Para que serve a supervisão?

Se o responsável pelo organismo que supervisiona o sistema bancário (*) confessa que uma fraude da dimensão da do BPN só consegue ser detectada com acesso a “inside information” é tempo de perguntarmos qual a utilidade do Banco de Portugal e se quem pede um reforço da supervisão não estará gravemente iludido.

(*) E ao contrário de outras entidades de supervisão estatal como o TdC ou a IGF é uma entidade especializada no tipo de organismos que supervisiona…

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18 pensamentos sobre “Para que serve a supervisão?

  1. Clara França Martins

    Nos EUA,o escândalo Madoff só foi detectado ao fim de 10 anos(!) e porque houve uma denúncia!

  2. Luís Lavoura

    “qual a utilidade do Banco de Portugal”

    Pode não ter utilidade para detetar este tipo de fraudes mas ter utilidade para detetar outros tipos delas.

    “quem pede um reforço da supervisão não estará gravemente iludido”

    Talvez não, se o reforço da supervisão incluir precisamente o acesso à inside information necessária para evitar outros tipos de fraudes (BPN, Maddoff, etc).

    É claro que a fraude financeira vai sempre um passo à frente da regulação. À medida que a regulação e supervisão começa a ser capaz de abarcar umas fraudes, outras mais complexas vão sendo inventadas. Isto não é no entanto razão para acabar com a regulação e supervisão. O mundo avança e progride andando para a frente, não para trás como o caranguejo.

    É claro que no tempo da economia de troca não havia fraudes financeiras. Mas penso que ninguém está interessado em regressar a esses tempos.

  3. Luís Lavoura

    Do facto de a polícia se mostrar incapaz de impedir o arrombamento de caixas Multibanco não se deduz que a polícia não tenha qualquer utilidade, nem que se deva acabar com o Multibanco. Apenas se deduz que a polícia precisa de ser aperfeiçoada e que as caixas Multibanco também precisam de ser aperfeiçoadas (há caixas automáticas que destroem automaticamente as notas – pintando-as com tinta – em caso de tentativa de arrombamento. Essas caixas já são utilizadas em outros países, e não há razão para que não o sejam cá também).

  4. “se o reforço da supervisão incluir precisamente o acesso à inside information”

    Como é que isso se faz? Escutas? Agentes infiltrados?

  5. “À medida que a regulação e supervisão começa a ser capaz de abarcar umas fraudes, outras mais complexas vão sendo inventadas”

    Que eu saiba tanto nem Madoff nem Oliveira e Costa foram originais. Este tipo de fraude já é feito há muitas décadas.

    “Do facto de a polícia se mostrar incapaz de impedir o arrombamento de caixas Multibanco…”

    Não me lembro da polícia alguma vez ter dito que era incapaz de detectar este tipo de crimes. É disso que se trata. Não de impedir mas de os detectar.

    “…não se deduz que a polícia não tenha qualquer utilidade, nem que se deva acabar com o Multibanco”

    Eu não disse que se deviam acabar com os bancos mas já contava com esta brilhante conslusão. Mas que o BdP tem presentemente muito pouca utilidade…

  6. Luís Lavoura

    Quanto ao Maddoff:

    A sua fraude (esquema de Ponzi) não foi original e já é praticada, como o Miguel bem diz, há muitas décadas. E já por diversas vezes foi abortada, também; temos em Portugal por exemplo o caso da D. Branca. A fraude de Maddoff foi suspeitada por diversas pessoas que estavam no negócio. Se as autoridades norte-americanas não intervieram foi porque Maddoff, ao contrário de D. Branca, era uma pessoa bem cotada no milieu. Não foi porque não existissem suspeitas nem porque não pudessem ter intervindo.

    Sobre Oliveira e Costa: eu não sei exatamente que fraudes ele praticou, portanto não me posso pronunciar sobre se elas já são praticadas há muitas décadas ou não. Tenho a impressão de que o Miguel também não sabe, embora finja que sabe; se as fraudes de Oliveira e Costa fossem tão bem compreendidas não haveria agora uma comissão parlamentar a investigá-las. Em todo o caso, parece provável que se tenha passado uma coisa semelhante à da fraude Maddoff: havia suspeitas mas, como as pessoas envolvidas no BPM eram do milieu – neste caso, do meio da política, dado que o BPN e a SLN eram (e são) um couto de barões do PSD – as autoriddes fingiram que não viram.

    É claro que, se e quando as autoridades decidem não intervir porque há pessoas bem cotadas envolvidas, não vale a pena haver autoridades. Isso é um facto.

  7. Luís Lavoura

    Portanto, e resumindo, eu diria que o problema essencial, nestas fraudes, não foi a incapacidade de elas serem detetadas – ao contrário daquilo que Vítor Constâncio diz. Foi a falta de vontade de as detetar e de intervir.

    Como Warren Buffett muito bem disse, “quando a maré baixa é que se vê quem andava a tomar banho nu”. Enquanto a maré esteve alta toda a gente preferiu acreditar que os banhistas estavam todos com fato-de-banho…

  8. “Foi a falta de vontade de as detetar e de intervir”

    Como se tornou já bem patente pelas declarações de vários participantes (incluindo do BdP) no caso, parece-me é que, tal como no caso Madoff, o que existiu foi laxismo. Em vez de se pedirem novos poderes e meios (para quê se pelos vistos não fazem bom uso dos actuais?) isto vem tornar bem claro que os supervisores também erram e não são insensíveis às inteferências do poder político. Convém, ao contrário do que agora se quer faser, não endeusar a supervisão.

  9. “Tenho a impressão de que o Miguel também não sabe, embora finja que sabe”

    Então o Luís Lavoura também não sabe? Como pode afirmar com tanta segurança que eram “esquemas mais complexos”?

  10. CN

    O problema dos supervisores e reguladores estatais é que supostamente criam a ideia que certificam os agentes “aprovados”, assim, um Banco só é Banco depois de ser “autorizado” e “regulado” e “supervisionado”.

    Tudo isso baixa o nível de exigência e desconfiança natural dos clientes, incluindo do aparato legal jurídico-civil quando os clientes se tornam…. clientes. Passa a ser: se abriu é porque foi “autorizado”, etc…

    Sem “supervisores” e “reguladores” a dificuldade em captar a confiança de clientela é muito maior e assim era noutros tempos.

    Além disso, quando existem problemas, são os próprios “supervisores” a impedir que as coisas sejam resolvidas em tribunais civis e pedidos de falência rápidos.

  11. CN

    Quanto à fraude financeira começou logo com os supostos “depósitos à ordem”…que rapidamente se transformavam em meras “promessas de pagamento” e não “depósitos”.

  12. lucklucky

    A excessiva confiança na regulação eliminará a precaução que as pessoas devem ter na vida. Baixa as defesas. É como um mau antibiótico mata os bichos bons e deixa muito dos maus porque é impossível a supervisão funcionar com os recursos que tem. Seria necessário instituir um estado policial para descobrir todas as vigarisses que 2 pessoas podem fazer.

    Eu penso que mais preocupante é precisamente a falta de defesas, impreparação das pessoas. Um mercado assim nunca conseguirá expulsar os maus sem grandes crises na altura em que o monte atinge um volume que já não se pode esconder. Há uma falta gritante de competências no mercado que leva a uma falta de exigência, a uma reverência pouco salutar para com a informação económica.

    Não surpreende que os media situados todos á esquerda e socialistas tenham só falado de regulação, algo centralizado e não de aumento de competências do publico, a sabedoria distribuída.

  13. “Eu penso que mais preocupante é precisamente a falta de defesas, impreparação das pessoas.”

    Raios e eu a pensar que em Wall Street estavam os melhores…

    “…e não de aumento de competências do publico, a sabedoria distribuída.”

    Concordo com isto, e já agora mais informação (não só do mercado mas do Estado também)

  14. lucklucky

    “Raios e eu a pensar que em Wall Street estavam os melhores…”

    Não percebeu, Wall Street só é bom se o mercado exigir que seja bom. Sofisticação e os MBA’s não fazem Wall Street bom, só é competente e verdadeiro se o mercado(as pessoas) o exigirem. Portugal tem descido a pique precisamente porque a esquerda e o centrão tèm feito os possíveis para diminuir a exigência e níveis de competição do mercado escolar,justiça e de todo o pais em geral, regulando tudo anulando assim as competências das pessoas. Para nem falar de que outras competências como cunhas partidárias, esquemas para subsídios e tudo o que vem atrás que desvirtuam o valor e a qualidade da informação são recompensados havendo assim um investimento em competências negativas. Isto tudo devido ao Estado cobrar 50% da riqueza e assim ser o grande empregador directa ou indirectamente. Há uma empresa com 50% do Mercado em Portugal chama-se Estado e ninguém na Esquerda fala de monopólio…

  15. Lucklucky,

    Eu vou responder breve porque já estou com sono, mas prometo amanhã ter uma resposta mais cuidado.

    1-Não achas utópico atribuir todos os males da sociedade ao Estado?

    2-“não fazem Wall Street bom, só é competente e verdadeiro se o mercado(as pessoas) o exigirem”. Então como confias tanto no mercado?

    3-“Há uma empresa com 50% do Mercado em Portugal chama-se Estado e ninguém na Esquerda fala de monopólio…”
    O estado não é uma empresa, mas tirando isso concordo contigo, julgo que um dos problemas sérios é não existir “concorrência”, no bom sentido desta palavra.

    4-Uma duvida final, quem corrompe o Estado?

  16. Honestamente não compreendo esta obsessão com o peso do Estado no PIB. É defeito de formação, pois a minha formação moldou o meu pensamento para analisar estes problemas mediante a optica de custo-beneficio. Para mim o problema não se prende com o custo (isto é, o peso) mas sim porque a relação não é boa (também e ao contrário do que é apanágio não é má).

    Mas a optica de que, se baixar o o custo, vai necessariamente aumentar o beneficio também está errada, pois não está fundamentada na nossa realidade, e a não ser por fé, não pode garantir isso em Portugal. É bem possível, dada a dimensão do País que acabará por pagar mais pelos mesmos serviços (situação em que o seu beneficio diminui).

    Depois também existe outro “pormenor” que eu julgo importante: Divida Publica.
    Mas isso fica para outra discussão.

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