“Financial Crisis: The Failure of Accounting Reform”

Uma crise como a que vivemos é fruto necessariamente da conjugação de inúmeros factores. Começamos desde logo hoje a perceber que provavelmente a utilização do crédito como forma de acelerar uma determinada noção de “justiça social”, que patrocinou um acesso especulativo à habitação e níveis de consumo desajustados da produtividade real das familías, terá sido uma das causas estruturais da crise. Percebemos ainda que o dinheiro barato fez com que o aforro tradicional perdesse importância, dadas as rendibilidades negativas depois de impostos que geravam, conduzindo a uma trasferência  das poupanças para soluções de maior risco e complexidade, acções e produtos estruturados, cujo funcionamento e performance a maioria dos aforradores (e até dos assessores financeiros) não domina. Concluímos também que o “easy money” (ou o “pilim” dos outros) serviu para criar uma nova classe de empresários, que utilizaram o crédito para tomar conta de empresas, crédito esse vezes demais concedido por instituições financeiras públicas ou privadas capturadas por uma minoria, que, não só asseguravam o financiamento, como assumiam o risco das operações em causa, em situações de baixa transparência; parte do mercado de capitais, aliás, em vez de inspirar credibilidade e transparência, passou mais a ser fonte de matéria jornalística para a imprensa económica, que começou a dedicar-se, não tanto à informação, mas à publicação em fascículos de novelas do tipo siciliano. 

O Professor Huerta no mises.org vem agora esclarecer o porquê da sua crítica às IAS, e às razões que as justificam, numa análise que não subscrevo integralmente, mas que levanta pontos que merecem ser discutidos: “Financial Crisis: The Failure of Accounting Reform”.

3 pensamentos sobre ““Financial Crisis: The Failure of Accounting Reform”

  1. Luís Lavoura

    Embora eu compreenda a crítica de Huerta às IAS como sendo pró-cíclicas, acho ridícula e impraticável a proposta alternativa que ele faz, de voltar às “práticas tradicionais de contabilidade” baseadas na “prudência” e no registo histórico. É que essas práticas tradicionais são tão pouco objetivas, e tão enganadoras, como as IAS. (Se, por exemplo, nos formos a basear na história, facilmente concluiremos que o tráfego aéreo em Lisboa vai crescer sem parar ao longo dos próximos anos, pelo que se impõe construir um novo aeroporto – uma conclusão errónea, baseada numa extrapolação errada da história passada.) O valor de uma propriedade é sempre subjetivo.

    Tomemos por exemplo o valor de uma casa. O seu valor de mercado é conhecido e, naturalmente, reflete a especulação (no sentido da subida ou da descida) nos preços das casas. Trata-se portanto de uma medida imperfeita do valor da casa. Por outro lado, o valor que eu possa atribuir a essa casa também é subjetivo! Eu posso dizer que a casa vale menos do que o que parece porque se situa numa zona má da cidade, mas isso é uma avaliação subjetiva – a zona má pode amanhã transformar-se em zona boa, e vicé-versa. Portanto, não há qualquer atribuição “prudente” de valor a uma casa, e o seu valor “histórico” é algo que também não tem sentido.

    Em suma, Huerta faz uma boa crítica às IAS, mas aquilo que ele propõe em troca não tem ponta por onde se lhe pegue.

  2. “Tomemos por exemplo o valor de uma casa.”

    Tradicionalmente, o valor líquido contabilístico de uma casa decresce ao longo do tempo, via Amortizações. Gestores desejosos de “aumentar” o valor dos activos da empresa podem reavaliar a casa aos actuais preços de mercado (uma forma de mark-to-market), aumentando as Reservas de Reavaliação (Capitais Próprios) e, consequentemente, o rácio de solvabilidade da mesma.

    Tal prática contabilística pode influenciar negativamente futuras decisões de gestão, caso a reavaliação da casa demonstre ser demasiada… optimista!

  3. Luís Lavoura

    “Tal prática contabilística pode influenciar negativamente futuras decisões de gestão, caso a reavaliação da casa demonstre ser demasiada… optimista!”

    Certo. Por outro lado, a prática tradicional de fazer descer o valor da casa ao longo do tempo também pode influenciar negativamente futuras decisões de gestão, caso o valor de mercado da casa esteja de facto a crescer, e portanto a descida do valor da casa demonstre ser demasiado pessimista.

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