Práticas pérfidas

Li no Jornal de Negócios que o Banif emitiu dívida garantida pelo estado, no valor de 500 milhões de euros. Segundo o jornal, «Pela garantia do Estado o Banif vai pagar 14,22 milhões de euros, dado que é cobrada uma taxa de 0,948% ao ano.»

É engraçado que, depois de José Sócrates ter referido no parlamento a natureza pérfida dos “produtos derivados”, o governo esteja no mercado a vender algo que em muitos aspectos não passa de um credit default swap.

Senão vejamos: Se não existisse garantia do estado, o Banif emitiria dívida sujeita a uma taxa r, acrescida de um prémio de risco p. O comprador das obrigações receberia r+p, e compraria a um terceiro um CDS, pagando um valor que rondaria p. Desta forma, o resultado líquido seria um custo r+p para o Banif e um retorno r para o comprador. Existindo garantia do estado, o Banif paga uma taxa r’ nas suas obrigações, que é o retorno do comprador. Por outro lado, o Banif paga um prémio p’ ao estado, para garantia do crédito. O Banif tem portanto um custo total r’+p’.

A diferença é que o “terceiro” no primeiro caso faria hedging para reduzir a sua exposição ao risco do Banif. O hedging do estado somos nós.

Um pensamento sobre “Práticas pérfidas

  1. “É engraçado que, depois de José Sócrates ter referido no parlamento a natureza pérfida dos “produtos derivados”, o governo esteja no mercado a vender algo que em muitos aspectos não passa de um credit default swap.”

    Bem observado. 🙂

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