Bancos

Vem hoje no Diário Económico que o Governo e o Banco de Portugal não só esperam como esperam promover fusões bancárias. Eu julguei que grande parte do problema da corrente crise tivesse sido o facto de as maiores instituições bancárias serem “demasiado grandes para falir”, o que muito simplesmente significa que a elas não se aplicam as regras de mercado. Não em termos legais, mas efectivos, já que à menor ameaça sistémica segue-se uma intervenção pública salvadora. Bancos ainda maiores não me parecem solução para nada, a não ser (mais uma vez) para os salvar no imediato. O Carlos Novais anda há anos (quase sozinho em Portugal) a falar das discussões “austríacas” em torno da “banca livre” e das reservas de 100%. Tenho sérias dúvidas de que fosse praticável mudar radicalmente a lógica da banca nos últimos dois séculos (não só porque não seria facilmente entendido como porque poderia ter efeitos muito fortes de contracção da economia – uma espécie de cold turkey financeiro), mas não tenho dúvidas de que o único caminho para as nossas economias não permanecerem reféns da irresponsabilidade da banca (central e comercial) é apontar para esse tipo de soluções.  Pelo menos, pelo menos (para não lhes pedir que adoptassem o “programa austríaco”), o Governo e o Banco de Portugal não deveriam preocupar-se com fusões, mas antes em aumentar legalmente os rácios de capital para níveis de segurança mais efectivos. E deveriam também pensar em proibir certo tipo de transacções financeiras promotoras de “alavancagens” insustentáveis: elas não correspondem senão à criação de moeda por outros meios.

4 pensamentos sobre “Bancos

  1. lucklucky

    Os Saxões do outro lado do Canal:

    UK public borrowing has soared to the highest on record for the month of May, underlining the dire state of the country’s finances, official figures showed on Thursday.

    http://www.telegraph.co.uk/finance/economics/5567064/UK-public-borrowing-hits-record-as-tax-receipts-slump.html

    “Britain’s budget deficit hit £19.9bn in May compared with £12.2bn in the same month in 2008, according to figures from the Office for National Statistics. Public sector net borrowing reached £30.5bn for the first two months of the financial year – more than double the level in 2008.”

    “This is almost £150bn higher than a year ago and equivalent to 54.7pc of the UK’s entire annual economic output – the biggest proportion for more than 30 years.”

  2. CN

    Agradeço a simpática referência ao Luciano.

    No actual sistema seria practicável se os Bancos Centrais injectassem tanta moeda quanto necessária para os DO passarem a estar cobertos com 100% de reservas (diga-se que forma forçlados a fazê-lo nesta crise como o vão ser obrigados a fazer na próxima). E depois mudavam o requerimento para 100%.

    A partir desse ponto, toda a nova moeda (isto apenas para satisfazer os que acham que a quantidade de moeda tem necessáriamente de subir – o que não tem, mas é outra discussão) poderia ser emitida não por emissão de crédito mas via compra de activos incluindo dívida pública.

    Assim, o sistema bancário em si não faria crescer a moeda via concessão de crédito. Poderia existir mais ou menos inflação de preços mas menos ciclos económicos (menos bolhas de activos e investimento e sobre-consumo/sub-poupança).

    O actual pensamento económico incluíndo monetaristas, pensam que o único problema é inflação de preços, mas existem sempre dois efeitos:

    – aumento de preços via maior quantidade de moeda por monetização directa de dívida pública

    – ciclos económicos induzidos pela baixa taxa de juro que advém da capacidade dos bancos criarem moeda para concederem crédito em vez de serem obrigados a captar poupança, induzindo a bolhas de investimento, preços de activos que não são captados nos índices de preços no consumidor.

    O primeiro é debatido o segundo, há muito tempo discutido por “austríacos” (desde Mises em 1912 no seu Tratado de Moeda e Crédito).

    Claro que o melhor era mesmo deixar o ouro e prata poderem ser usados livremente e espontaneamente como curso legal monetário (trocas e pagamento de dívidas e contratos).

  3. CN, isto dava uma discussão muito interessante para ter ali em baixo à volta de uns caracois e umas bejecas. Mas não é a forma mais prática e rápida de acabar com isto simplesmente fazer um repricing do Ouro para que seja possível liquidar toda a dívida e abrir caminho a partir daí?

    Imaginemos um banco com 100Kg de ouro, e com 100 milhões de liabilities – assets (sejam DO, DP ou divida) não fica o problema resolvido fazendo um repricing do ouro para 1 milhão por Kilograma? É certo que pode haver um primeiro impacto inflacionista que ajudara, à maneira de Krugman, a liquidar a dívida. Mas o caminho fica aberto a um novo padrão ouro, sem reservas fraccionais e sem a necessidade de aumentar a massa monetária. Penso que apesar do choque ser grande, se nos deixarem em paz, a ordem financeira, económica e social será de curta duração.

    Eu acredito que vamos passar por uma solução deste tipo antes do final da crise, Bernanke até já disse abertamente que admirou muito o roubo de FDR aos americanos e consequente desvalorização do metal amarelo.

  4. Luís Lavoura

    “proibir certo tipo de transacções financeiras”

    Proibir???!!!

    Isso é palavra que não se costuma ver neste blogue.

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