Política monetária: introdução

Nota: dada a demora na publicação (e extensão) do seguinte comentário, este foi “promovido” a post.

Dias atrás, o insurgente CGP ironizou:

Universalmente, o crédito é dos poucos bens cujo preço não resulta do livre jogo da procura e da oferta. Quase todos os países do Mundo decidem centralmente o preço do crédito. Houve uma crise do crédito, de quem é a culpa? Do mercado, claro.

Ao que o Carlos Santos contestou com o seguinte comentário:

Não. Os Bancos centrais determinam refinanciamento no mercado monetário. Os EUA são um caso de divorcio entre as taxas de mercado e a taxa directora, por exemplo.

Pois… se assim fosse, as variações das taxas Euribor em conformidade com alterações da taxa directora do BCE seriam total coincidência!!!

O contributo de Carlos Santos, na qualidade de professor de econometria, talvez fosse útil para o debate sobre qual é o melhor modelo econométrico para estimar o PIB per capita russo. Mas a citada declaração confirma a minha crença na sua incapacidade em compreender as acções e consequências das políticas monetárias seguidas pelos bancos centrais.

E, infelizmente, o Carlos Santos nem sequer teria cometido tal erro se, meses atrás, tivesse seguido a minha sugestão em visionar um video educacional produzido pelo próprio Banco Central Europeu, intitulado “Os instrumentos de política monetária”, e que julgo ser de fácil compreensão.

Deste modo – e assumindo que o problema inicial do Carlos Santos com o referido video deveu-se a um qualquer problema técnico com as colunas de som do seu computador – transcrevo abaixo as afirmações mais relevantes (caro Carlos Santos, especial atenção para o minuto 3:14…):

[00:56] O Banco Central Europeu, tal como outros bancos centrais, pode influenciar o nível das taxas de juro no mercado monetário cujas condições têm um impacto considerável em todas as outras taxas de juro e, desse modo, no conjunto da economia através de uma diversidade de canais que constitui um complexo processo conhecido como mecanismo de transmissão da política monetária.

[1:17] O BCE dispõe de uma variedade de instrumentos de política monetária. As operações principais de refinanciamento são o mais importante desses instrumentos.

[3:14] (…) as taxas do mercado monetário são normalmente muito próximas da taxa mínima de proposta fixada pelo BCE o que prova que esta taxa mínima é um instrumento eficaz para influenciar as taxas do mercado.

[4:22] As reservas mínimas obrigatórias são outro instrumento importante. O BCE exige aos bancos um montante mínimo de liquidez, média, durante um determinado período. Esta exigência contribui para a estabilização das taxas do mercado monetário e aumenta a dependência dos bancos relativamente à liquidez fornecida pelo BCE.

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12 thoughts on “Política monetária: introdução

  1. Esta troca de opiniões é a controvérsia antiga entre a macro economia e a micro economia.
    Uma coisa é utilizar modelos, mais ou menos complexos (e que têm a validade que a experiência e a incerteza social) que pretendem prever a realidade futura, outra é as decisões, muitas vezes eivadas de irracionalidade, que as pessoas, as familias e as empresas tomam.
    A economia explica uma forma de relacionamento social, mas há mais formas, pelo que não esgota a definição social.
    A sociedade e os individuos são complexos e, muitas vezes, fogem a padrões matemáticos.
    A questão principal é mais funda e enraiza-se na relação entre o poder do Estado e a liberdade (ou liberdades) individuais.

  2. Diebold

    Eu fiquei espantado quando li esse comentário do Carlos Santos. Claro que um doutorado em Economia não têm que ser especialista em Finanças, mas esse comentário revela uma ignorância confrangedora. Qualquer modelo sério de previsão da ETTJ (por exemplo, através da parametrização de Nelson-Siegel de yields Fama-Bliss de obrigações do Tesouro) tem que incluir taxas directoras do Banco Central, que são responsáveis por grande parte da variância observada na dinâmica da ETTJ.

  3. CN

    “A sociedade e os individuos são complexos e, muitas vezes, fogem a padrões matemáticos.”

    Espero bem que fujam. Não existe amtemática em economia, quanto muito a estatística caracteriza com variáveis limitadas um determinado período do tempo, mas pouco ou nada explica quanto às causa e efeitos.

    Quanto aos Bancos Centrais nem sei onde está a discussão:

    – OS BC emprestam dinheiro (reservas) criando dinheiro a custo zero e cobrando uma taxa administrativa
    – OS BC compram activos (como dívida pública) criando dinheiro (reservas) a custo zero

    O sistema bancário depois, com novas reservas podem expandir a moeda (até +/- 20 vezes) criando crédito com o custo marginal das reservas. E assim tempo o processo pelo qual se formam bolhas seguidas de recessões e crises bancárias.

    O Carlos Santos na tradiçao “mainstream” fala de “armadilha de liquidez” só para não dizer que o sistema bancário é virtualmente insolvente semrpe que as pessoas na sua maior razoabilidade desconfiam da insolvência de uem sistema que apenas efectivamente tem 5% dos Depósitos à Ordem em Reservas.

    Insolvência que só não se materializa porque os Bancos Centrais injectam (criam) ainda mais moeda para ajudar os Bancos com inflacionismo. Até.

  4. Isto tem mais graça do que parece. Vocês o material ideal para com uns pequenos gráficos demonstrar que os conhecimentos de finanças ou bancos, ou política monetária fugiram daqui a sete pés. Agora são mesmo o gozo da blogosfera.

    Grande abraço!
    Carlos Santos

  5. CN

    Em resposta o Carlos Santos apresenta um gráfico que representa em si o próprio falhanço de todo o sistema. Aquele onde o mercado monetário deixa de responder à fixação de taxas pelo Banco Central, através das operações regulares.

    Por isso mesmo, tiveram que injectar quantidades de moeda nunca vistas da história para impedir o virtual colapso de todo o sistema monetário mundial.

    Pois em vez de concluir isso, o Carlos Santos conclui que essa é a prova que os Bancos Centrais não influem as taxas de juro

    Good God!

  6. Pedro

    “gozo da blogosfera”!?!?!?!?!?!?!?!?!

    parece um miudo a tentar “picar”…muito bom, sim senhor!!

  7. De facto o Carlos Santos cada vez mais se expõe ao ridículo.
    Só ele é que percebe daquilo. Todos os outros são burras.
    Já se sabe que tanta sumidade dá sempre em asneira (quanto mais não seja pela ridícula figurinha que anda a fazer pela blogosfera)
    Já toda a gente percebeu a sua sede de protagonismo. Cá para mim, sigo o conselho do lucklucky…

  8. Caros,

    A voss i ignorância grassa o ridículo: o que os gráficos mostram é o erro do BZ ao reclamar que eu estava errado ao dizer que as taxas de juro de mercado se podem separar das das taxas directores. Isso, CN chama-se armadilha de liquidez. Mas você nem acredita nisso.

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