A poupança

 

No cabeleireiro do D. Zulmira (que, apesar do nome inventado, existe verdadeiramente para os lados da Estrada da Luz, em Lisboa) deu-se um facto engraçado representativo da forma como se vive e lida com a crise económica. Há uns meses, uma das funcionárias da D. Zulmira decidiu ir-se embora. Sendo brasileira, quis voltar para o Brasil. É importante fazer aqui um ponto da situação antes de seguir com a história: Os cabeleireiros, como as lojas de chocolates e produtos estéticos, tais como batons, perfumes, e por aí fora, não são normalmente afectados pelas dificuldades económicas. Pelo contrário, por constituírem um forte anti-depressivo, não só se mantêm como beneficiam de um aumento da procura. Isto, para concluir que o estabelecimento da D. Zulmira não estava a passar por qualquer fase problemática. Pelo contrário, apesar da crise, a clientela mantinha-se fiel e comparecia (comparece) a tempo e horas. De qualquer forma, após a saída da dita empregada, a D. Zulmira nem procurou quem a substituísse. Com receio do futuro (a D. Zulmira trabalha no ramo há 30 anos e não quer deitar tudo a perder), passou a ser ela própria a fazer os trabalhos que cabiam à funcionária que saiu.

Podemos concluir, é o caminho mais fácil, que são atitudes como esta da D. Zulmira que intensificam a crise económica. Que o medo por ela sentido não diminui o desemprego e que o seu estado de espírito se incutirá nas clientes que poderão passar, também elas, a ter algum cuidado. Tal é a pronta conclusão que tanto apraz os amigos socialistas, que desejam ardentemente uma economia um pouco (estou a ser optimista) planeada. Mas não é assim.
Quando uma crise como a actual resulta do dinheiro barato, ou seja, de investimentos em produtos e serviços não rentáveis, não fosse o juro se encontrar artificialmente abaixo da custo real do dinheiro, quando a crise, dizia eu, deriva da escassez da poupança, qualquer atitude como a da D. Zulmira apenas pode ser de louvar. Ao invés de gastar, ela poupa. Corrige o erro que é base dos problemas que estamos a viver. Amealha para os tempos vindouros, que é precisamente o que precisamos fazer. A maioria, ou seja, aqueles que gastaram tudo o tinham (Estado incluído) necessita de fazer contas à vida e decidir como pretende viver daqui em diante. É isto, pouco mais que isto, que está em jogo nos dias que correm: Até que ponto aqueles que foram cuidadosos, terão de suportar os erros dos que viveram à grande. Até que ponto deveremos premiar, através de (des)incentivos fiscais e desvalorização do dinheiro, quem não guarda para amanhã.

O debate não deve  pois, ser feito entre os adeptos do mercado livre (total ou parcial) e os defensores de uma maior intervenção do Estado. O debate, que divide socialistas e liberais, situa-se numa perspectiva muitas vezes ignorada. Centra-se no valor que damos ao dinheiro e na forma como este deve ser instituído: se por decreto, se livremente. Separa os que entendem que o Estado deve incentivar o consumo, dos que consideram que a última palavra deve ser dada aos consumidores: os que trabalham e só querem dar livre destino ao seu ordenado.

E sem, sff, interferências sub-reptícias no valor do dinheiro.

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3 thoughts on “A poupança

  1. Luís Lavoura

    “Quando uma crise como a actual resulta do dinheiro barato, ou seja, […] deriva da escassez da poupança”

    As coisas não são equivalentes!!!

    Eu concordo que a atual crise resulta do dinheiro barato. Não concordo, no entanto, que ela resulte de escassez de poupança.

    De facto, o dinheiro barato resulta, em grande parte, do excesso (e não da escassez!) de poupança. O facto de haver excesso de poupança (na China, no países árabes…) estimula a taxa de juro a descer, com o fim de que essa poupança seja gasta.

    O dinheiro barato estimula as pessoas a fazerem investimentos descuidados e de má qualidade. É isso que conduziu à atual crise (pessoas que investiram estouvadamente em imobiliário, etc).

    Não foi a falta de poupança. Foi sim o excesso de poupança, conjugado com a política de juros baixos dos Bancos Centrais.

    Dito isto, concordo com todo o resto do post.

  2. De qualquer forma, não há nenhuma razão para pensar que as pessoas que tem sido despedidas nos últimos meses sejam das tais que gastaram mais do que podiam.

    O raciocinio do AAAmaral faria sentido se vivessemos numa sociedade de pequenos produtores auto-suficientes (estilo Oeste americano no tempo dos pioneiros?).

    Como (infelizemente?) não vivemos numa sociedade dessas, mas numa sociedade em que vendemos a maior parte do que produzimos e compramos a maior parte do que consumimos, acho que esse raciocinio não faz grande sentido – mesmo um trabalhador de uma fábrica de automóveis que não se tenha endividado vai pagar o facto de os potenciais clientes se terem endividade e agora não poderem comprar automóveis.

  3. além de que a tese que a culpa da crise é por termos consumido acima das nossas possibilidades me parece ilógica – é impossivel a economia mundial viver acima das suas possibilidades, logo isso não poderia dar origem a uma crise mundial, como esta

    E (juntando este comentário com o anterior) a crise económica na China também é por os chineses terem andado a viver acima das suas possibilidades?

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