Simples e incisivo

A ideia, para mim estúpida, mas que é, essencialmente, nacionalista e anti-globalizante, de que salvar a GM com dinheiro público se justifica porque se estão a salvar postos de trabalho, esquece não só que os lugarzinhos que se salva em Detroit são lugares que não serão criados noutros pontos do globo, mas, principalmente, que se está a premear a incompetência e a punir quem foi mais inteligente. Esta merda é tão simples quanto parece. É mesmo uma das poucas questões em que se pode ser simplista sem faltar à nuance. A GM está na falência porque faz maus carros, carros que as pessoas não querem. Uma coisa é gastar dinheiro dos contribuintes a salvar da miséria e da humilhação as pessoas com menos soluções próprias para se manter com dignidade a si e aos seus, outra, protuberantemente diferente, é gasta-lo para que se continue a produzir cacos de metal inuteis. Se querem dar esmolas, que o façam às claras.

maradona

17 pensamentos sobre “Simples e incisivo

  1. “…salvar a GM com dinheiro público se justifica porque se estão a salvar postos de trabalho, esquece não só que os lugarzinhos que se salva em Detroit são lugares que não serão criados noutros pontos do globo…”

    Isto não é a minha opinião é apenas a aplicação duma máxima do nosso caríssimo CN à economia – “minding your own business”.
    Ou seja, se o dinheiro público é dos contribuintes americanos e os postos de trabalho salvos também são, o que é que nós temos a ver com isso ?

    Nos outros “pontos do globo”, eles que se “minding your own business”.
    Ou seja que se lixem!

    PS.: Não vale, dizer que o dinheiro é Chinês, porque se é, é “dado voluntariamente” aos americanos.
    .

  2. Francisco P.

    A falta de visão na economia, da parte do espectro da direita continua presente.

    O problema da GM não foi a porcaria de carros que produziu, nem o metal que não interessa a ninguém, nem as emissões que os seus SUV produzem às toneladas de CO2eq.

    Foi, e continua a ser, a utilização de fundos tóxicos e de activos imaginários resultante de uma gestão criativa que apenas foi possível devido à desregulação evidente, em que os USA foram o principal alvo. Por outras palavras, utilizavam lucros que não tinham e activos que supostamente possuíam para investir em outros produtos semelhantes.

    A falência de um dos elementos fundamentais e mais sólidos dos USA – uma das imagens da maior economia do mundo – é consequência do neoliberalismo e da abertura desenfreada, sem controle, de investimentos sem bases de sustentação.

    Hoje negoceia-se mais em papel que em produtos – exige-se regulação.
    Por muito que custe à direita.

  3. “se o dinheiro público é dos contribuintes americanos e os postos de trabalho salvos também são, o que é que nós temos a ver com isso?”

    Não temos (nós portugueses) obviamente nada a ver com o que o governo federal decide fazer com o dinheiro dos contribuintes americanos. Não nos impede, no entanto, de comentar um disparate deste género. Além do que se começarem a existir uma série de movimentos proteccionistas (que em pequena parte esta decisão exibe) então ficaremos todos pior… e aí sim, já tem a ver connosco…

  4. “Hoje negoceia-se mais em papel que em produtos – exige-se regulação.
    Por muito que custe à direita.”

    Depois desta exposição algo surrealista gostava de saber quais as medidas de regulação que podia ter evitado a falência da GM e se, para ele, os extremo peso dos custos laborais na GM também resultaram da desregulação.

  5. Francisco P.,

    Um verdadeiro CPC (comentário politicamente correcto). Tem todas as devidas buzzwords: fundos tóxicos, activos imaginários, gestão criativa, desregulação, neoliberalismo, abertura desenfreada, regulação…

    No entanto parece-me que poderá ter pouco a ver com o caso concreto da GM. Sem qualquer sobranceria, sugiro-lhe a leitura deste artigo: http://www.usatoday.com/money/autos/2009-05-31-gm-mistakes-bankruptcy_N.htm

    Sneak Preview:
    “Seven reasons GM is headed to bankruptcy”
    1. Not filing for bankruptcy sooner
    2. Driving incentives into the ground
    3. Killing the EV1 electric program
    4. Selling control of GMAC
    5. Ignoring Jerry York
    6. Mishandling Fiat
    7. Overreacting to the truck boom

  6. Caro LT

    Eu frisei bem que não era a minha opinião.
    Pelo contrário, eu não só concordo que é uma medida estúpida, como até acho que nos vai prejudicar a nós portugueses, visto que somos produtores de componentes.
    Foi apenas a aplicação fora do contexto duma expressão do CN, usada lá em baixo noutro assunto, para demonstrar que vivemos num mundo em que já não nos é permitido a ligeireza do “minding your own business”.
    Há que escolher uma barricada e defendê-la.
    Eu não sei o que espera a UE para manifestar o seu desagrado por uma medida destas.
    Ou antes sei, não se pode criticar o “Messias”.
    .

  7. “… que apenas foi possível devido à desregulação evidente, em que os USA foram o principal alvo.”

    Se isso é assim porque é que a hiper-regulada Europa também está no “buraco” e parece que só vai sair dele depois dos EUA?
    .

  8. “Hoje negoceia-se mais em papel que em produtos – exige-se regulação.”

    Já existe uma regulação muito eficiente para contrariar esse fenómeno (dos fluxos financeiros ultrapassarem os fluxos económicos), chama-se FALÊNCIA.
    Pelo que eu tenho visto só a esquerda se opõe a isso…
    Ainda não vi ninguém de Direita defender a salvação do BPN ou do BPP, por exemplo.
    .

  9. CN

    “A falência de um dos elementos fundamentais e mais sólidos dos USA – uma das imagens da maior economia do mundo – é consequência do neoliberalismo e da abertura desenfreada, sem controle, de investimentos sem bases de sustentação”

    Tenho a impressão que é culpa dos outros fabricantes (tipo Japoneses e não só), esses malandros, que produzem carros mais baratos e/ou de maior qualidade e/ou mais adequados às preferências dos clientes.

    Nesse sentido tem toda a razão: é consequência do neoliberalismo.

    Por outro lado, os verdadeiros culpados são os … consumidores(esses malandros).

  10. lucklucky

    Hehehe Fernando P. Suponho que isso seja sarcasmo não? É que é só possível a não ser que seja simplesmente ignorante. Para já não falar da dificuldade psicológica que a esquerda tem com os falhanços. Nunca mais metem na cabeça que os erros e os imponderáveis fazem parte da vida humana.

    A regulação ás custas dos Americanos não fez a GM falir mais cedo:

    “When the L.A. Times wrote, the labor cost differential versus a Japanese plant was about $2,000 per car. Twenty years later, the cost difference was about $2,000 per car. Today’s lament is, “The bankers have benefited from a bailout, so why shouldn’t auto workers?” But they have, they have — for decades. For the business model described above could not possibly have survived otherwise.

    Chrysler was bailed out directly with government loan guarantees; the Big Three all benefited from Reagan era “voluntary” quotas on Japanese imports to prop up domestic car prices. But these were temporary fixes. For more than 40 years, a 25% tariff has kept out foreign-built pickup trucks even as a studied loophole was created in fuel-economy regulations to let the Big Three develop a lucrative, protected niche in the “passenger truck” business.

    This became the long-running unwritten deal. This was Washington’s real auto policy.

    http://online.wsj.com/article/SB124096698307566437.html

    “A GM está na falência porque faz maus carros, carros que as pessoas não querem.”

    A GM até poderia ter feito bons carros, as pessoas é que os não queriam.

  11. Gostei do “espectro da direita”. Terrível esse espectro, de fugir.

    “Há que escolher uma barricada e defendê-la.” – Mentat

    Exactamente. Há uns anos O Insurgente era acusado disso mesmo, de ser uma “barricada” e assim. Pois seja: bar-ri-ca-da! (as sílabas eram assim?) que isto não está para frouxos.

  12. Francisco P.

    Hiper-regulada Europa? Desconheço em que países funcionam essa hiper-regulação no mercado de capitais, inclusive em Portugal.
    Sei, no entanto, de algumas medidas da Comissão para a desverticalização e o unbundling, principalmente no sector energético. Excelentes medidas para quem visa o chamado bem -estar social, em primeiro lugar.
    No meu entender o binómio gestão/participação e o modelo de orientação empresarial dai decorrente, continua a ter os seus custos e a regulação teria aqui um papel fundamental, principalmente no saneamento das contas da empresa e, objectivamente, na hora laboral mais cara do sector, nos rebates, num tecto de emissão de CO2 eq a cada 100km, controlar as operações financeiras da GMAC, enfim, na antecipação da possibilidade de enviar milhares de pessoas para o desemprego e destruir a cadeia económica a montante.
    Acho que não vale a pena recordar a falência da Enron e do seu seguimento – económico e politico.
    Onde falham as auditorias, devem entrar os reguladores – o principal problema consiste na falta de informação que as empresas fornecem para se protegerem das asneiras que fazem. Quem quer mostrar a careca?
    Eu apenas digo: regulação mais eficaz com accoutnability da gestão e não com desresponsabilização no quadro de emprego e na avalanche social que resultaria de nada fazer, da falência.
    Não vou comentar o senhor Mentat, em relação à direita e ao BPN e BPP, só quem é cego é que não vê que, os da direita, nem precisam de falar.

  13. Francisco P.

    A resposta é simples, e a regulação também poderia ter sido:

    Regular a aplicação de fundos de pensões e de seguros de saúde apostados em bolsa, ou investidos em empresas já falidas como a Delphi ou outra vendidas como a GMCA. Porventura, com esta regulação, onde a GM diz ter sido fully co-operating, não se perderia agora, o que milhares teriam por direito de descontos, o tempo respectivo de trabalho.
    Regular, a chamada gestão financeira criativa, que permitiu jogar lucros especulados e ao mesmo tempo falsear prejuízos – esta situação é medida comum e geral na maior parte dos grandes albergues de “criativos”.

    Talvez, e apenas talvez, não se gastaria tanto dinheiro dos contribuintes “a salvar da miséria e da humilhação as pessoas com menos soluções próprias para se manter com dignidade a si e aos seus” (este era, inevitavelmente, o caminho dos sem pensões e o dos sem seguros de saúde, se ocorre falência).
    Ou talvez se gastaria o mesmo em agências de regulação.
    Agora não se saberá.
    Uma coisa é certa: o mercado, como está, desregula-se em constantes exemplos.

  14. Francisco P.

    O ser de esquerda prende-se, não com a admissão superficial e desresponsabilizada dos erros de gestão nem com o desprezo dos imponderáveis, mas com o apoio a quem é mais tangível a esses danos.

    A verdadeira diferença entre os espectros consiste exactamente nisto : à direita no abandono, à esquerda no apoio a quem trabalhou, cumpriu e em nada tem que penar pelos erros que outros cometeram.

    Para mim, esta é a verdadeira ignorância.

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