Se o PSD ganhar as legislativas, como poderá governar?

(também publicado aqui)

A vitória do PSD nas europeias do passado domingo fez com que muito boa gente, que antes achava que Manuela Ferreira Leite nem uma gripe conseguiria apanhar, começasse a achar que há uma possibilidade de o governo mudar de mãos nas legislativas que se avizinham. No entanto, a “discussão” continua a girar em torno de saber se Ferreira Leite será ou não capaz de vencer as eleições. Esse tem sido o grande “debate” acerca da liderança do PSD: saber se a senhora tem “jeito” ou se comete demasiadas “gaffes”; se é “capaz de mobilizar” ou se não será “demasiado cinzenta”; se “passa bem” em televisão ou se é “demasiado velha”. Ora, muito mais importante do que essa questão de saber se a vitória do PSD é ou não possível, é a de saber o que vai o PSD fazer se chegar ao poder. E talvez mais importante ainda (e ainda mais ignorada) é uma outra questão, a de saber como a forma de chegar ao poder irá condicionar o seu exercício.

Se o PSD chegar ao Governo, e independentemente de ter maioria absoluta ou não, enfrentará enormes dificuldades: chegará ao poder com um défice público monstruoso, com um país profundamente endividado, e em plena crise, numa altura em que esta se fará sentir de forma muito mais acentuada; chegará ao poder com o desemprego a subir, com os rendimentos das pessoas a baixarem, numa conjuntura em que o Estado, para resolver os problemas do défice público, terá de aumentar os impostos ou diminuir a despesa (ou promover uma letal combinação das duas). Com maioria absoluta ou sem ela, em coligação ou governando sozinho, o PSD está condenado a provocar descontentamento junto do eleitorado. Com maioria absoluta ou sem ela, em coligação ou sozinho, o PSD terá muito pouca margem de manobra para fazer aquilo que será necessário fazer. A forma como o PSD chegar ao poder, ou seja, a forma como acabará por conduzir a sua campanha nas legislativas, será decisiva para o PSD conseguir conquistar alguma, mesmo que escassa, dessa margem de manobra necessária para levar a cabo políticas que serão inevitavelmente impopulares.

Os responsáveis do PSD terão de colocar a si próprios uma questão: “como é que podemos pedir aos eleitores um mandato para promover políticas de austeridade numa conjuntura em que elas serão particularmente penosas para esse eleitorado”? Infelizmente para os responsáveis políticos do PSD, eles terão apenas dois caminhos possíveis, nenhum deles particularmente seguro. Poderão, numa primeira hipótese, pedir um autêntico “cheque em branco” ao eleitorado. Ou, em alternativa, poderão pedir um mandato concreto para determinadas políticas. Como já disse, não me parece que qualquer um deles (e estes são mesmo os únicos possíveis) ofereça grandes garantias de sucesso.

Comecemos pela segunda hipótese, a procura de um mandato concreto para a aplicação de uma série de medidas, apresentadas de forma específica e detalhada, antes das eleições. Teria, obviamente, uma grande vantagem, a de deixar claro a todos quais as dificuldades que iriam ser enfrentadas, diminuindo assim o efeito de “choque” que a introdução dessas medidas forçosamente teria. Explicando antecipadamente aos eleitores que um corte de tantos por cento na àrea tal, que a subida deste imposto ou daquele, durante um determinado período, teriam esta e aquela consequência, e eles antecipadamente sufragassem essa política, a revolta contra essa série de medidas seria certamente menor.

O problema desta estratégia de campanha começa precisamente na possibilidade de os eleitores não sufragarem essas políticas. Afinal, aquilo que irá forçosamente complicar a sua introdução uma vez no poder é precisamente a sua impopularidade, e há o risco de a manifesta necessidade de as aplicar não ser suficiente para convencer as pessoas a estarem dispostas a sofrer as consequências: há anos e anos que vivemos com as consequências de um défice excessivo, e mesmo assim há por aí muita cabecinha que prefere viver na ilusão de que nada precisa de mudar.

O leitor poderá argumentar que a vitória do PSD nas europeias mostra como as pessoas já estão dispostas a aceitar a realidade, e que a tentação da ilusão da vida acima das nossas possibilidades é cada vez menos sedutora, precisamente por iludir cada vez menos. Admito (e espero) que tenha razão. Mas mesmo que o eleitorado corra a votar em quem lhe prometa nada mais que sangue, suor e lágrimas, esta estratégia tem um outro problema. Como não será difícil de perceber, a procura de um mandato concreto implica a realização de compromissos concretos. Ora, o problema da crise actual é precisamente a sua imprevisibilidade: não sabemos quanto tempo ela vai durar, que consequências terá, e muito menos quando terá quais consequências. Todo e qualquer compromisso que o PSD assuma para com o eleitorado nas semanas anteriores à votação poderá, pura e simplesmente, perder a validade um ou dois meses depois. Ou seja, a vantagem que a estratégia eleitoral de procura de um mandato concreto para a realização de políticas concretas (a de o eleitorado saber previamente o que esperar, para que o PSD não tivesse de o desagradar ainda mais) rapidamente desapareceria quando a receita apresentada já não respondesse aos novos males entretanto surgidos. Nessa ocasião, o Governo do PSD perderia credibilidade, e a dra. Ferreira Leite teria ainda mais dificuldades para apresentar as políticas que essas novas condições ainda mais difíceis exigiriam.

Isto poderia conduzir a que se aceitasse que a outra estratégia eleitoral possível, a de pedir um “cheque em branco” ao eleitorado, fosse mais aconselhável. E de facto, se o PSD conseguisse demonstrar aos eleitores que o descalabro governativo de Sócrates foi de tal ordem que as dificuldades a enfrentar nos próximos anos nem sequer são previsíveis, esse mesmo eleitorado estaria à partida predisposto a aceitar toda e qualquer política que visasse resolver os problemas deixados pelo socratismo. E precisamente por avisar para o sangue, o suor e as lágrimas, sem especificar as respectivas quantidades, o PSD não correria o risco de ser ultrapassado pelos acontecimentos: sem mandatos concretos, não há compromissos concretos. Desde que o descalabro socialista ficasse devidamente demonstrado, e as pessoas ficassem previamente preparadas para a hipótese de qualquer tipo de política poder ter de ser introduzida, o Governo poderia facilmente adaptar-se às necessidades do momento.

Mas também este caminho não está isento de problemas. A começar por também ele não ser garantia de vitória eleitoral. Para ser bem sucedida, a estratégia do “cheque em branco” implicaria um ataque brutal ao PS e ao Governo de Sócrates. Por muito que Sócrates não seja propriamente amado pelos portugueses, nada garante que eles apreciassem uma campanha tão violenta como esta teria de ser. Aliás, o generalizado desprezo popular a quem “está sempre a dizer mal”, em vez de “trabalhar em conjunto” para “o bem do país”, poderia significar que essa estratégia seria particularmente condenada eleitoralmente.

Mas admitamos que essa estratégia conseguiria ultrapassar esse sentimento contrário à maledicência. Mesmo que o PSD ganhasse as eleições com essa estratégia, nada garante que ela oferecesse boas condições de governação. Pois o tal ataque brutal que seria necessário para descredibilizar o PS, ao ponto de oferecer o tal “cheque em branco” ao PSD para fazer o que quer que fosse necessário, correria o risco de acabar por descredibilizar, não apenas o PS, mas toda a classe política, tendo em conta a má imagem que todos os nosso governos têm junto da opinião pública. Procurando descredibilizar o PS, o PSD correria o risco de, mesmo ganhando as eleições, se descredibilizar a si próprio. E descredibilizando-se a si próprio, deixaria de ter as condições para, no poder, fazer o que quer que fosse necessário.

Não é garantido que o PSD ganhe as eleições, tal como não é garantido que o PSD saiba o que é necessário fazer. Mas o pior é que, mesmo que ganhe as eleições, e mesmo que tenha plena consciência das políticas que necessitará de promover, o PSD, faça o que fizer para chegar ao poder, venha a ter condições para o exercer convenientemente. Não é uma perspectiva animadora. Mas seria bom que, lá para os lados da São Caetano, não estivessem iludidos acerca do que os espera, e que na medida do possível, se fossem preparando para o que aí há de vir.

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7 pensamentos sobre “Se o PSD ganhar as legislativas, como poderá governar?

  1. José Barros

    1) Antes de mais acredito que o PSD teria grandes vantagens em apresentar um governo sombra. Se há uma vantagem nítida que o actual PSD tem sobre o PS é em matéria de quadros próximos dos respectivos líderes. As pessoas que acompanham Manuela Ferreira Leite – exemplifiando, Paulo Mota Pinto, Sofia Galvão, Paulo Rangel, António Borges – são infinitamente mais capazes do que a equipa ministerial de Sócrates. Apresentá-los, bem como os respectivos currículos, seria um forma de contrastar competência, sendo esta uma palavra-chave a que muitos portugueses – não eu propriamente – dão muito significado em matéria governativa.

    2) A par de um governo-sombra, Manuela Ferreira Leite tem de apresentar políticas sectoriais específicas que vão ao encontro das necessidades de áreas como a educação, saúde, justiça. Darei um exemplo: não há hoje professor que não se queixe da burocracia asfixiante com que é confrontado, bem como, muitos deles, da falta de autonomia nas escolas e do peso desproporcionado que as imposições ministeriais têm na vida escolar. Este é o tipo de reivindicação que, mais do que justificada, seria tolo não ser seguida por um novo governo de centro-direita. Por outras palavras, se o PSD se der ao trabalho de ouvir as pessoas no terreno, verificará que – ao contrário do que o discurso anti-corporativismo, por vezes, mas nem sempre, certo, quer fazer crer – muitas das suas reivindicações das classes profissionais são justas e até, com frequência, tendencialmente liberais.

    3) Especialmente antes das eleições, ouvir as classes profissionais não significa, nem tem nada que ver com políticas de diálogo do género de Guterres. Nem, muito menos, significa não fazer reformas que possam ser difíceis. Do que se trata é de não hostilizar as classes profissionais, muitas vezes com o aplauso de uma direita ignorante, comprando guerras a torto e direito, como este governo fez, para, ao fim ao cabo, aplicar políticas desajustadas da realidade em causa, sem qualquer efeito benéfico. São vários os exemplos desde o fim das férias judiciais, passando pela separação das carreiras dos professores entre titulares e não titulares, só para falar de algumas. A questão é mesmo de estilo governativo: o autoritarismo é uma tentação já provada por muitos governos no pós-25 de Abril sem qualquer sucesso visível. Portugal é um país pequeno, pelo que não faz sentido pensar-se que a distância governantes – cidadãos é um mal necessário. Pelo contrário, mais sentido terá seguir os exemplos de países nórdicos, mais caracterizados por uma política de proximidade. Se isso, no imediato, não é possível, nomeadamente porque implicaria uma mudança radical no sistema de governo, há, pelo menos, vantagens em aplicar no dia a dia uma prática política de governação que compense essa distância.

  2. lucklucky

    “O leitor poderá argumentar que a vitória do PSD nas europeias mostra como as pessoas já estão dispostas a aceitar a realidade,”

    O PSD só teve 31% dos votos numa altura em que o Governo Socialista está mais ou menos desgraçado.

    O PSD não terá chances de Governar nem que ganhe as eleições com maioria absoluta sozinho. Durão Barroso desistiu ao primeiro embate com a RTP. Os media não só com o BE mas também com o PS a fabricar a narrativa que estará em vigor não deixam hipótese alguma ao PSD a não ser que este esteja disposto a uma Guerra a todos o níveis isto se for mesmo para mudar alguma coisa e não for um Sócrates II e mais do mesmo como suspeito. Quem quiser mudar alguma coisa tem de estar disposto a partir para a Guerra se for necessário e como o Caso Berlusconi demonstra e Sá Carneiro também do outro lado valerá tudo.

  3. José Barros

    Os media não só com o BE mas também com o PS a fabricar a narrativa que estará em vigor não deixam hipótese alguma ao PSD – Lucklucky

    O próximo governo, se não tiver, como é provável que não tenha, maioria absoluta, terá de provocar novas eleições e dramatizar a situação por forma a obtê-la. Se os primeiros sinais de governação forem razoáveis, será provável que a obtenha. Quanto aos “media” é uma batalha perdida para a direita; qualquer governo de direita terá de governar, apesar da opinião publicada. Se Cavaco conseguiu, outros também o conseguirão. Como aliás se prova quando se ganha eleições contra sondageiros e socretinos. Importante é o que se faz com o governo. O PSD terá de ser humilde se não quer ter o mesmo destino que Sócrates.

  4. Bom artigo. Em vez de se deixar enredar por questões menores e de lana-caprina, tenta indagar sobre a viabilidade de um governo PSD ou de direita, PSD/CDS.

    Na minha modesta opinião, um governo PSD não terá grande viabilidade. Como bem refere o Lucklucky, a imprensa dominada pelo PS e pelo BE não darão descanso a qualquer governo de direita, tal vai ser a pressão deles.

    Por outro lado, o país está num ponto que, a qualquer momento pode ocorrer um cataclismo económico, se os investidores internacionais deixarem de financiar a Republica Portuguesa e os portugueses. Uma nova fase do credit crunch está agora a surgir, com o colapso do mercado de crédito da dívida soberana. Os países estão a endividar-se de tal forma, que não vai haver capacidade para absorver tanta dívida, quando ainda por cima o risco inflacionista exige um prémio maior nas emissões.

    Uma vantagem de um governo liderado por Ferreira Leite é a de que ela não prometerá nada que não possa cumprir. E ela pouco promete e o que prometeu até é um bom sinal, como a abolição da invasão da privacidade por parte do Estado, com o uso de chips nas viaturas.

    É importante que ela não prometa medidas que sabe que nunca poderá cumprir. E é importante que ela se proponha a resolver dois problemas portugueses: baixa produtividade e elevado endividamento. Mas isso implicará, como foi bem dito, sangue, suor e lágrimas.

    Mas bom artigo. Um artigo sobre o conteúdo e não sobre a forma. (Espero que com este elogio, a minha mensagem não seja censurada, como a última. ;))

    por anti-comuna

  5. Pingback: Se o PSD ganhar as legislativas, como poderá governar? « O Insurgente

  6. ze

    o PSD tera de ir á guerra de que foge á muito , é isso ou o país mais tarde trata do assunto na rua , quanto mais tarde pior , nao só vamos estar mais pobres como vai ser muito dificil recuperar e ate podemos estar em pleno governo BE-PCP que nao tera problemas de consiencia em meter o exercito e policias a matar a populacao .

    o socialismo morreu , o marxismo é uma mentira reles , o controlo do estado de toda a actividade é o caminho para o atrazo , aumento da corrupçao e desistencia de quem cria riqueza .. . . a resposta é e sempre foi o oposto : liberdade

    estava a brincar , é obvio que o PSD nao consegue fazer esta guerra , nao esta na sua genetica ….. a malta por vezes esquece que o PSD nao é de direita .

    pior que nao ser de direita é ser de uma esquerda crente no estadismo e controle de tudo e de todos , ultra regulacao que ja chega as casas de banho dos portugueses , basta ir a uma camara municipal tratar de uma licença para nos lembrar-mos disto .

    não o problema do país nao é o PS , o PS é apenas fruto da ignorançia politica alimentada pelo PSD , o PSD é sempre social-democrata , logo nao diz que é impossivel viver em social-democracia sem um certo patamar de riqueza e com um bom crescimento economico , falta-lhe a direita a governar para depois gozar de abundancia e fingir que é possivel sempre .
    ja para o PS é tudo muito mais facil : quando nao governa é marxista , quando governa é social-democrata ,quando há dinheiro é esbanjador bonacheirao , quando nao há é, autoritario esbanjador , o final de tudo isto é obvio , um país a empobrecer a um ritmo assustador , apesar da UE nos dar bilioes .
    já o resultado politico é que foi uma desagradavel surpreza , esta a sair ao controlo PSD – PS e a ir para a canalha comunista , tambem pode acontecer o mais facil que é o PS assumir-se marxista no governo e ai o resultado é igual ao dos comunistas , apenas lhe cai a mascara . esperemos nao chegar ao ponto de estar-mos aqui a calcular quantos milhares ou milhoes de mortos esses fdp vao fazer em Portugal .

    e a culpa é todinha do PSD .

  7. terá de aumentar os impostos ou diminuir a despesa (ou promover uma letal combinação das duas).

    -O PSD ganhou as eleições em 2002 com a promessa do choque fiscal. Chegado ao governo aumentou impostos, de então para cá não mais votei PSD, até poderei fazê-lo nas próximas legislativas se acreditar que Manuela Ferreira Leite não irá novamente cometer tamanha fraude. Para ver o PSD implementar políticas socialistas, mais vale manter o PS no governo. Antes de optarem pela repitição da estratégia de 2002, lembrem-se do resultado da mesma, derrota monumental nas europeias em 2004, e fuga de Durão Barroso para Bruxelas.

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