Os deuses, afinal, não estão todos loucos

Nos últimos tempos, a espaços (demasiado frequentes para a minha paz de espírito e continuada confiança no futuro – meu e, sobretudo, dos meus filhos (e dos filhos dos meus filhos, poderia até acrescentar à Jim Hacker)) assaltava-me a dúvida se uma onda de loucura que dá pelo nome de keynesianismo não se teria apossado dos líderes políticos mundiais que eu até aqui considerava minimamente confiáveis (claro que não me refiro ao despesista-escondido-em-pele-de centrista-Obama ou a subprodutos socialistas como o nosso PM). Dizia-me a comunicação social do mundo inteiro que as cúpulas políticas sabiam que o capitalismo como o conhecíamos era um vilão que necessitava de ser domesticado pelo domador chamado Estado e posto o primeiro ao serviço deste último. Inevitavelmente assustavam-se as pessoas sem vocação para viverem à conta de subsídios estatais ou sem vocação para pagarem os subsídios estatais àqueles, particulares ou empresas, que têm meios para fazerem pela sua vida. (E não, esta frase não é equivalente a defender fins de ajudas estatais a quem realmente necessita, como crianças e idosos de facto pobres, por exemplo).

Um primeiro conforto veio da recusa dos europeus (dos tais líderes até aqui minimanete confiáveis) em gastarem mais dinheiro estatal em estímulos à economia, ao contrário do pretendido pelo referido lobo em pele de cordeiro; o dinheiro prometido destina-se quase totalmente ao FMI e ver-se-á se o conseguirão obter.

Ontem, no entanto, algo sucedeu que me apaziguou. Fiz parte do grupo de bloggers que viajou para Bruxelas, convidados pelo MEP Carlos Coelho, para conhecer MEPs de vários grupos parlamentares e algumas pessoas ligadas à Comissão Europeia. Ontem reunimo-nos com o Conselheiro Especial do Presidente da CE para os assuntos económicos, Dr. António Cabral. Além de uma inquestionável competência técnica – que de resto encontrei em todos os nossos interlocutores, mesmo quando havia, e houve com frequência, divergências ideológicas – António Cabral demonstrou perceber os riscos do excesso de intervenção estatal para “salvar o curto prazo” e dos custos que isso trará às gerações futuras, revelou que vários governos europeus também se preocupavam com o facto, reconheceu as deficiências das políticas expansionistas (em que altura se deve gastar o dinheiro? com os lags de informação, como se pode determinar o momento oportuno?), afirmou que seriam necessárias correcções de sentido contrário – não só orçamentais (de acordo com o espírito do PEC que preconiza défices em tempos de contracção e superavites em tempos de expansão) como também das distorções actualmente introduzidas por excesso de intervenção – aquando da retoma, informou que uma crise mesmo que grave não pode pôr em causa a bondade do capitalismo e de tudo o que lhe é subjacente. Enfim, tem as ideias no sítio certo. Reconheço: sabendo que Durão Barroso (e finalmente entendi a reputação de liberal que Barroso goza lá por fora) escolheu este conselheiro e que quem nós escolhemos diz muito de nós, nunca nada me fez apreciar tanto o Presidente da Comissão Europeia como o conhecimento das suas ideias sobre política económica.

(Post emendado, para se esclarecer bem que as correcções futuras não serão apenas orçamentais).

14 pensamentos sobre “Os deuses, afinal, não estão todos loucos

  1. Luís Lavoura

    “o grupo de bloggers que viajou para Bruxelas, convidados pelo MEP Carlos Coelho”

    !!!

    Não sabia da existência de tal grupo e convite.

    Permito-me perguntar o seguinte à Maria João:

    1) Quem mais fez parte desse grupo, por exemplo?

    2) Como foram escolhidos os bloggers convidados? Diretamente por Carlos Coelho? Por candidatura e seleção? Com que critérios?

    3) Quais os objetivos declarados do convite e viagem?

  2. Maria João Marques

    Miguel, obrigada.Queria mesmo ter colocado o link do post do João Villalobos e esqueci-me. Já lá está.

    Luís Lavoura, as perguntas 1 e 3 estão respondidas no post do Corta-Fitas, pelo que não vou repetir. O convite foi feito directamente por Carlos Coelho e, informo-o também já que não há nada a esconder e eu fiz mesmo questão de informar sobre a natureza da viagem, ao abrigo do orçamento que todos os MEPs têm para organizarem visitas de esclarecimento sobre as instituições europeias deste género. É possível que tenhamos tido acesso a algumas pessoas e a espaços da Comissão devido ao facto de a organização ter estado a cargo de quem tem acesso mais ou menos facilitado a Durão Barroso, mas asseguro-lhe que não houve concertação de estratégia para derrubarmos os governos mundiais, nem criámos nenhuma asscociação secreta rival da maçonaria, nem sequer houve algum condicionamento sobre o que escreveríamos da viagem, nem, imagine!, nos deram um boletim de voto já preenchido (com voto no PSD; obviamente) para colocarmos nas urnas a 7 de Julho.

  3. Luís Lavoura

    Obrigado pela resposta. Concluo portanto que o eurodeputado Carlos Coelho escolheu discricionariamente os bloggers que quis, sem que estes se tivessem candidatado ou pedido para ir.

    Verifico também que o eurodeputado, apesar de ser membro do PPE, teve o cuidado de levar os bloggers a um encontro com o líder parlamentar da ALDE – o que só lhe fica bem.

  4. “afirmou que seriam necessárias correcções de sentido contrário (de acordo com o espírito do PEC que preconiza défices em tempos de contracção e superavites em tempos de expansão) aquando da retoma, informou que uma crise mesmo que grave não pode pôr em causa a bondade do capitalismo e de tudo o que lhe é subjacente”

    Bem, penso que é exactamente a isso que é suposto chamar-se “keynesianismo”.

  5. Maria João Marques

    Miguel Madeira, as correcções são das distorções provocadas nas economias pelo excesso de intervencionismo estatal, não “políticas de estabilização” ou de manipulação da procura agregada. O senhor, felizmente era tudo menos keynesiano. E aconselho a leitura de disparates vários do Paul Krugman e derivados para saber o que defendem actualemnte os keynesianos.

    Luís Lavoura, exactamente: o MEP Carlos Coelho escolheu discricionariamente os bloggers que quis, de acordo com os critérios que achou bons, tal como todos os outros MEPs podem fazer. De facto devia ter havido concurso público, publicação de anúncios em jornais, etc. Quanto a líderes de grupos parlamentares, encontrámos-nos com os do PPE e dos liberais; além disso encontrámo-nos com um membro do PSE e outro deputado liberal alemão.

  6. lucklucky

    Carlos Coelho é só mais um dos que faz o serviço da esquerda. Basta ver como está subjugado intelectualmente á esquerda quando dá entrevistas no programa da RTP.

  7. Luís Lavoura

    outro deputado liberal alemão”

    Deve referir-se a Alexander Álvaro, deputado do FDP (Freie Demokratische Partei) alemão, que é de ascendência portuguesa.

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  9. Lucklucky, sim, o grupo de eurodeputados do PSD é bastante esquerdista, concordo. Escreverei sobre isso depois. Por isso é que comecei por escrever sobre a comissão, que me impressionou muito favoravelmente.

    Luís Lavoura, sim, tratou-se do Alexander Alvaro.

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