Ingenuidade marxista

A tensão, inerente ao marxismo, entre a visão crítica da natureza humana, por um lado, e o optimismo irreflectido sobre a possibilidade de líderes providenciais para o movimento da classe trabalhadora, por outro, tem na vida pessoal de Eleanor (filha de Karl) Marx um exemplo caricato.

Eleanor manteve uma longa relação com Edward Aveling. Nunca casaram. Instituições burguesas não seriam a cup of tea da filha mais nova do revolucionário pai do comunismo. Na verdade Edward era casado, embora separado, com uma rica herdeira. There’s communism for you. Viria contudo a enviuvar; facto que, ainda assim, não levou a que casasse com Eleanor. Neste contexto, percebe-se o choque desta no dia em que descobriu que o seu companheiro de longa data tinha casado secretamente com (ainda mais) outra mulher. O imprestável, confrontado com a sua traição, propôs a Eleanor um “pacto de suicídio”. Terá fornecido o cianeto e galantemente sugerido «ladies first». Ela matou-se; e ele saiu porta fora, indo à sua vida. Edward era um convicto ateu, mas deve ter pensado estar perante justiça divina ao morrer poucos meses mais tarde, de doença.

7 pensamentos sobre “Ingenuidade marxista

  1. “A tensão, inerente ao marxismo, entre a visão crítica da natureza humana, por um lado, e o optimismo irreflectido sobre a possibilidade de líderes providenciais para o movimento da classe trabalhadora,”

    Desde quando é que o marxismo tem:

    a) uma visão critica da natureza humana?

    e

    b) optimismo irreflectido sobre a possibilidade de líderes providenciais para o movimento da classe trabalhadora?

    A respeito de a), penso que a visão marxista é que a natureza humana não existe verdadeiramente é que é apenas o fruto das condições socio-económicas (ou seja, é uma visão nem optimista nem pessimista)

    A respeito de b), o leninismo sim, acredita que a consciência revolucionária tem que ser introduzida no proletariado pelos intelectuais da classe média, mas o marxismo (e recorde-se que o exemplo usado é a filha de Marx, não a de Lenine ou a de Trotsky) não – creio que a tese marxista é a de que a consciência de classe é principalmente o fruto da evolução das relações de produção e das lutas entre as classes que tal origina (não da acção de “grandes homens” – isso seria exactamente a visão anti-marxista).

  2. Miguel Botelho Moniz

    😀

    Relax, Miguel. Este post cai na categoria de brincadeira bem humorada, não de análise séria do pensamento de Marx.

    Primeiro, não se pode inferir o pensamento de Marx em função da ingenuidade da filha, por mais “marxista” que ela fosse. Segundo, aceito perfeitamente que quando uso “marxismo”, estou a referir-me a correntes inspiradas em Marx, nomeadamente o leninismo, mas não ao pensamento do próprio. Creio, inclusivé, que ele terá um dia dito algo do género “eu não sou marxista” 😉

    De igual modo, a questão da natureza humana está relacionada com os aspectos egoístas e de propriedade individual, que admito não serem específicos do pensamento de Marx, mas comuns à várias correntes socialistas (algumas não-marxistas).

  3. A. R

    Marx era burguês e viveu parte do tempo com heranças de familiares. A filha que fala seria a que ele nunca teve a coragem de perfilhar?

  4. «A filha que fala seria a que ele nunca teve a coragem de perfilhar?»

    Nope. Eleanor foi a sexta filha da mulher legítima de Marx, Jenny von Westphalen.
    Filha do Barão von Westphalen 😆

  5. Fernando S

    “…[]o marxismo, … a visão crítica da natureza humana …”
    Miguel Botelho Moniz

    « … a visão marxista é que a natureza humana não existe verdadeiramente é que é apenas o fruto das condições socio-económicas …”
    Miguel Madeira

    Eu diria que nenhuma visão, incluindo a marxista, nega a existência de uma “natureza humana”.

    A visão marxista, como de resto diz bem o Miguel Madeira, considera-a como sendo “apenas o fruto das condições socio-económicas”, do modo de organização e funcionamento da sociedade. Increve-se numa antiga tradição holista (as partes derivam do todo). Ou seja, a lógica mental e comportamental (a “natureza”) de um indivíduo (um “humano”) depende sobretudo do lugar e da função que ele ocupa na sociedade, em particular na sua dimensão determinante, a economia. Assim, pegando num exemplo simples, numa sociedade “capitalista”, a “natureza” de um indivíduo é distinta consoante ele seja ou não detentor e utilizador de meios de produção, “burguês” ou “proletário”. É o que se também se designa por “polilogismo” (lógicas plurais). É desta distinção, no exemplo acima perfeitamente antagónica, que é deduzido o conceito central de luta de classes.
    O que a visão marxista nega, como as outras perspectivas holistas, é a ideia de um indíviduo genérico (abstrato), universal (transclassista), dotado de uma lógica e de uma prática comportamental que não é determinada pela sua posição de classe no todo social, e que lhe dá, por isso, um grau de autonomia determinante relativamente ao contexto social em que se move (“responsabilidade individual”). Ou seja, o “todo social”, seja ele qual for, apenas pode existir e formar-se pela acção de multiplos individuos com estas caracteristicas essenciais.
    Esta outra visão da natureza humana, metodológicamente “individualista”, é a liberal.

    Suponho que quando o Miguel Botelho Moniz diz que o marxismo tem uma “visão crítica da natureza humana” está a pensar no facto de esta corrente partir do princípio de que numa sociedade classista os indivíduos terem “naturalmente” fins e comportamentos “desviados” da igualdade e da solidariedade humanas. Numa sociedade capitalista são inevitávelmente egoistas e oportunistas. Mesmo os pertencentes às classes sociais oprimidas e exploradas acabam por aceitar e reproduzir esses mesmos valores na medida em que são vítimas de uma forma de “alienação”. Apenas nas sociedades não classistas, nas primitivas (“o bom selvagem”) e nas comunistas (“o homem novo”), no princípio e no fim do “processo histórico”, a natureza humana se liberta universalmente (já que desaparecem as classes) daqueles defeitos “burgueses” e realiza a sua essência igualitária e solidária.
    Neste sentido, a tal visão “crítica” (negativa, mais do que péssimista) sobre o estado passado e actual da natureza humana, não é de facto incompatível, antes pelo contrário, com uma perspectiva profundamente generosa e optimista sobre as origens e o futuro da humanidade !

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