívida pública esta garantia advém da possibilidade do governo aumentar impostos para liquidá-la. Mas também aqui há limites: O aumento da carga fiscal acaba por reduzir o crescimento do produto, pelo que a receita acaba por diminuir; e com ela diminui também a capacidade de endividamento.

Para haver esse “crescimento futuro” não podemos continuar com défices da balança comercial de 10% do PIB, agravados com défices do orçamento de estado. Não há crescimento que permita gerar rendimento capaz de pagar os juros de uma dívida acumulada destas, quanto mais repagar a dívida em si. Há, por isso, uma fase que tem de ser necessariamente anterior a esse crescimento: Poupar; acumular capital para investir.

Ao problema do consumo excessivo, acresce outro. Com taxas de juro artificialmente baixas, a percepção da efectiva rentabilidade dos investimentos é errada. Se este problema já é mau no sector privado, então no público é catastrófico. As taxas de desconto usadas na avaliação de projectos no estado são ridiculamente irrealistas (baixas), ignorando completamente a noção de custo de oportunidade do capital. Por exemplo, o custo de uma terceira autoestrada Lisboa-Porto será provavelmente mais alto do que as duas primeiras e o seu retorno necessariamente inferior. Neste cenário, o risco de que o crescimento eventual resultante dos projectos seja insuficiente para pagar aos credores é enorme. E nem estamos a entrar aqui com o facto de que parte dos investimentos, por exemplo para o TGV ou para o novo aeroporto, vão direitinhos para importações de bens não transaccionáveis.

Às tantas afirmas que «Dívida para consumir é irresponsável e insustentável». Certíssimo. Adicionalmente, há que considerar que dívida para investir em projectos com retorno insuficiente também é irresponsável e insustentável.

23 pensamentos sobre “O Futuro e a Dívida

  1. Comentário do Miguel Morgado ao post do João Galamba

    “João, desculpa lá esta que é cruel, mas a tua resposta ao Miguel Botelho Moniz reflecte muito bem todas as tuas confusões relativamente ao que chamas “mercado”, “neoliberalismo” e outras coisas mais ou menos equivalentes. Acusas os “insurgentes” de padecerem de uma doença ideológica e de “acreditarem” no “mercado”. Tu também acreditas: não no “mercado”, mas na varinha de condão que políticos mais ou menos inconscientes dizem possuir.
    Mas na tua posta houve um momento de fraqueza bastante esclarecedor. Dizes que o MBM acredita na “destructive creation”. Nesta coisa que não sei o que é garanto-te que o MBM não acredita (e nem sequer o conheço). É que se querias fazer uma referência à expressão de Schumpeter ela diz exactamente o contrário, como não podia deixar de ser: “creative destruction” – expressão que muito provavelmente Schumpeter foi buscar a Nietzsche. Um engano é um engano, mas neste caso veio à superfície aquilo que me apetece chamar um “preconceito”: o de que o mercado produz, não bens, não riqueza, mas antes caos e destruição. Ora, esse “preconceito”, meu caro, é tão-só “preconceito” ou até crendice. Pode ser útil aqui e ali para tocar a rebate as tropas da igualdade, da compaixão e da solidariedade social, mas não passa de crendice.”

  2. Sérgio

    “para tocar a rebate as tropas da igualdade, da compaixão e da solidariedade social”

    Escrever isto á guisa de defeito diz muito acerca do caracter do autor. Que eu nem conheço.
    É triste ver tanta incapacidade de empatizar com o resto da espécie humana. E o que é mais interessante é que muita desta corja diz-se religiosa, cristã…

  3. lucklucky

    Como as pessoas não “empatizam” ao nível que deseja toca a forçá-las a empatizar. Onde fica a sua empatização?

  4. Sérgio

    luckylucky, nós já sabemos que você só fica feliz quando uma parte significativa da população viva em barracas e for comum a morte por falta de acesso a cuidados de saúde. Desde que o PIB aumente devido aos 10% mais ricos, que importa que os outros andem a morrer pelas ruas…

  5. “há que considerar que dívida para investir em projectos com retorno insuficiente também é irresponsável e insustentável.”

    Hmm, isto para quem considera real o conceito de investimento público, certo?

    Cuidado com as concessões…

  6. Vasco Ribeiro

    “É triste ver tanta incapacidade de empatizar com o resto da espécie humana.”
    É mais triste ainda a hipocrisia daqueles, que se intitulam “empatizantes”, de não acreditar na “bondade” humana e privar a liberdade de todos os que não “empatizam” da mesma forma.

  7. Sérgio

    Bondade? E se o Vasco fosse á merda? Os países que mais se aproximam dos vossos ideais de mercado são países em que a maior parte da população sofre para benefício de uns poucos. Em que o pouco estado que há é nas policias e forças armadas que protegem esses mesmo interesses.
    Hipócritas são os “liberais” da sua laia que são apenas liberais no que lhes convém. Ter um PIB alto num país á custa de uma minoria que enriquece não vale nada.

    Sabe, muito sinceramente adorava que se implementassem todas as ideias deste blog. Por mim era já amanhã e estou a falar a sério.

    Só para ver o que acontecia depois de amanhã. 🙂

  8. joão

    ««Os países que mais se aproximam dos vossos ideais de mercado são países em que a maior parte da população sofre para benefício de uns poucos.»»

    Gostava de ver a lista desses países liberais em que a maioria do povo sofre…

    É claro que nem todos podem ser felizes como os venezuelanos, os cubanos, os coreanos do norte, etc.

  9. «Bondade? E se o Vasco fosse á merda?»

    Quão rapidamente cai a máscara do “humanitário”.

    «Os países que mais se aproximam dos vossos ideais de mercado são países em que a maior parte da população sofre para benefício de uns poucos.»

    Dê lá um exemplo, sff. E o que é um “ideal de mercado”? Em vez de dizer disparates, era melhor começar por verificar as definições dos termos que usa.

  10. Chile. Bolivia (lá eles adoram companhias das aguas). USA (onde 40 milhões de pessoas não têm acesso a cuidados de saúde)…
    E se por humanista entendes florzinha de estufa bem podes esquecê-lo. E disparates dizes tu meu animal.

  11. Eó João, mete o comunismo no cú. Essa cassette que vocês, os faxos envergonhados, repetem já cansa. Para denunciar animais do vosso calibre não é preciso ser comunista.

  12. A máscara de “humanitário” caiu ainda mais do que pensava. Até já não se dá ao trabalho de disfarçar com nicks diferentes. E finíssimo, como sempre.

  13. Sérgio

    Nope, o Zé um nick que uso que estava no auto-fill do meu browser. E o Migas e Carlos Fernandes, educaçãozinha como a vossa, despenso. É a educação dos hipocritas pseudo-intelectuais. A esses eu respondo com um saudável e bem português: ide-vos foder!

  14. Sérgio

    E lá por eu defender que todos têm direito a tratamento médico na doença, não implica que outros não mereçam uns valente pares de bofetadas. Depois podem ser tratado gratuitamente, claro.

  15. Sérgio

    Oh Miguel, agora que me chamou a atenção eu vejo que fui muito grosseiro.
    Por favor: não me proiba de postar aqui no Insurgente que eu não saberia o que fazer á minha vidinha.
    Eu estava só a brincar. Aliás, até gosto imenso deste blog porque ensina a lidar com a populaça e a escrever bem. Já agora gostava também de pedir desculpa ao Helder por tê-lo mandado para a puta que o pariu no post anterior.
    Enfim, peço novamente desculpa por ter poluído este blog de gente tão nobre e educada com a minha rudeza e boçalidade. Mas eu sei que num mundo verdadeiramente livre eu serei capaz de me elevar acimas das minhas limitações. E tudo graças ao Insurgente.
    Bem hajam…

  16. «ide-vos foder!»

    «não implica que outros não mereçam uns valente pares de bofetadas»

    Ah! A coragem e bravura do invertebrado escondido por trás do ecrã e teclado.
    Claro que no caso do Sérgio/Zé/Whatever os milhares de quilómetros até à Holanda também ajudam.

  17. Sérgio, Sérgio, Sérgio, ainda agora acabou o ano e já se esqueceu do que aprendeu nas aulas de Formação Cívica? Tss, tss, tss…

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