Jornalistas que percebem os limites e jornalistas que não percebem, do ponto de vista de uma consumidora

Investigava o Ministério Público o caso de pedofilia na Casa Pia, ainda com suspeitas (falava-se na comunicação social) se envolveria Ferro Rodrigues. Rita Ferro Rodrigues, filha de Ferro Rodrigues, era jornalista da SIC. Informou a direcção da estação televisiva de que não poderia ter qualquer relação com as notícias da estação sobre o processo Casa Pia.

Há pouco tempo Ricardo Costa comentava na mesma SIC a candidatura de Pedro Santana Lopes à Câmara de Lisboa e começou o seu comentário da seguinte forma (cito de memória): “Não gosto muito de comentar a Câmara Municipal de Lisboa. Como toda a gente sabe, sou irmão de António Costa. E se há alguém que não sabe, fica a saber.”

A jornalista Sofia Pinto Coelho, que se dedica sobretudo a assuntos legais e judiciais, por ser casada com Sá Fernandes, advogado de um dos acusados no caso Casa Pia, não se envolveu na cobertura noticiosa do julgamento.

Estes três casos de jornalistas que entenderam que ou não tinham distância suficiente para tratar de um assunto devido às relações afectivas próximas que mantinham com algum dos envolvidos ou que entenderam fazer uma declaração de interesses antes de opiniar em algo que implica um familiar vêm, claro, a propósito do que Fernanda Câncio tem escrito sobre o caso Freeport e o artigo do último Expresso. Sobre este não vos vou maçar com a minha opinião, porque a Cristina Ferreira de Almeida já escreveu muito bem o que havia a escrever.

Aproveito apenas para lamentar o aproveitamento lastimável deste caso para avançar um argumento que, reconheço, me irrita. Disse-se em alguns locais, de forma explícita ou sugerida, que o artigo do Expresso seria no fundo uma campanha machista, por alguém que considera que as mulheres são incapazes de ter opiniões próprias, e sobretudo, incapazes de ter uma opinião contrária ao seu querido apaixonado, e não um artigo sobre as fronteiras do jornalismo com um caso bem paradigmático. A melhor forma de desmontar este argumento tolinho é ilustrar com outro caso. Maria José Morgado demitiu-se da PJ, diz-se (não a própria, apesar de tão faladora) devido à então Ministra da Justiça, Celeste Cardona. Pouco depois, o seu marido, Saldanha Sanches, escreveu uma coluna num jornal fustigando Celeste Cardona e Paulo Portas. Toda a gente entendeu o texto como a defesa de Saldanha Sanches da sua dama. Mª José Morgado ainda reclamou que nem tinham o mesmo apelido (pelos vistos garantia de distância opinativa). Ninguém lhe ligou.

31 pensamentos sobre “Jornalistas que percebem os limites e jornalistas que não percebem, do ponto de vista de uma consumidora

  1. Luís Lavoura

    Porque é que vocês não contestam os argumentos apresentados por Câncio (e, já agora, por Saldanha Sanches) em vez de opinarem sobre relações pessoais que nem sequer conhecem?

    Que sabem da relação de Câncio com Sòcrates? Sabem que eles são amigos e que vão ao teatro juntos. Mas isso não significa que sejam namorados. Aliás, há boas razões para crer que Sócrates é homossexual (e se calhar Câncio também), e que Câncio só acompanha Sócrates como forma de ele não aparecer sozinho em público, sem uma mulher a acompanhá-lo, o que “ficaria mal” perante, por exemplo, o primeiro-ministro de Cabo Verde. Ou seja, tratar-se-ia de uma relação de circunstância, de fachada (o que absolutamente nada tem de mal, em meu entender).

    Da mesma maneira, do facto de Saldanha Sanches ser casado com Maria José Morgado não se depreende que a ame, ou que tenha as mesmas opiniões que ela.

    Analisem as opiniões das pessoas em vez de fofocarem!

  2. Luís Lavoura

    Eu custa-me a entender como é que pessoas que se dizem liberais e que, portanto, deveriam atribuir um alto valor à individualidade e à liberdade da pessoa humana, incluindo a sua liberdade de opinião, quando chegam à Câncio não a conseguem ver como uma pessoa independente com opiniões próprias mas tão-somente como a “namorada” (coisa que nem sequer sabem se é!) de Sócrates, logo com ideia necessariamente correlacionadas com as dele, como se duas pessoas que vão ao teatro juntas tenham necessariamente que ter as mesmas opiniões.

    Enxerguem-se! Vocês não são liberais. São, como o Pedro Arroja muito bem diz, representantes de uma cultura altamente personalizada, que não tem ideias nem as produz, e que só sabe tratar de relações entre pessoas. Para vós só há relações pessoais, entre a Câncio e o Sócrates ou entre a Morgado e o Saldanha Sanches. Não conseguem ver ideias para além de relações pessoais porque, como Pedro Arroja bem diz, vêem de uma cultura que se fundamenta em relações pessoais e que não consegue criar uma única ideia.

  3. Maria João Marques

    Luís Lavoura, chegam os dois comentários ou ainda vêm aí mais?

    Já que falou de liberalismo e liberdade, deixe-me esclarecê-lo que ninguém consegue ser totalmente livre. Por exemplo: as suas escolhas de vida são totalmente as que lhe convêm apenas a si ou são condicionadas por ter filhos e ter de os sustentar? Os exemplos podem ser imensos. Quase tudo o que fazemos na vida, e que provavelmente é um exercício de liberdade, também condiciona a nossa liberdade, uma vez que as decisões que tomamos têm consequências com as quais temos que viver (e em muitos casos até gostamos de viver com essas consequ~encias).

    Quanto à distância necessária para fazer jornalismo, se V. não entende que a proximidade emocional não permite a isenção, o que quer que lhe diga?

    (E quanto a fofocas, olhe que tenho boa memória e me lembro de quando os seus comentários eram censurados no 5 Dias por referir a relação Sócrates-Câncio; pode ter mudado de opinião, mas por favor e por higiene não dê lições de moral.)

  4. Luís Lavoura

    Maria João Marques,

    o único comentário meu que, que eu me lembre, foi censurado no 5 dias, foi um em que, a propósito de um texto em que a Câncio dizia que sempre gostara de homens arrogantes, eu comentei qualquer coisa como “então é por isso que gosta de Sócrates, pois ele é arrogante até mais não”.

    Ou seja, eu comentei de facto a relação pessoal, mas nunca fiz aquilo que aqui se faz, e que eu considero impŕoprio – depreender dessa relação que as ideias da Câncio não são dela própria e que não devem ser julgadas como tal, mas apenas em função da sua amizade com Sócrates.

    Quanto à proximidade emocional e ao jornalismo, não não entendo. Eu sou um físico teórico e, como tal, estou habituado a analisar ideias e a sua lógica e coerência internas, e não me passa pela cabeça meter proximidades emocionais na análise de ideias ou factos objetivos. Para mim é óbvio que uma boa jornalista também é capaz de fazer isso, que é capaz de analisar factos sem se deixar influenciar por gostar de um certo homem arrogante.

  5. “Quanto à distância necessária para fazer jornalismo, se V. não entende que a proximidade emocional não permite a isenção, o que quer que lhe diga?”

    Consegue fundamentar essa posição para o caso da Fernanda Cancio ou limitou-se a transpor como você é para uma outra pessoa?

  6. Maria João Marques

    Pois é, Luís Lavoura, V. é um poço de virtudes.

    Stran, é uma questão de natureza humana, de resto assim considerada por vários jornalistas: os casos que eu dei e os que levantaram a questão Câncio.

    Mas o que de facto me interessa – e nem o Stran nem o LV têm algo com isso – é o do juízo que eu, enquanto consumidora de notícias, faço da isenção de um jornalista. Não é por FC me garantir que se sente competente para dar opiniões isentas que eu tenho que aceitar o que me é dito. Eu quero a informação para saber se ela é isenta ou não. Que V. não queiram, é convosco, mas não me imponham as V. escolhas. Uma questão de liberalismo.

  7. Filipe Abrantes

    De facto, eu nunca li nenhum comentário do LL aqui no insurgente que fosse sobre pessoas (essencialmente políticos, mas tb sobre banqueiros por exemplo). É um personagem cheio de virtudes.

  8. Filipe Abrantes

    Os insurgentes são vistos por LL como emocionais e não conseguem ser isentos. Já quando outros dizem o mesmo sobre outras pessoas (Câncio…) são brindados por um “enxerguem-se”. Eu cá penso que o LL tem um certo parti pris (teórico, obviamente!) nesta matéria.

  9. Filipe Abrantes

    Sem esquecer a contradição de quem diz que os insurgentes não são liberais e que noutros tempos se indignava por haver insurgentes ou blasfemos a dizer que este ou aquele não era um verdadeiro liberal. Inteligência de físico teórico.

  10. Maria,

    “Stran, é uma questão de natureza humana, de resto assim considerada por vários jornalistas: os casos que eu dei e os que levantaram a questão Câncio.”

    É para si e para os vários jornalistas. No entanto nada implica que o seja para Cancio. Só ela sabe se foi ou não isenta. Além disso reparei que em nenhum sitio defende que a Cancio não foi isenta, assim como acha que como a Cristina Ferreira de Almeida disse: “Este conhecimento não retira força aos argumentos do opinion maker…”

    Posso presumir então esta frase:
    “…que entenderam que ou não tinham distância suficiente para tratar de um assunto devido às relações afectivas próximas que mantinham com algum dos envolvidos…”

    apenas se aplica aos jornalistas em causa (em cuja as relações eram formais e não meras suposições) e não serve de contra argumento à posição da Cancio, correto?

    “Eu quero a informação para saber se ela é isenta ou não. Que V. não queiram, é convosco, mas não me imponham as V. escolhas. Uma questão de liberalismo.”

    Realmente não me interessa saber o que você “acha” relativamente a uma pessoa. Se me disser que você “acha” que a Cancio não é isenta, não ligarei nenhuma, no entanto é significativamente diferente escrever a frase anterior a escrever que a Cancio não é isenta. Não concorda?

    Já agora e que falou de liberalismo, gostava que me respondesse a uma questão (se tiver paciencia para me aturar):

    – uma relação pessoal é da esfera privada ou do dominio publico?

  11. “Sem esquecer a contradição de quem diz que os insurgentes não são liberais e que noutros tempos se indignava por haver insurgentes ou blasfemos a dizer que este ou aquele não era um verdadeiro liberal. Inteligência de físico teórico.”

    Honestamente, nas discussões que tive aqui e dos artigos que li ainda não encontrei nenhum liberal residente. Consegue-me apontar um?

    E já agora qual a vossa opinião sobre o artigo em si?

  12. “Honestamente, nas discussões que tive aqui e dos artigos que li ainda não encontrei nenhum liberal residente”

    Que bom para si.

  13. “Sem esquecer a contradição de quem diz que os insurgentes não são liberais e que noutros tempos se indignava por haver insurgentes ou blasfemos a dizer que este ou aquele não era um verdadeiro liberal. Inteligência de físico teórico.”

    Filipe,

    Give the guy a break: já se sabe que o LL não é para levar completamente a sério…

  14. Pelo que vejo, a Maria João Marques tem-se dado ao trabalho em fundamentar o seu post, que com toda a legitimidade exprimiu uma opinião, de um assunto que de importância tem muito pouca ou mesmo nenhuma.

    O resto dos insurgentes, o Filipe disse tudo.

  15. Já responderei nos comentarios dos artigos e provavelmente se tiver uma resposta muito longa também no meu blog.

    Mas muito obrigado pelos links.

  16. Maria João Marques

    Stran, repito: a questão não é se FC foi isenta ou não, mas se eu devo ou não ter informação para ajuizar essa isenção. E se tendo em conta a proximidade com Sócrates deveria opinar sobre os problemas deste como se de um observador não-implicado se tratasse.

    Quanto às relações pessoais, obviamente não são do exclusivo domínio privado se se misturam com a esfera pública. Acha que um político (ou um nomeado politicamente) que dá um bem remunerado emprego a uma namorada que não tem qualquer qualificação não deve ser escrutinado porque a relação é do domínio privado? Ou, no caso FC, se a senhora pelos vistos até está presente em actos constantes de uma visita oficial de um PM dum PALOP (pagos pelos contribuintes) acha que ninguém tem nada que se inquirir da razão da sua proximidade a Sócrates e da razão das suas colunas de opinião? Por favor…

  17. Maria João Marques

    É verdade, Filipe, ainda há pouco estava o Luís Lavoura a escrever como se houvesse alguma coisa de suspeito na minha ida a Bruxelas. Enfim, duplos critérios.

  18. Pois divergimos profundamente nesta questão.

    “…mas se eu devo ou não ter informação para ajuizar essa isenção…”
    E tem! O artigo dela é suficiente para isso. Aliás estamos a falar de um artigo de opinião, que como bem já nunca é isento. Não existem opiniões isentas!

    “E se tendo em conta a proximidade com Sócrates deveria opinar sobre os problemas deste como se de um observador não-implicado se tratasse.”

    Percebo que esta sua opinião deriva, muito provavelmente, de achar que existem opiniões isentas.

    “Quanto às relações pessoais, obviamente não são do exclusivo domínio privado se se misturam com a esfera pública.”

    Pois aqui temos opiniões diametralmente opostas. Para mim OBVIAMENTE que são do dominio privado. E só as pessoas dessa relação é que as podem tornar publicas, se assim o entenderem. Como não a conheço bem tenho de fazer uma pergunta: considera-se liberal?

    “Acha que um político (ou um nomeado politicamente) que dá um bem remunerado emprego a uma namorada que não tem qualquer qualificação não deve ser escrutinado porque a relação é do domínio privado?”

    Um politico que dá um bem remunerado emprego a uma pessoa que não tem qualquer qualificação DEVE ser escrutinado. A relação NÃO DEVE ser escrutinada, nem é relevante para o caso.

    “Ou, no caso FC, se a senhora pelos vistos até está presente em actos constantes de uma visita oficial de um PM dum PALOP (pagos pelos contribuintes) acha que ninguém tem nada que se inquirir da razão da sua proximidade a Sócrates e da razão das suas colunas de opinião?”

    Depende, se gosta de cuscuvilhar relações alheias então tem algo para o fazer, caso contrário não. Quanto à razão das suas colunas de opinião, não vejo qual o interesse nisso. Você ainda não me perguntou se eu não sou o namorado/amigo/escravo sexual da FC até agora pois não? Porquê? Porque pura e simplesmente sabe que eu estou a dar uma opinião e como opinião ela não é isenta. O mesmo se aplica a todos os colunistas.

    Para saber se o artigo de opinião é bom ou não, o que interessa é saber se os fundamentos contidos nessa opinião são verdadeiros, racionais, etc…

    Aliás foi isso que o LL, e bem, apontou inicialmente. Julga-se uma opinião pelo o que ela contém e não pelo background da pessoa que a profere.

    Ah, esperem, isto da privacidade afinal só se aplica às contas bancárias…

  19. Luís Lavoura

    “o LL, invejoso, veio pôr em causa os critérios de selecção dos bloggers que foram a Bruxelas”

    Falso. Leia bem o que escrevi. Eu não sabia nada sobre a história da ida de bloggers a Bruxelas e perguntei com que critérios tinham esses bloggers sido escolhidos. Nunca pus em causa esses critérios.

  20. Pingback: Para ler ou reler « O Insurgente

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