O Insurgente

Ficam a saber: só as palavras e nada mais que as palavras

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Depois de um post em que referi a falta de consonância entre a retórica feminista socialista e as decisões (actos) socialistas enquanto governantes de dar a mulheres apenas pastas ministeriais que vão na linha daquele que foi por séculos o papel tradicional da mulher – a mãe educadora, a mãe e esposa e filha que trata dos doentes da família, a senhora caridosa que engendra esquemas para aliviar os sofrimentos dos pobres da paróquia – e nunca em número maior do que duas de cada vez (algo, de resto, partilhado pelos outros PMs do PSD que não Durão Barroso, ainda que esses tenham a vantagem sobre o PS de não pretenderem dar lições de moral quanto ao assunto), a Ana Matos Pires respondeu e, depois de num primeiro parágrafo dar a sua opinião, com a qual não concordo mas que respeito e até entendo e sobre a qual nada se me apraz escrever, usou um segundo parágrafo verdadeiramente curioso: uma vez que os socialistas nunca qualificaram por palavras as pastas ministeriais das suas ministras com as expressões que eu usei, talvez essas expressões afinal viessem da minha cabeça. Ora então, deduzo espantada, devo apenas avaliar as posições e opiniões políticas dos vários senhores e senhoras que fazem da política a sua vida pelas suas palavras e não pelos seus actos? Não devo (ainda que possa, que todos podemos errar) verificar as concretizações, as decisões reais, os actos dos políticos, mas tão-só as suas palavras? Mais: não devo conferir a concordância entre as palavras e os actos de um político? Fascinante. Dou exemplos. Um político que promete baixar radicalmente os impostos e, uma vez no governo, aumenta brutalmente a carga fiscal a famílias e empresas de forma a levar a cabo um intenso programa de obras públicas; devo, presumo, considerá-lo um conservador fiscal, segundo as suas palavras, porque se lhe chamar despesista e intervencionista (além de mentiroso), o que os seus actos permitem, apenas mostro ter macaquinhos na cabeça? Outro político que prometa flexibilizar a nossa caduca legislação laboral e, no poder, termina com os contratos a prazo, restringe os despedimentos por justa causa e reduz o horário laboral para 25 horas por semana; devo, presumo, considerá-lo um grande amigo das empresas e dos investidores, porque se disser que esse político tem uma posição boa para afugentar o investimento estou simplesmente a revelar “coisas” da minha malévola mente? Saindo da política: um marido diz que ama apaixonadamente a sua mulher mas dá-lhe com frequência uns valentes sopapos e engana-a todas as semanas com as vizinhas; devo considerar que este homem é um esposo amantíssimo e não um criminoso? Bom, cada um avalia os políticos (e as pessoas) como entende e o que vai na cabeça dos outros como lhe apetece (se apetecer). Eu, por razões que considero demasiado óbvias, não avalio os políticos e as suas políticas apenas pelas suas palavras.

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