Viver no Extremistão

Na sua primeira crónica no jornal I, João Cardoso Rosas “espanta-se” que “tantos continuem agarrados ao seu socialismo, ou ao seu liberalismo, ou ao seu conservadorismo, como se nada se tivesse passado no ano de 2008”: as “visões ideológicas” da “esquerda socialista” e da “direita conservadora”, diz Cardoso Rosas, são de uma “pobreza” tal que não lhes “permite compreender a crise e não permitirá enfrentá-la”.

De facto, no debate político corrente, tem sido ignorada uma questão prática que deveria estar no centro das discussões acerca da “crise”: o impacto da crise (e das tentativas de a resolver) na margem de manobra dos governos. Tal como uma Suécia com um “modelo social” já pouco sustentável optou, em 1992, por empregar dinheiros públicos na salvação dos seus bancos, Estados já muito endividados optaram agora por endividarem-se ainda mais para “salvar” o sistema financeiro internacional. Esta dívida ou é paga com subidas de impostos intoleráveis para populações que já entregam metade do seu rendimento ao Estado, ou com dinheiro que “cresça nas árvores” (mas que irá valer cada vez menos), ou seja, ou perderemos qualidade de vida por sermos sobrecarregados com impostos ainda mais elevados, ou por termos de lidar com a inflação a que uma expansão monetária nos condenaria. A alternativa a estes dois tristes cenários é apenas uma: enfrentar a realidade da insustentabilidade do nosso querido “modelo social europeu”, eliminando os sorvedores de dinheiros públicos que põem em causa o nosso futuro. A crise, e as respostas à crise, orbigar-nos-ão a escolher entre o empobrecimento progressivo e a dureza das reformas, e essa é uma escolha (difícil) que o discurso político tem ignorado por completo.

Mas, e a mensagem do artigo de Cardoso Rosas é precisamente essa, a atitude da “esquerda” e da “direita” perante a crise não peca apenas pelo seu irrealismo prático e pela sua falta de consciência acerca das implicações da conjuntura. Mais grave é a desadequação do seu enquadramento ideológico à realidade que a “crise” revelou: ela pôs a nu algumas características das nossas sociedades que, muitas das vezes, são completamente ignoradas no debate ideológico, mesmo a nível “conceptual”.

O que a crise nos mostrou foi a confirmação de que vivemos naquilo a que Nassim Nicholas Taleb chamou de “Extremistão”: um mundo de maiores possibilidades, mas em que as perdas têm maiores consequências; um mundo em que se tivermos sorte (e enquanto tivermos sorte) poderemos enriquecer para além da nossa imaginação, mas no qual, com um bocadinho de azar, podemos perder tudo de um dia para o outro; um mundo de imprevisibilidade, em que o resultado das nossas acções depende de muitos factores, não só fora do nosso controlo, como fora da nossa capacidade de compreensão; o mundo em que o “acidental”, o improvável, não só tem mais impacto, como é mais comum.

Veja-se o que se passou no mercado imobiliário, e que esteve na origem da “crise”: inúmeros investidores foram apostando continuadamente em produtos finaceiros relacionados com o valor das casas. Enquanto a bola foi caindo no número apostado, a aposta rendeu. Mas mais tarde ou mais cedo, a bola teria de cair noutro lado. Isso aconteceu quando surgiram os primeiros beneficiários do “sub-prime” a não conseguirem pagar as suas prestações: tal como a sua entrada no mercado permitira, ao aumentar a procura de casas, inflacionar o seu preço, a constatação de que eles não tinham bens para adquirir essas casas levou à sua súbita desvalorização, bem como de todos os títulos que nelas se “apoiavam”. Enquanto foram tendo sorte, todos enriqueceram muito, do mais pobre (que pôde comprar casas que não podia pagar) ao mais rico (que lucrou com os seus investimentos). Quando um deles começou a ter azar (quando os pobres de Detroit deixaram de poder pagar as prestações da sua casa), todos perderam muito: bancos começaram a falir, e a crise foi-se alastrando pelo mundo fora.

Para os críticos do mercado livre, esta é uma “economia de casino” que entrega o destino de todos à “especulação bolsista”. Antes fosse uma “economia de casino”: Se eu atirar um dado, sei que a probabilidade de calhar 3 é de 1/6. Numa aposta no sistema financeiro, as probabilidades não só são infinitamente piores para o apostador, como este não tem forma de saber quais elas são: é como se se apostasse num número da roleta, e o resultado não dependesse do funcionamento regular do mecanismo, mas antes de para qual o lado e com que força milhões de indivíduos a fariam rodar.

Se as coisas são assim, porque é que as pessoas correm esses riscos tão grandes? Poder-se-ia argumentar que, racionalmente, escolhem correr esse risco por saberem que, se forem bem sucedidos, serão muito bem sucedidos. Mas uma atitude racional perante riscos tão grandes seria correr poucos riscos, seria precaver-se da possibilidade de uma aposta deixar de funcionar. Ora, o que esta crise mostrou, para além de que as nossas sociedades estão muito mais expostas ao “acidental” (por ele simultaneamente ter mais impacto e ser cada vez mais comum), foi que nós não somos tão racionais assim, que as nossas decisões são tão ou mais informadas pelos nossos “espíritos animais” do que pelo nosso julgamento racional.

Há uma famosa experiência, levada a cabo pelo psicólogo Solomon Asch, em que ele dava a uma pessoa dois quadros, um com uma linha, outra com três linhas de tamanhos diferentes, pedindo-lhe que dissesse qual das linhas do segundo quadro tinha o mesmo tamanho da linha do primeiro quadro. Obviamente, as pessoas respondiam correctamente. Mas de seguida, Asch dizia-lhes que essa não havia sido a resposta dada por outros inquiridos. Ao fim de alguma insistência, a maioria das pessoas acabava por mudar de resposta, da que haviam julgado certa para a que julgavam errada. Os seres humanos, em geral, parecem não confiar no seu próprio julgamento quando este entra em contradição com o que acham ser a opinião do resto da sociedade. E tendemos a modelar o nosso comportamento e as nossas escolhas pelo comportamento que observamos nos outros: toda a gente via nas casas o que de mais seguro podia haver no mercado financeiro, e apesar de inúmeros artigos alertando para a bolha imobiliária e para a iminente explosão da dita, as pessoas continuaram a apostar nesse mercado e a bolha continuou a aumentar.

Como viver no “Extremistão”? Quais serão os arranjos políticos adequados a seres humanos que nem sempre se comportam de forma racional? Como se devem organizar politicamente seres humanos cujas acções podem ter um impacto devastador nas ciondições de vida uns dos outros, especialmente quando muitas dessas acções resultam de pura imitação (o que significa que a asneira, e ainda por cima uma asneira que pode ter grande impacto, será copiada por outras pessoas)?

Uma resposta possível é a de que, precisamente por as pessoas fazerem asneira, por as pessoas tomarem más decisões e tenderem a copiar as decisões (mesmo que más) dos outros, os arranjos políticos devem procurar limitar a possibilidade das pessoas fazerem essas escolhas erradas. Esses arranjos políticos deveriam assim prever uma maior regulação das actividades das pessoas, impedindo-as de apostar em determinados números e procurando impedi-las de copiar as respostas erradas. Mas e se esse “Grande Regulador” estiver errado? E se as apostas que ele entende autorizar forem as mais arriscadas (e portanto, de consequências potencialmente mais devastadoras em caso de perda)? E se ele der a resposta errada em relação a quais das linhas são do mesmo tamanho, e nos impedir de dar a resposta certa? Afinal, não foi isso que aconteceu nesta crise? Não foi a aquisição de casas por parte de quem não as podia pagar promovida pelo poder político (os já famosos Fannie Mae e Freddie Mac foram criações governamentais para dar aos americanos mais fácil acesso ao crédito para a compra de habitação)? Não obrigou o governo americano, através da acção do Fannie Mae, do Freddie Mac e do HUD, vários apostadores (bancos) a avançarem dinheiro a outros apostadores (os beneficiários do “sub-prime”) que não poderiam saldar a dívida, e assim, por todos eles apostaram no mesmo número (o mercado imobiliário), inflacionando o valor dessa aposta (e portanto aumentando o seu risco e a gravidade da perda)?

A outra escolha passa por aceitar a natureza do Extremistão e a forma como as decisões humanas são tomadas, e correr o menor número de riscos possível na configuração dos próprios arranjos políticos. Precisamente por os riscos de qualquer decisão serem enormes, não só para quem a toma como para todos os outros, deveremos limitar, não o número de pessoas que tomam decisões, mas o número de pessoas sujeitos a um só decisor: se eu e o meu vizinho fizermos duas apostas diferentes, pode acontecer que eu perca, mas que ele ganhe. E mesmo que o facto de eu perder possa ter impacto sobre o ganho dele, o que é verdade é que ele ganhou alguma coisa, minorando o impacto que a minha perda possa ter nele; se o “Grande Regulador” fizer uma aposta em nome dos dois, ambos vamos perder o mesmo, sem nada que sirva de almofada a qualquer um de nós. E sim, é verdade que a nossa tendência para copiarmos as respostas que os outros dão significa que, muitas vezes, estamos a copiar respostas erradas. Mas também significa que, outras vezes, estamos a copiar respostas certas. Se um “Grande Regulador” der as respostas por todos nós, ou decidir qual o leque de respostas admissíveis, todos beneficiaremos quando ele tiver razão, mas o impacto de uma resposta errada será também muito maior, porque todos estarão errados.

O que a “crise” de 2008 mostra é que a imprevisibilidade do nosso mundo, e a irracionalidade de algumas das nossas decisões, são factores que não podemos dispensar ao pensarmos acerca de como deverão ser os nossos arranjos políticos. Mas devemos considerar ambos igualmente, e levá-los a sério: deveremos perceber que todos podemos fazer escolhas erradas, e perceber que qualquer escolha pode ter consequências imprevisíveis. E que por isso, será melhor que o processo de escolha seja o mais disseminado possível, para que ninguém possa escolher por todos, para que o impacto de uma escolha errada seja o menor possível.

12 pensamentos sobre “Viver no Extremistão

  1. “Como viver no “Extremistão”? Quais serão os arranjos políticos adequadas a seres humanos que nem sempre se comportam de forma racional? Como se devem organizar politicamente seres humanos cujas acções podem ter um impacto devastador nas ciondições de vida uns dos outros, especialmente quando muitas dessas acções resultam de pura imitação (o que significa que a asneira, e ainda por cima uma asneira que pode ter grande impacto, será copiada por outras pessoas)?”

    Um Estado que regulasse pouco (pelas razões que o Bruno Alves aventou) mas que redistribuísse muito (para compensar os riscos em que os individuos incorrem tendo pouco poder para os controlar)?

  2. lucklucky

    “apesar de inúmeros artigos alertando para a bolha imobiliária e para a iminente explosão da dita”

    Não houve inúmeros artigos. Aliás eu penso que uma das falhas foi da informação. Acreditou-se demasiado na (não)informação pensando que estava tudo bem.

    As bolhas existirão sempre, é natureza humana investir na aquilo que “está a dar”(formação do consenso) e também é a única maneira de ter máximo de eficiência, sem testar/fazer não se sabe os limites do Mercado/Tecnologia. Aparece uma nova tecnologia ex:Computadores logo inúmeras lojas abrem para vender computadores, certamente abrirão mais lojas do que o mercado aceita logo algumas vão falhar. Formou-se um bolha e rebentou. O problema é quando as bolhas se tornam demasiado grandes. Isso normalmente só acontece porque se formou/induziu um consenso alargado: as casas não descem de preço, excesso de confiança na finança, jornais ou por causa da regulação: todos têm de se comportar de determinada maneira.
    Períodos prolongados de crescimento aumento o risco de formação de uma bolha uma vez que tendem a desaparecer os cépticos e a formar-se consensos mais alargados.

  3. Filipe Abrantes

    Qual o problema? Não há tanta gente agarrada ao seu “moderadismo” (nunca defender posições de princípio sobre tema algum, sempre preferir o pragmatismo e realismo político)? Claro que quem sempre adoptou o moderadismo nunca se engana pois não defende realmente coisa nenhuma.

  4. Miguel,

    sem prejuízo do que este post suscita em termos de doutrina e de outras considerações que me apetece escrever, eu diria que a diferença entre o que propões e a realidade actual está no lado da regulação. O que já existe é um Estado que regula muito e redistribui muito. Ou seja, um estado mais próximo do Mediocristan.

  5. “Não houve inúmeros artigos. Aliás eu penso que uma das falhas foi da informação. Acreditou-se demasiado na (não)informação pensando que estava tudo bem.”

    Eu li muitos artigos, tanto do Paul Krugman como no lewrockwell.com (duas fontes bastante diferentes) dizendo que o crash do imobiliário estava iminente. Mas posso ser eu que tenha hábitos de leitura estranhos…

  6. Bruno Alves

    Sobre os inúmeros artigos, para além dos que o Miguel Madeira disse (que, confesso, desconhecia) a Economist andava há anos a publicar artigos sobre isso…

    Quanto á redistribuição, caro Miguel, alguma é necessária, evidentemente. Se deverá ser “muita” ou “pouca”, não sei…

  7. Houve inúmeros artigos. Até em português. No think finance já se explicava com detalhe o que ia acontecer desde o verão de 2006.

    Era altura de parar de falar na bolha do imobiliário. Será que alguém ainda acha que esta foi a crise do subprime?

    De resto, o Helder explicou bem. A única frase que faz sentido com as palavras “estado”, “não” e “regula” também lá tem “bem”, “da” e “cabeça”.

  8. lucklucky

    Têm razão. Krugman no entanto é um caso especial, mesmo depois de apontar a bolha dizia que a Fannie Mae e Freddie Mac eram sólidas.

  9. Pingback: O maravilhoso mundo da cabeça do João Galamba « O Insurgente

  10. CN

    “Eu li muitos artigos, tanto do Paul Krugman como no lewrockwell.com (duas fontes bastante diferentes) dizendo que o crash do imobiliário estava iminente. Mas posso ser eu que tenha hábitos de leitura estranhos…”

    A diferença é que Krugman não tem uma teoria sobre como a bolha se forma ou se quer é possível e o LRC tem.

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