Agressões, figuras de estilo e Toqueville

História 1

Votantes do Partido Socialista agridem Francisco Assis em Felgueiras;

História 2

Desacatos e pancadaria na Lota de Matosinhos entre apoiantes de Seabra e Narciso, mais o Presidente da Junta de Freguesia da Sra da Hora. Este caso é sintomático do que vem mais a baixo, basta procurar saber quais são as ocupações actuais dos intervenientes, mesmo após inquèrito e decisão do partido em que militam.

História 4

Um deputado do CDS PSD ameaça um do PS que lhe vai às trombas e insulta-o aos palavrões em resposta a acusações insinuações de corrupção (se bem me lembro)

História 3

Vital Moreira atravessa-se na manif da CGTP (uma espécie de braço armado do PCP) e leva nas ventas.

Desde há bastante tempo, com especial incidência a partir da altura em que o BE emergiu, que a linguagem dos líderes políticos é (voltou a ser?) acintosa, insultuosa, destinada quase exclusivamente a ofender, a diminuir e a acirrar ânimos de apoiantes contra adversários. O Governo PS e o PM então, têm demonstrado ser perfeitos especialistas na ofensa gratuita e na violência verbal. Vai desde “quem se mete com o PS leva” até ao “gosto é de malhar na direita!” para não falar das acusações recíprocas entre os deputados. O Ministro A.S.S. e Ana Gomes, por exemplo, não fazem outra coisa a não ser utilizar a violência na discussão política. Jornalistas mais engajados ou dados a provas de amor, ameaçam pegar em armas se o candidato A ou B ganhar eleições, outros insultam, amesquinham e vilipendiam (ó que palavra bonita) colegas, empresários, funcionários, professores ou juízes, conforme o gosto. Enfim. Acresce o fartar de vilanagem na utilização de recursos públicos, a aprovação da lavagem legal de dinheiro e mais as outras trezentas e oitenta e cinco mil demonstrações da maior falta de pudor, mais a insuportável disfunção da Justiça. Este é o caldo de cultura criado pelos que agora condenam, desculpam, e consideram indesculpável a atitude dos que agrediram ou tentaram agredir o apóstata Vital Moreira.

Quantos de nós, portugueses, lemos Toqueville ou mesmo o Anthony Giddens ou o Scrutton? Mil? Dez mil? Cem mil? E a democracia, por si só, é uma coisa assim tão excelente, mesmo quando nem sequer o papel instrumental é capaz de cumprir e parece divorciada do Estado de Direito? Nós, as pessoas normais para quem as questões próximas se sobrepõem a qualquer consideração teórica da vida em democracia, quando ouvimos “malhar”, ouvimos “malhar”, não ouvimos figuras de estilo. “Quem se mete com ______ leva”, leva mesmo, não é esmagado pela retórica.

Seria bom não nos esquecermos nunca que a civilização e o que ela tem de normativo, no que respeita às relações sociais, é um verniz frágil que pode não resistir à mais ligeira dificuldade. Viver numa democracia que necessariamente leva os homens vulgares, travestidos de elites, ao poder (e não há nada mais perigoso que homens vulgares com poder excessivo como é o caso português) implicaria uma ética diferente da ética republicana do Cardeal Pina Moura, do Primeiro Ministro José Sócrates ou do Pai da nacinha* Mário Soares. Uma impossibilidade, portanto. Ora os homens são homens e em época de dificuldade o primal scream troglodita sobrepõe-se ao verniz da civilização que tantos dão como adquirida. Quando um dos elementos da suposta elite leva nas ventas, leva poucas porque só colhe o que tem andado a semear. Tudo isto é de uma irresponsabilidade e de uma hipocrisia insuportáveis.

*”Nacinha” tem direitos de autor

9 pensamentos sobre “Agressões, figuras de estilo e Toqueville

  1. Caro Helder

    Não foi na sequência da história 2 que o cabeça de lista à europeias na altura, se finou?
    Eu bem digo que isto de ser candidato independente pelo PS não é coisa que faça bem à saúde, mas não me levam a sério.
    😉
    .

  2. Ainda hoje vi o vídeo, e sinceramente, já ouvi insultos com maior gravidade naquela casa de doidos que é o parlamento.

    O sr. do PSD é que me parece muito susceptível a ser contrariado.

  3. atom

    Parece que o única pessoa com identidade conhecida (devido a peculiares características físicas) que participou nos incidentes era afecta a uma força política que não o PC. Parece que a dita pessoa é bastante conhecida nos meios de esquerda de Coimbra. Como Coimbra não é uma cidade muito grande, e as pessoas proeminentes de esquerda não são assim tantas, apetece-me perguntar:
    Será que o professor VM conhecia a citada pessoa?
    Será as restantes pessoas envolvidas nos incidentes também pertenciam aos meios de esquerda de Coimbra?
    Será que também serão conhecidas do professor VM?
    Declaração de interesse: Com qualquer cabaça de lista, há muitas possibilidades de eu votar no PS, e este incidente nada modifica as minhas intenções. Porém sou muito curioso, e este incidente parece-me estranho…

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