Antes e depois da crise

Os tempos estão bons é para os crisólogos. As fábricas fecham, as empresas entram em falência, os trabalhadores são despedidos. Mas quem é pago para falar da “crise” vive tempos de bonança. Nos telejornais, não há dia em que não haja uma reportagem sobre como “as pessoas normais” reagem à crise. Tal como não há dia em que a crise não seja apresentada como a causa de tudo. E tal como não há ninguém que não avance a sua “explicação” para a dita. Eu próprio exerço sem grande pudor a minha função de crisólogo de bancada (se algum jornal, orgão de comunicação social ou dona de casa quiser recorrer aos meus serviços, estou à vossa disposição).

Seguindo o espírito do tempo, o Presidente do Banco de Portugal veio há dias anunciar que prevê uma queda de 3,5% do PIB, este ano, em Portugal. Naquele papel servil de aguadeiro do Governo que tanto parece apreciar desempenhar, Vitor Constâncio disse também que Portugal não poderá recuperar crescimento económico enquanto a conjuntura externa não melhorar. O Governo, claro, agradece sempre que alguém vem dizer que o agravamento das condições de vida que os portugueses vão sentir nos próximos tempos não são culpa da sua política, mas “crise” e dos problemas dos outros (“Portugal não está isolado”, lembram-nos, como se antes não tivessem dito que o país passaria incólume pela tempestade global). Mas esquece-se que a “crise” e os problemas dos outros não explicam os problemas que afectavam o país antes da crise, nem serão responsáveis pelas dificuldades que continuaremos a enfrentar muito depois da crise deixar de incomodar os outros.

Há uns anos, enquanto a dra. Ferreira Leite, louvada seja, andava a fazer os possíveis e impossíveis para controlar o défice, Jorge Sampaio disse que “havia vida para além do défice”. Agora, quando todos falam da crise, e a crise serve de justificação para tudo, convinha que alguém viesse lembrar que havia vida antes da crise, que continuará a haver vida depois da crise, e que ela já era difícil antes da crise começar, e continuará a ser difícil depois dela passar. Não foi a crise que fez com que o Estado português consuma metade da riqueza produzida pelos cidadãos. Não foi a crise que fez com que qualquer pessoa ou família esteja seja obrigada a endividar-se para a vida inteira, porque não tem alternativa a comprar casa. Como não foi a crise que fez com que, apesar de o Estado cobrar cada vez mais impostos, estes continuem a ser insuficientes para cobrir as imensas despesas do Estado (ao mesmo tempo que estas continuam sem garantir que os serviços que financiam funcionem como deve ser). E claro, quando a crise passar, continuará ser difícil arranjar emprego em Portugal; muitos portugueses continuarão sem acesso a bons cuidados de saúde; o Estado não deixará de obrigar um número cada vez menor de pessoas a abrir mão de uma parte cada vez maior do seu rendimento, para financiar as pensões (cada vez mais pequenas), de um número cada vez maior de reformados. Quando a crise passar, e outros países começarem a ver a sua economia a crescer, por cá, a crescer, só mesmo os problemas.

Há dias, a líder do PSD veio dizer que o Governo não está a responder bem à crise. Tem razão. Mas bom seria que esse fosse o único problema. Não é. Outro bem mais grave, é o de o Governo, antes da crise, não ter resolvido os problemas que então já existiam, deixando assim que se criassem problemas ainda mais graves, que, no futuro, teremos de enfrentar em ainda menos condições de o fazer. Este sim, é o grande falhanço deste Governo, e, isto sim, é algo que é preciso que as pessoas percebam até Outubro.

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10 pensamentos sobre “Antes e depois da crise

  1. “… dra. Ferreira Leite, louvada seja,…”
    LOL

    “…andava a fazer os possíveis e impossíveis para controlar o défice…”
    Como angariar receitas correntes em troca de despesas futuras, ou obrigar empresas com capital publico a financiarem o deficit, etc…

    “Não foi a crise que fez com que o Estado português consuma metade da riqueza produzida pelos cidadãos.”
    Não existe nenhum problema com esse facto.

    “Não foi a crise que fez com que qualquer pessoa ou família esteja seja obrigada a endividar-se para a vida inteira, porque não tem alternativa a comprar casa.”
    Nop, aí a culpa foi do mercado.

    “Como não foi a crise que fez com que, apesar de o Estado cobrar cada vez mais impostos, estes continuem a ser insuficientes para cobrir as imensas despesas do Estado (ao mesmo tempo que estas continuam sem garantir que os serviços que financiam funcionem como deve ser).”

    Este sim é muito problemático!

    “E claro, quando a crise passar, continuará ser difícil arranjar emprego em Portugal;”

    Que descrença na qualidade dos nossos empresários e empresas…

  2. lucklucky

    “dra. Ferreira Leite, louvada seja, andava a fazer os possíveis e impossíveis para controlar o défice”

    Isto só pode ser uma piada. O Governo de Sócrates não fez nada diferente do Governo onde Manuela Ferreira Leite foi Ministra da Finanças. A receita foi a mesma atacar quem trabalha e produz.

    “Não existe nenhum problema com esse facto.”

    Roubar o produto que outrém produz não é problema nenhum, é claro que não. Não admira que esta venha de quem quer privacidade á medida do dinheiro que pode ou não tirar a quem produz riqueza.

  3. “Roubar o produto que outrém produz não é problema nenhum, é claro que não”

    Ou seja roubasse para ter juizes, policias, etc…

    Já agora porque é que um imposto é um roubo e não um preço?

  4. Filipe Abrantes

    “Já agora porque é que um imposto é um roubo e não um preço?”

    Há perguntas extraordinárias…

  5. Caro lucklucky,

    Define o que é para ti “forçado”, por favor.

    Filipe,

    “Há perguntas extraordinárias”

    E respostas vazias. Tenta responder à questão e verás que é uma pergunta legitima.

  6. Filipe Abrantes

    Quando é preciso explicar que os impostos são forçados, que quer que eu lhe diga? Só um pensamento extraordinário não percebe que quem não pagar impostos sofre represálias, logo há coacção. Os estatistas nem costumam negar que o imposto (*imposto*, sabe o que significa?) é forçado, as justificações para esse roubo é que varia, muitas vezes com as preocupações mais nobres, admito.

  7. Pingback: Bem visto: « BLASFÉMIAS

  8. Caro Filipe,

    “Quando é preciso explicar que os impostos são forçados, que quer que eu lhe diga? Só um pensamento extraordinário não percebe…”

    O sua resposta de “pensamento extraordinário” foi ao “roubo” e não ao “forçado”. Ou seja o que você “precisava” de explicar é a noção de roubo e não de forçado.

    A bem da discussão vou assumir abusivamente que o Lucklucky e o Filipe comungam da mesma opinião, isto é o imposto é um roubo porque é forçado e é forçado porque “não pagar impostos sofre represálias, logo há coacção”.

    Posto por outras palvras, quem não tiver determinado comportamento (neste caso pagar impostos) sofre represálias, e por isso está a ser coagido a ter um comportamento alternativo (neste caso pagar imposto) o que faz com que essa pessoa perda rendimento disponível. (logo é um “roubo”, infelizmente nenhum definiu “roubo” mas presumo, uma vez mais abusivamente, que seja essa a vossa definição).

    Interessante é o facto que existe outro comportamento, que também sofre represálias e por causa dessas represálias está a ser coagido a ter um comportamento alternativo o que faz com que essa pessoa perda rendimento disponivel. O quê? Por exemplo roubar casas, que pode também ter motivações nobres.

    O “imposto” foi a forma decidida em sociedade, que recordo é democrática, de financiar o Estado. A liberdade de os governos alterarem a forma do imposto segue a mesma lógica. Por isso se têm opiniões diferentes, e se têm a certeza de que a vossa opinião é melhor, então a minha sugestão é entrem na “luta” democrática, que pode ser pela constituição de um partido, ganhem eleições e mudem então as leis.

    Quanto à pergunta “extrordinária”, eu não partilho da vossa opinião, para mim o imposto não é um “roubo”, no entanto quis saber a motivação que vos leva a ter essa opinião. Certamente não espera de mim uma actitude acéfala relativamente ao que vocês dizem, pois não?

    Agora gostaria de lançar duas perguntas:

    1- Se o financiamento do Estado não fosse por imposto mas sim por “utilizador-pagador”, ou por sistema de preço, vocês já concordariam?

    2- Vocês defenderam que deveria ser definido constitucionalmente um limite maximo (em função de percentagem do PIB) às receitas do Estado. Como estabelecer esse limite?

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