É pena que não corresponda à realidade

Jornal Negócios

A actual crise global colocou a nu as debilidades do sistema financeiro. Mas segundo o ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, os consumidores não se podem demitir da sua quota parte de responsabilidade nas suas tomadas de decisões de consumo ou investimento

É significativo que Teixeira dos Santos tenha proferido estas declarações durante um seminário da DECO que faz passar a imagem dos consumidores como sujeitos desprovidos de livre arbitrio e inteligência. Infelizmente as declarações do Ministro não correspondem à prática deste governo. Qualquer recomendação da DECO, por mais absurda, é rapidamente transforma em lei. Por vezes nem é necessário esperar pela DECO. Tornou-se recorrente a legislação que procura impedir aos individuos “comportamentos de risco” ou que pretende que paguemos por más decisões de consumo ou investimento alheias. Se Texeira dos Santos acha que os “consumidores não se podem demitir da sua quota parte de responsabilidade” não percebo porque faz este governo tudo para os “demitir”.

2 pensamentos sobre “É pena que não corresponda à realidade

  1. Luís Lavoura

    Tenho muitas críticas a fazer à DECO, nomeadamente a sua transformação numa agência de marketing, mas discordo absolutamente que ela infentilize os consumidores. Ela procura educá-los para escolhas adequadas, através da sua revista Proteste, ensinando-os a ver os pontos importantes em cada produto. E a legislação de proteção de consumidores é importante, embora ocasionalmente seja excessiva. Nenhum consumidor, por mais atento e cuidadoso que seja, pode evitar todas as esparrelas que lhe colocam, pelo que é imprescindível legislação que proíba algumas delas.

  2. Jose Simoes

    “os consumidores não se podem demitir da sua quota parte de responsabilidade”

    Isto é verdade e concordo. No entanto não se pode obviamente exigir a um consumidor que saiba calcular coisas tão simples como

    “juros compostos com taxa variável no tempo mas prazo fixo, em que os pagamentos em cada mês (juro+amortização) são calculados do modo seguinte: são constantes até ao fim do prazo se entretanto não mudar o juro”.

    Aposto que 90% dos licenciados em economia (e 70% dos licenciados em matemática) são incapazes de resolver este problema, sem um programa de computador feito por especialista ou de outro engenho pré-programado para este problema.

    E no entanto este problema é necessário ser resolvido – frequentemente no tempo – para uma operação tão simples como comprar uma casa com juro indexado à euribor (ou seja a que seja).

    E nem sequer os dados estão disponíveis. Aí por 1992 quis verificar os meus pagamentos da casa. Mas onde encontrar a taxa “lisbor”? Algumas revistas/jornais publicavam essa taxa “do dia”, mas era razoável andar à procura dessas revistas durante 15 anos (5000 exemplares) para ver a taxa? (sujeito às gralhas frequentes das revistas).

    Aliás são notáveis as notícias nos telejornais, quando muda a euribor. Os disparates são em catadupa.

    Portanto a frase “os consumidores não se podem demitir da sua quota parte de responsabilidade” tem de se dizer que essa responsabilidade só é exigível até a um grau de formação razoável, digamos a escolaridade obrigatória, digamos mesmo o 12º ano.

    Ora 99.99% das pessoas com o 12º ano não são capazes de resolver o programa que enunciei atrás.

    Numa economia “honesta” essas pessoas podiam pedir conselho (concelho) a um especialista. Porém os especialistas que tenho encontrado têm interesse pessoal nas transacções (nem que seja a pressão do patrão para vender o lixo).

    Portanto sim, é necessário proteger os consumidores, pelo menos os que não saibam resolver equações diferenciais e não tenham uma boa formação em probabilidades e estatística.

    Aliás suspeito que na actual crise a culpa, tendo sido fundamentada no sumidoro de dinheiro nas guerras do petróleo, foi também potenciada por produtos tóxicos vendidos a clientes que não os percebiam mas eram enganados dizendo que estavam seguros em seguradoras que também foram à falência (isto principalmente nos EUA).

    Ainda hoje recebo propostas de depósitos se rendem 20% se num cabaz dado valorizarem todos os títulos mais de 20%, rendem 10% se os títulos valorizarem 20% menos uma, etc. (os valores são inventados neste momento). Fiz umas contas e verifiquei se comprasse eu essas acções ficaria muito melhor , do que aceitando a proposta, embora muito provavelmente ficasse a perder dinheiro, Assim se ganha na bolsa comprando acções em queda, mas quantos clientes seriam capazes de fazer os mesmos cálculos que eu???.

    Aliás acho que deviam ser proibidos venda em bolsa de produtos derivados que não tenham um proxi nos dados económicos (mas isso é outra história).

    José Simões

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