Quatro anos e meio que mudaram o País

“Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves

O deputado pediu a palavra, ergueu-se da cadeira e declarou:
“Os portugueses não podem confiar num primeiro-ministro que uma vez diz umas coisas e outra vez diz outras. (…) A conclusão a que chegamos é que o senhor não tem jeito para isto. (…) Mas o sr. primeiro-ministro não se vai daqui embora sem falar num último tema. (…) É o caso de um ministro do seu governo que fez uma pressão ilegítima junto de uma estação privada e que conduziu à eliminação de uma voz incómoda para o seu governo. O sr. primeiro-ministro desculpar-me-á, mas quero dizer-lhe com clareza: esse episódio é indigno de um governo democrático, e é um episódio inaceitável. E é uma nódoa que o vai perseguir, porque é uma nódoa que não vai ser apagada facilmente, porque é uma nódoa que fez Portugal regressar aos tempos em que havia condicionamento da liberdade de expressão. E peço-lhe, sr. primeiro-ministro, que resista à tentação do controle da comunicação social. Não vá por aí porque nós cá estaremos para evitar essas tentações.”

A data era 14 de Outubro de 2004, dois meses antes de o presidente da República dissolver o Parlamento que aqui serve de cenário. O deputado chamava-se José Sócrates Pinto de Sousa e o primeiro-ministro Pedro Santana Lopes. A gravação do discurso está na Internet e não me canso de a ver e de me rir ao vê-la. Mas, como dizia o outro, rio para não chorar. Em quatro anos e meio, a nódoa transformou-se em derrame petrolífero, as tentações tornaram-se irresistíveis e não decerto haverá regresso ao tempo em que todos fomos assim ingénuos. Todos, excepto aquele que já então tinha verdadeiro jeito para “isto”, embora as ameaças de processos judiciais e, vá lá, algum decoro me impeçam de dizer o que “isto” é.

5 pensamentos sobre “Quatro anos e meio que mudaram o País

  1. Luis

    e pensar que a Assembleia da Républica foi dissolvida por causa de “episódios vários que me dispenso de enumerar”.
    Foi há apenas 5 anos. E no entanto parece que foi há séculos. E agora, no meio desta pouca vergonha, nada se passa.
    “Ai Portugal Portugal, de que é que tu estás à espera?”

  2. Pingback: A ler «

  3. JMG

    A diferença entre há 5 anos e agora é óbvia: Há 5 anos a maior parte da opinião pública era contra o Governo; agora é a favor. Demitir o Governo iria facilitar a vida ao PS, que acrescentaria ao choradinho da crise externa a campanha negra de que o PR passaria a ser o vértice.
    Podemos correr e podemos saltar: É preciso que as coisas afundem ainda muito mais antes de o eleitorado ver que com a esquerda não vamos lá. E atrevo-me a dizer que uma vitória do PS com maioria absoluta seria o ideal, porque algures no decorrer do mandato ou nos poriam fora do Euro ou mais provàvelmente nos apresentariam a conta do necessário bail-out do País. Talvez então – talvez – nós Portugueses ficássemos vacinados contra esquerdismos distributivos. Lição cara sem dúvida – mas a maior parte do preço já está paga.

  4. lucklucky

    JMG não acredite nisso. Quais a verdaeiras diferenças políticas entre 1978 e 2008? Nenhumas apreciáveis. As guerras em Portugal são mais pessoais que políticas. A cultura política é inexistente e essencialmente uniforme numa espécie de Social Fascismo económico. Onde há propriedade privada limitada e a hipóteses de expulsar o Gestor de 4 em 4 anos. No entanto a Assembleia Geral das Corporações e dos Media determina que o Governo que vem não pode ser muito diferente do que aquele que saiu, os Mitos do Regime são perenes. Para mais como se espera que alguma coisa mude quando os jornais lançam flores sobre Obama uma espécie de Guterres Americano?
    A única esperança que tenho é que eu esteja errado e cada vez mais pessoas se consigam afastar da lógica dos jornais e TV’s.

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